“Aos domingos, era diferente…”: ou de quando o mínimo, na realidade, converte-se em fantasia!

Tu já ouviste falar de um média-metragem porto-riquenho chamado “Modesta” (1956, de Benjamin Doniger), sobre a criação espontânea da LML (Liga das Mulheres Liberadas), no interior de uma região insular? No roteiro, as esposas do bairro Sonadora, no município de Guaynabo, cansadas de serem maltratadas por seus maridos, reúnem-se e exigem tratamentos básicos, como os direitos de não serem espancadas e de receberem o auxílio de seus companheiros na educação dos filhos. Isto não deveria ser algo elementar num matrimônio?

É menos pior chegar atrasado que faltar? (ou de como lidar com a falta induzida de assunto)

Se tu moras na região metropolitana da capital do menor Estado do Brasil, convido-te a comparecer nas sessões da “Mostra Cinematográfica de Cinema e História: o Oscar® e o ‘Zeitgeist’”, cujas inscrições estão abertas no sistema SIGAA da Universidade Federal de Sergipe; se tu não moras, reitero o pedido de todas as semanas: conversemos, puxem assuntos, questionem o que está publicado, tragam novas contribuições dialogísticas para a esfera pública.

Uma dica de filme, de livro e talvez uma música: nas tradições de final de ano, o que acontece quando “o filme termina e a realidade continua”?

Sendo este o derradeiro texto desta coluna, em 2025, era esperado que, tal como acontece na quase totalidade dos veículos de comunicação, dedicássemo-nos a uma retrospectiva de lançamentos do ano em questão. Ao invés disso, permitir-nos-emos uma leve subversão: que tal indicar um livro que fala obsessivamente sobre um filme que, por sua vez, foi baseado em dolorosos eventos reais? A sanha por estarmos permanentemente atualizados acerca das novidades artísticas e audiovisuais eventualmente faz com que obliteremos um aspecto básico: há muito a conhecer sobre produtos de anos anteriores, que merecem ser descobertos…

“Não sou eu que dirijo os teus sonhos”: “tu te elevas ao receber o amor de uma pessoa morta?”

Em “Não Sou Eu”, Leos Carax compartilha bastante: a despeito de seu título negativo, trata-se de um filme positivamente confessional, em que ele ousa insinuar a possível colaboração nazista de seu pai, Georges Dupont, e se compara ao polonês Roman Polanski, já que ambos são “cineastas e baixinhos”, sem obliterar que este realizador é condenado pelo estupro de uma menor de idade, na década de 1970. Por mais que o diretor afirme a sua predileção pelos planos “já vistos”, esta autobiografia não convencional surpreende pela criatividade, ainda que não esconda o parentesco com a filmografia de Jean-Luc Godard [1930-2022], de quem Leos Carax é admirador confesso.

“Loucura, loucura, loucura, loucura, loucura. Doença, doença, doença… Caixa d’água!”: é lícito que um realizador escreva elogiosamente acerca de sua própria obra?

Sem ter a intenção de responder ao que foi perguntado, mas de estimular o debate sobre a capacidade de um diretor tornar-se espectador apaixonado daquilo que efetivou, trazemos à tona o célebre exemplo do cineasta Neville D’Almeida, que, ao ser questionado sobre qual seria o seu filme favorito de todos os tempos, não titubeia: “Rio Babilônia” (1982, de Neville D”Almeida). E ele explica os porquês de amar tanto o próprio filme, no sentido de que, quando o revê, assiste a exatamente aquilo que desejou filmar. Faz sentido a apreciação, portanto? Para muitas pessoas, isso seria um indicativo de extrema vaidade. Qual seria a maneira menos problemática de demonstrar afeto por algo correspondente àquilo que foi intentado, em âmbito artístico/discursivo?

“Antigamente, eu conhecia todo mundo; hoje em dia, quase ninguém”: o que será que mudou, depois que acabou a pandemia?

Ainda que ‘Tempo Suspenso” (2024, de Olivier Assayas) funcione como uma válida autocrítica acerca de como o diretor e seus amigos desenvolveram comportamentos obsessivos a partir da reiteração midiática do pavor de contágio, os diálogos não são tão inspirados quanto noutras produções do realizador: o desfecho é deveras anticlimático, resvalando numa lógica meramente explicativa de como funcionam as heranças familiares, que vai na contramão do que é exposto no impressionante “Horas de Verão” (2008), para ficar num contraponto imediato, quase invertido, em seu espelhamento contextual.