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“Os branquelos adoram ‘blues’, mas não gostam de quem criou esse tipo de música”, ou de quando o filme mais indicado não é precisamente o favorito…

“Os branquelos adoram ‘blues’, mas não gostam de quem criou esse tipo de música”, ou de quando o filme mais indicado não é precisamente o favorito…

Quando foram anunciadas as indicações à nonagésima oitava edição dos prêmios Oscar, em 22 de janeiro de 2026, o filme “Pecadores” (2025, de Ryan Coogler) surpreendeu por ser mencionado em dezesseis categorias, um recorde absoluto — e dificílimo de ser superado daqui por diante, visto que o longa-metragem foi citado em todas as categorias possíveis de ser indicado, exceto uma, a de Melhor Atriz. Além deste feito impressionante, “Pecadores” foi exitoso em três searas: conseguiu ser lembrado pelos votantes, mesmo sendo lançado no mês de abril, bem antes da temporada de final de ano; trata-se de um filme de terror, comumente ignorado pelos membros mais conservadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas; e é produzido e interpretado majoritariamente por pessoas negras, comumente ignoradas pela premiação, historicamente associada a atos discriminatórios. Não por acaso, malgrado todos estes feitos, o filme não é o favorito nas categorias principais…

Alguns aspectos estruturais do filme contribuem para o estranhamento que ele causa, sendo bastante divisivo desde o seu lançamento: houve quem o considerasse, de imediato, um dos melhores do ano; houve quem enfatizasse uma lista de deméritos. Primeiro, porque o roteiro é simplista na construção de diálogos, sobretudo na segunda metade da obra, não obstante ser vigoroso no modo como denuncia o racismo — Exemplo: quando um personagem pergunta “como é viver numa cidade sem segregação?”, alguém responde: “a diferença é que tem prédios!”; e, segundo, porque a montagem é precipitada na implantação de ‘flashbacks’ e flashforwards’, além de não ser bem sucedida na instauração de situações paralelas, frequentemente utilizadas para demonstrar a bravata do realizador em sequências ambiciosas, como os planos longos que atravessam mais de um espaço. Onde o filme acerta, portanto?

Celebrando a quinta entrega actancial concedida pelo diretor ao seu ator-fetiche, Michael B. Jordan — que recebeu o prêmio de Melhor Interpretação Masculina, no Sindicato dos Atores, por este papel —, em “Pecadores”, o astro interpreta um papel duplo: ele vivifica os gêmeos Elijah/Fumaça e Elias/Fuligem, veteranos da I Guerra Mundial que agiam como gangsteres em Chicago e, ao retornarem para o Estado do Mississipi, onde cresceram, órfãos de mãe e culpados pela morte do pai abusador, resolvem converter um galpão recém-comprado de um fazendeiro branco (e indisfarçadamente racista) em salão de festas, com o objetivo de lucrar através da venda de bebidas alcoólicas, então proibida. Para isso, contam com a ajuda do primo Samuel Moore (Miles Caton), apelidado “Pastorzinho”, por ser filho do rígido Jedidiah (Saul Williams), líder religioso local, que considera pecado entregar-se à música: “dance com o Diabo e, um, dia, ele te acompanhará até a tua casa”, diz o pai de Samuel.

O título do filme, confirmando uma predicação de Jedidiah, possui interessante conotação crítica, no sentido de que a religião imposta como falsa apaziguadora de conflitos surge como motivação para as atitudes dos vilões, sendo mui representativo o instante em que Samuel, a fim de livrar-se de um ataque vampiresco, começa a rezar o Pai-Nosso, e surpreende-se ao perceber que o agressivo Remmick (Jack O’Connell), de origem irlandesa, completa a oração, dizendo que este foi o ensinamento que os invasores de seu povo impuseram-lhe à força. Que este personagem seja um vampiro perseguido por nativos indígenas e desejoso de apropriar-se da musicalidade negra é algo deveras significativo!

Ainda que o roteiro, escrito pelo próprio diretor não seja assaz exitoso na administração das mudanças de tom entre os segmentos do filme — que começa como uma homenagem racializada ao filmes de gângster, avança como um terror com toques cômicos e musicais, e termina com um epilogo vingativo em que um único personagem, pretensamente enlutado e segurando uma metralhadora, fuzila diversos membros da Ku Klux Klan —, os seus aspectos discursivos são fascinantes, o que se confirma numa das cenas exibidas durante os créditos finais, quando Samuel, já envelhecido e consolidado enquanto músico (interpretado pelo veterano Buddy Guy), recebe a visita de amigos do passado e comenta que a noite em que testemunhou a morte de quase todo mundo que conheceu na juventude foi, paradoxalmente, um dos dias mais felizes de sua vida, pois ele percebeu ser capaz de emitir um tipo de sonoridade “capaz de rasgar o véu entre a vida e a morte”. Ou seja, a assimilação um tanto estouvada das convenções dos filmes de vampiros serve como pretexto para a denúncia de outro tipo de vampirização, relacionada à apropriação cultural. Como o compositor sueco Ludwig Göransson, colaborador habitual do diretor e sumo favorito ao Oscar de Melhor Trilha Musical, é branco e europeu, isso adiciona mais um grau de questionamento às falas sobre convivência inter-racial contidas na obra — ora sinceras, enquanto aceitação das diferenças (vide o modo como a personagem Mary, vivida por Hailee Steinfeld, foi ‘adotada” como irmã incestuosa pelos gêmeos protagonistas), ora desafiadoras, na maneira como os amigos de Fuligem e Fumaça, aprisionados no salão de festas, impedem a entrada dos vampiros no recinto. Destaque para as ótimas participações de Wunmi Mosaku e Delroy Lindo, ambos indicados como atores coadjuvantes. Os problemas do filme são variegados e, sim, talvez as dezesseis indicações tenham sido exageradas, mas, como tudo indica a manifestação de um descompasso entre o sobejo de indicações e a premiação, constatar-se-á como mais que sintomático a manifestação de algo que o filme acerta em denunciar. Acontece muito ainda, infelizmente. O debate há de continuar após a cerimônia do dia 15 de março de 2026!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: https://i0.wp.com/projectedfigures.com/wp-content/uploads/2025/04/Screenshot-2025-04-22-at-11.20.35-e1745322077998.png?resize=810%2C540&ssl=1

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