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“Não peças a teu pai algo que eu já te neguei”: acerca da experiência esquizofrênica de ser mãe em tempo mais que integral!

“Não peças a teu pai algo que eu já te neguei”: acerca da experiência esquizofrênica de ser mãe em tempo mais que integral!

A temporada hollywoodiana de premiações tende a desencadear algumas injustiças, menos pela escolha dos premiados em si que pela vinculação unilateral de alguns títulos às indicações que recebem. Ainda que tenha estreado, com burburinho, no Festival de Sundance, em janeiro de 2025, e que tenha recebido o Leão de Prata de Melhor Atriz para Rose Byrne (que também recebeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical, pelo mesmo papel, em 2026), no Festival de Berlim, “Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria” (2025, de Mary Bronstein) é um filme que ficou refém das campanhas ao Oscar, quando a suma favorita na categoria é Jessie Buckley e o roteiro ultrapassa os esquematismos desse tipo de noticiabilidade concorrencial…

Produzido, entre outros, pelo cineasta Josh Safdie — o que explica a adesão à temática da ansiedade no enredo —, “Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria” traz à tona uma questão assaz recorrente na contemporaneidade, em termos de percepção de algo que esteve invisibilizado por muito tempo: o esgotamento físico e emocional das mães dedicadas a filhos que carecem de cuidados especais — e que ainda são cobradas por isso!

No filme, Rose Byrne interpreta Linda, uma terapeuta que precisa direcionar toda a sua vida à cautela da filhinha, internada num hospital, por causa de uma doença tão grave quanto misteriosa. Não vemos esta garotinha, mas ouvimos a sua voz e as suas crises freqüentes de irritabilidade, de modo que, a cada contrariedade, ela pergunta à sua mãe se ambas vão morrer. A despeito da gravidade da doença, eventualmente Linda leva a sua filha para casa, onde precisa auscultar a sua respiração, durante todo o tempo em que ela adormece, quando ela sai de casa para fumar ou beber. Ocorre que o súbito desabamento do teto em que Linda mora, por causa de uma infiltração de água, obriga-a a hospedar-se por algum tempo num motel, o que prolonga-se em demasiado. Neste motel, Linda conhece um funcionário (interpretado pelo ‘rapper’ A$AP Rocky), que lhe pede dinheiro emprestado para comprar cocaína. E, assim, as tensões cotidianas da protagonista só aumentam!

Antes que saibamos que ela própria é terapeuta, acompanhamos Linda em discussões com o psicólogo que a avalia (vivido por Conan O’Brian), que trabalha no mesmo prédio que ela. Os pacientes de Linda revelam-se progressivamente apaixonados por si, o que é comum nesse tipo de tratamento, e uma delas, Caroline (Danielle Macdonald), comparece às sessões com o que parece ser um bebê imaginário, reclamando sobre os perigos de contratar uma babá, já que uma destas profissionais foi recentemente presa por assassinar as crianças de quem cuidava. Tudo isso contribui para que Linda mergulhe num estado psicótico que piora devido à ausência prolongada de seu marido (cuja voz é de Christian Slater), que está afastado em razão de suas atividades na Marinha norte-americana, e subestima o sobejo de atividades e cansaço a que sua esposa é submetida.

Não obstante ser comumente classificado como comédia, talvez por conta da associação corriqueira (e oportunista) entre frenesi e comicidade, a dramaticidade inerente ao registro de personagem que encontramos neste filme é mui doloroso: em determinando momento, uma confissão de aborto surge como possível explicação para as alucinações que notamos em diversos instantes da narrativa, e que talvez a encapsule num delírio associado à culpa excessiva que Linda sente. A médica responsável pelo tratamento de sua filha, vivificada pela diretora do filme, insiste para que ela, junto a outras mães de pacientes, aceitem que não são culpadas pelas doenças de seus respectivos filhos, mas Linda não consegue eximir-se da dialética confusa entre terapeuta e paciente, a ponto de o espectador se perguntar “como alguém tão internamente perturbada pode cuidar de alguém?”. O título misterioso do filme é apenas um dos componentes enigmáticos da produção, que evita explicar o que acontece, de maneira explícita: cabe à platéia a compreensão simbólica daquelas situações, através das múltiplas pistas e descrições de estafa que a diretora oferece, sendo o desfecho exasperante, neste sentido, pois nem mesmo o que parece ser uma tentativa de suicídio é bem-sucedida. Num dos vários momentos sutis mas perturbadores deste filme, Linda adormece enquanto assiste a um filme de terror na TV, no qual uma mãe zumbificada mastiga a própria filha, e se esforça para descobrir o título desta obra, sem sucesso. Reduzir uma produção como esta à competitividade da temporada de premiações é cometer em relação ao filme o mesmo tipo de agressão que Linda sofre — e, infeliz e compreensivamente, reproduz — em seu dia a dia. “Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria” é um tanto esquemático em seus procedimentos cinematográficos (visto que, por vezes, parece uma translação feminina das cumulações de erros cometidas pelos protagonistas safdianos), mas mui assertivo naquilo que adiciona enquanto discurso. É importante debatê-lo, portanto!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: https://blog.flicks.co.nz/wp-content/uploads/if-i-had-legs-2-1.jpg

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