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Uma dica de filme, de livro e talvez uma música: nas tradições de final de ano, o que acontece quando “o filme termina e a realidade continua”?

Uma dica de filme, de livro e talvez uma música: nas tradições de final de ano, o que acontece quando “o filme termina e a realidade continua”?

Sendo este o derradeiro texto desta coluna, em 2025, era esperado que, tal como acontece na quase totalidade dos veículos de comunicação, dedicássemo-nos a uma retrospectiva de lançamentos do ano em questão. Ao invés disso, permitir-nos-emos uma leve subversão: que tal indicar um livro que fala obsessivamente sobre um filme que, por sua vez, foi baseado em dolorosos eventos reais? A sanha por estarmos permanentemente atualizados acerca das novidades artísticas e audiovisuais eventualmente faz com que obliteremos um aspecto básico: há muito a conhecer sobre produtos de anos anteriores, que merecem ser descobertos. A propósito: já leram o romance espanhol “O Estrangulador”, lançado em 1994, por Manuel Vázquez Montalbán [1939–2003]?

Neste livro, a instância narrativa apresenta-se como Albert DeSalvo [1931–1973], típico pai de família bostoniano, que, entre 1962 e 1964, assassinou treze mulheres, com requintes de crueldade. À medida que avançamos na leitura, percebemos que, em verdade, trata-se de um paciente manicomial, que, por algum motivo, identifica-se com o matador. Surge uma primeira questão: os relatos cinematográficos ou literários sobre assassinos seriais não espetaculariza estes eventos trágicos, em vez de denunciá-los?

Bastante erudito, o narrador do livro reclama da personificação levada a cabo por Tony Curtis [1925–2010], no longa-metragem “O Homem que Odiava as Mulheres” (no original ‘The Boston Strangler’), dirigido pelo cineasta Richard Fleischer [1916–2006] em 1968: “não tenho nada a ver com o ator Tony Curtis, a quem propiciei o melhor papel de sua vida, oportunidade que ele em nada aproveitou”, diz o personagem do livro, no início do terceiro capítulo. E continua: “Tony Curtis vinha de baixo, como eu, mas se limitou a se fazer de bonitão para encarnar personagens que não tinham nada a ver com ele, e assim não atingiu este nível superior, enciclopedista, renascentista, que é dado pela aquisição de conhecimentos diversificados e pela aplicação da razão a tudo o que penetra no território de nosso comportamento”. Da mesma maneira que o estrangulador real, este narrador literário enfrenta problemas de personalidade, de modo que, ao longo dos capítulos, precisaremos de uma reviravolta perpetrada por um psiquiatra, a fim de que consigamos distinguir delírios de memórias.

No filme, apesar de o nome do astro aparecer primeiramente nos créditos, ele só entra em cena após exatamente uma hora de projeção: o diretor optou por uma narrativa originalíssima, que se serve de vários reenquadramentos e telas divididas, a fim de expor a crueldade dos crimes de Alberto DeSalvo, inicialmente direcionados a mulheres idosas e, mais tarde, acometendo jovens. Uma delas sobrevive; outra é empalada por uma vassoura, introduzida em sua vagina. Segundo o personagem do livro, Richard Fleischer é “um desses diretores que os críticos pedantes qualificam de artesãos, mas nos limites de serem autênticos criadores”. De fato, a maneira como ele faz com que a trama avance é deveras criativa, expondo os detalhes da investigação conduzida por um detetive (George Kennedy) e por um experiente advogado (Henry Fonda), que chega a contar com a participação de um paranormal (George Voskovec), que faz com que um fetichista seja preso, suspeito de cometer os assassinatos. Até que o filme muda radicalmente de tom…

Ao contrário do que costuma acontecer nesta coluna, as descrições sinópticas de livro e filme surgem intencionalmente vagas, aqui, pois a nossa intenção efetiva é recomendar ambas as obras, além de reiterarmos a importância de assistirmos aleatoriamente a produções antigas ou lermos romances adquiridos por acaso. É assim que podemos encontrar trabalhos artísticos mui contundentes, infelizmente subestimados pelo agendamento midiático, que indica os mesmos títulos, com pequenas variações de lista para lista. Por esta razão, achamos muito mais importante — em termos de variedade de catálogo — a assinatura de canais fechados de TV aos serviços de ‘streaming’, além, claro, das constantes visitas a lojas de livros usados e/ou DVDs. E, como estamos em época natalina, aproveitamos o contexto de louvação filial para indicar uma canção inaudita, cantada pelo diretor espanhol Pedro Almodóvar, em sua juventude, e por seu companheiro de palco Fabio McNamara. Trata-se de “Voy a ser Mamá”, que é ouvida incidentalmente na trilha musical da obra-prima “A Lei do Desejo” (1987) e cuja letra apregoa: “Vou ter um bebê/ E o vestirei de mulher/ O incrustarei na parede/ O chamarei Lucífer e o ensinarei a criticar e a viver da prostituição”. Metaforicamente, é o fazemos no dia a dia, à guisa de enfrentamento da heteronormatividade, que estimula o adoecimento de pessoas como aquelas que foram mencionadas ao longo desse texto. Ou da pessoa que o escreve, em sua repulsa pela data comemorativa em questão. Até o ano que vem!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem disponível em https://assets.mubicdn.net/images/film/27592/image-w1280.jpg?1745489890

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