“Os branquelos adoram ‘blues’, mas não gostam de quem criou esse tipo de música”, ou de quando o filme mais indicado não é precisamente o favorito…


O título do filme “Pecadores” (2025, de Ryan Coogler), confirmando uma predicação do pastor Jedidiah, possui interessante conotação crítica, no sentido de que a religião imposta como falsa apaziguadora de conflitos surge como motivação para as atitudes dos vilões, sendo mui representativo o instante em que Samuel, a fim de livrar-se de um ataque vampiresco, começa a rezar o Pai-Nosso, e surpreende-se ao perceber que o agressivo Remmick (Jack O’Connell), de origem irlandesa, completa a oração, dizendo que este foi o ensinamento que os invasores de seu povo impuseram-lhe à força. Que este personagem seja um vampiro perseguido por nativos indígenas e desejoso de apropriar-se da musicalidade negra é algo deveras significativo!
“As palavras que eu pronuncio não importam tanto, mas sim a devoção com que eu rezo”: ou por que um dos melhores filmes estadunidenses do ano sumiu das listas de favoritos de 2025?


Apesar de, sim, Wes Anderson repetir-se estilisticamente – isto chama-se autoria, afinal de contas –, a sua acachapante habilidade na escolha de temáticas é obliterada por quem insiste em dizer que o diretor “faz sempre o mesmo filme”. Definitivamente, não é o caso, malgrado ele escalar atores recorrentes e elevar as suas marcas registradas ao paroxismo. E, por mais que não seja descrito como alguém comprometido com tendências discursivas explícitas, podemos perceber como este cineasta chama a atenção para problemas recorrentes do capitalismo e das conjunturas coloniais – o que fica ainda mais evidente nos roteiros que requerem reconstituições de época, como este em particular.
“O que levou o comunismo ao fracasso foi a negação da religião”: afinal, todo mundo tem opinião!


Da maneira a que está habituada, Petra Costa preenche a sua narração com frases evasivas e/ou circunloquiais, declarando que está descobrindo relações a partir daquilo que ela apresenta, como se estivesse se surpreendendo, tanto quanto ela parece projetar no espectador. Para isso, ela não hesita em rebobinar uma determinada seqüência, a fim de esmiuçar movimentos cúmplices entre Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, além de repetir frases e explicar sentenças que, por si só, são demasiado evidentes. Contrariando uma definição senso-comunal, Petra Costa não permite que seu documentário seja didático ou imparcial, e chega a ser repetitiva naquilo que pretende expor enquanto tese, partindo de um pressuposto deveras errôneo: ela refere-se aos evangélicos de maneira sempre coletiva, em bloco, negligenciando as distinções que ocorrem entre congregações e doutrinas.
Divulgadores científicos mostram-se ignorantes em relação à religião


Há uma proliferação de influenciadores e divulgadores científicos brasileiros que estão numa cruzada contra aquilo que consideram práticas pseudocientíficas e também contra práticas religiosas supostamente danosas. Estes influenciadores tendem a ser extremamente pueris quando tratam da religião.
“Liberem os homens e mulheres que existem dentro de vocês”: da importância de filmar a realidade e revelar as estrelas do dia a dia…


O documentário “Madeleine à Paris” (2024, de Liliane Mutti) documenta o cotidiano de Roberto Chaves, um dançarino baiano que migrou para a França há mais de trinta anos e, lá, organizou a versão internacional de uma tradição do sincretismo religioso brasileiro, que é a lavagem das escadarias de igrejas católicas, por adeptos do candomblé. Orgulhoso de seus traços quase andróginos, Roberto conta histórias de sua vida, como a primeira paixão por uma mulher e que seu pai era obcecado por sexo. Mas o que está em destaque é a organização da lavagem supramencionada de uma igreja.
“Uma meio-médium é melhor do que nenhuma!”, ou será que um dos filmes de terror mais elogiados da temporada faz jus à divulgação?


Em razão de os filmes de terror serem produzidos aos borbotões, visto que se trata de um gênero muito lucrativo, obras qualitativamente descartáveis tendem a ser numerosas, de maneira que os aficcionados costumam desconfiar de títulos excessivamente divulgados. Produzido e estrelado por Nicolas Cage, ator conhecido por suas interpretações excêntricas, “Longlegs – Vínculo Mortal” (2024, de Osgood Perkins) teve algumas de suas cenas reproduzidas, fora de contexto, nas redes sociais, além de abundarem as piadas envolvendo o título original, que pode ser traduzido como “pernas longas”.
Valores


Neste princípio de milênio nós vivemos uma crise de referencias mais que tudo. Perdemos os referenciais porque deixamos que se lhes ocupassem os lugares outros valores que são pseudo-valores, são falsos como notas de três euros, mas como têm escrito nelas ‘3 Euros’ todo mundo pega. E porque? Primeiro de tudo porque fomos enganados […]
Documentário sobre o Caminho da Geira galardoado em festival de cinema na Alemanha


O documentário “O Meu Caminho”, do realizador Pedro Gil Vasconcelos, venceu a categoria de Melhor Documentário de Fé & Religião na edição de agosto do New Wave Short Film Festival, em Munique, na Alemanha. Este festival pretende criar oportunidades para cineastas emergentes, apoiando e destacando mensalmente curtas-metragens de baixo orçamento que produzem novas experiências e […]
Será mesmo que os evangélicos são tolerantes?


Resenha do livro: Spyer, Juliano Andrade. Povo de Deus: quem são os evangélicos e por que eles importam. São Paulo: Geração, 2020, 284p.
Por que novamente a ladainha da “autoridade constituída por Deus”?


Os pastores evangélicos brasileiros frequentemente retomam o discurso da defesa de algum governante baseado na ideia bíblica da “autoridade constituída por Deus”. Será que trata-se de uma doutrina cristã inequívoca e incontestável? Será que há algum consenso entre os cristãos sobre a ideia da “autoridade constituída por Deus”?
Criatura de Deus


Há 2020 anos – reza a História – nasceu Jesus Cristo. A jornada deste ser especial foi imortalizada pela religião católica: o menino nasce em Belém numa manjedoura; aquecido pelo calor de um burro e de uma vaca. Jesus é filho de uma mulher virgem – Maria imaculada – e seu pai de criação – […]
A interpretação da fé, das obras e do conceito de salvação (2ª Parte)


Nesta segunda parte, concluo a reflexão sobre o uso da fé como produto de mercado. Indulgências modernas Sem me alongar num estudo sobre as origens do Pentecostalismo, “Ele tem suas raízes no Movimento Holines, uma tendência que se alastrou pelas Igrejas dos EUA – principalmente as metodistas – na segunda metade do século XIX” (HILL, […]
A interpretação da fé, das obras e do conceito de salvação (1ª Parte)


Este artigo é um tanto longo para ser publicado de uma só vez. Por isso vou dividi-lo em duas partes. Nessa primeira, abordo as questões da fé desde a idade média, com a venda das indulgências e a Reforma Protestante até a chegada do Protestantismo ao Brasil, com os primeiros imigrantes que vieram após a […]
Quem goza, buzina; quem ama, perdoa. Enquanto isso, o preconceito (religioso) mata!


Enquanto forma de exortação sobrevivencial ao confinamento advindo da crescente mortalidade por COVID-19 no Brasil, “Azougue Nazaré” foi gratuitamente disponibilizado para audiência via ‘streaming’. Poucos anos após a sua realização, ele funciona não apenas enquanto prognóstico social mas enquanto registro mui verossímil da perniciosidade moral atrelada à extrema-direita política, em que a hipocrisia é a principal chave ativa.
Sedento
Se essa enorme sede nos tardar
Então que seja plena, absurda, monstruosa
Pois me trará a consciência viva e acesa,
O Reino da Estupidez


Estamos todos em casa, confinados, cumprindo aquilo que o nosso dever cívico nos pede, aquilo que o nosso governo – e presidente – nos solicita, aquilo a que apelam os nossos médicos e enfermeiros e, em última instância, aquilo a que o bom senso nos impele; e, depois, andam por aí umas cavalgaduras a passear-se […]
Liberdade religiosa dos evangélicos em tempos de pandemia


O que dizer quando os discursos evangélicos se colocam frontalmente contra a saúde pública? O que dizer quando os discursos evangélicos colocam em risco a saúde de toda a população?
A cristianização do império romano


“A mera decapitação não fora suficiente. Seguiram-se mais golpes, tirando o escalpe a Atena, arrancando o elmo da cabeça da deusa, partindo-o em pedaços. Seguiram-se mais golpes. A estátua tombou do seu pedestal, depois os braços e os ombros foram cortados. O corpo foi deixado sobre a terra, de barriga para baixo; o altar próximo […]
As heranças religiosas legadas a Roma


As religiões são sempre fruto de um conjunto de influências e de contextos. A religião de Roma foi também um resultado dos hábitos, práticas e crenças dos povos com que conjuntamente ocuparam a península itálica. Numa primeira fase (700-509 a.C.), destaca-se o legado Etrusco que consistiu na interpretação dos prodígios e nas práticas de adivinhação, […]
Crenças, rituais e deuses romanos


Além do célebre panteão divino, a religião romana tinha por base outras manifestações de índole religiosa. Estas resultaram da mentalidade dos povos primitivos, da ligação dos romanos à terra, da sua concepção de morte e das suas arreigadas crenças e superstições. A este conjunto acrescenta-se ainda uma marca de originalidade da civilização romana: a criação […]
