“Não peças a teu pai algo que eu já te neguei”: acerca da experiência esquizofrênica de ser mãe em tempo mais que integral!


Produzido, entre outros, pelo cineasta Josh Safdie – o que explica a adesão à temática da ansiedade no enredo –, “Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria” traz à tona uma questão assaz recorrente na contemporaneidade, em termos de percepção de algo que esteve invisibilizado por muito tempo: o esgotamento físico e emocional das mães dedicadas a filhos que carecem de cuidados especais – e que ainda são cobradas por isso!
“Às vezes, mesmo quando tu perdes, és o vencedor” ou “de onde eu venho, é cada um por si”: reconhecem a lógica nacional cinematográfica embutida nestas frases?


Dirigindo sem a cooperação de seu irmão Benny Safdie – cuja interrupção súbita de uma parceria longeva está envolta em diversas polêmicas –, o realizador de “Marty Supreme” (2025) confirma um frenesi rítmico associado à ansiedade progressiva e incessante, recorrente em obras como “Bom Comportamento” (2017) e “Jóias Brutas” (2019), bastante elogiadas pela crítica especializada. Porém, este elemento autoral revela um descompasso entre a direção eficiente e o roteiro escrito em comunhão com o parceiro habitual Ronald Bronstein: os atores gritam o tempo inteiro e isto faz com que não se perceba que as conseqüências de seus atos não são tão cumulativas quanto deveriam.
‘Almost no surprises!’: saíram as indicações ao Oscar 2026. E daí?


A divulgação dos indicados ao Oscar 2026, ocorrida em 22 de janeiro de 2026, despertou expectativas nos brasileiros, acerca de quais categorias o longa-metragem “O Agente Secreto” (2025, de Kleber Mendonça Filho) seria lembrado. Celebramos o feito, em termos industriais, para o cinema nacional, visto que a produção brasileira foi nomeada em quatro categorias [Filme, Ator (Wagner Moura), Filme Internacional e a recém-criada Seleção de Elenco]. Porém, conforme esperado, os filmes mais celebrados foram as produções estadunidenses “Pecadores” (2025, de Ryan Coogler) – com o recorde de dezesseis indicações – e “Uma Batalha Após a Outra” (2025, de Paul Thomas Anderson), nomeado a treze categorias, além do vencedor de Globo de Ouro – Drama, “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet” (2025, de Chloe Zhao), com oito indicações. Tudo indica que a concessão do principal prêmio da noite acontecerá entre um desses três filmes, que já foram sobremaneira reconhecidos em premiações anteriores.
“As palavras que eu pronuncio não importam tanto, mas sim a devoção com que eu rezo”: ou por que um dos melhores filmes estadunidenses do ano sumiu das listas de favoritos de 2025?


Apesar de, sim, Wes Anderson repetir-se estilisticamente – isto chama-se autoria, afinal de contas –, a sua acachapante habilidade na escolha de temáticas é obliterada por quem insiste em dizer que o diretor “faz sempre o mesmo filme”. Definitivamente, não é o caso, malgrado ele escalar atores recorrentes e elevar as suas marcas registradas ao paroxismo. E, por mais que não seja descrito como alguém comprometido com tendências discursivas explícitas, podemos perceber como este cineasta chama a atenção para problemas recorrentes do capitalismo e das conjunturas coloniais – o que fica ainda mais evidente nos roteiros que requerem reconstituições de época, como este em particular.
“A motivação primária de qualquer regime é a autopreservação”: ou de quando um filme demonstra que ‘insanidade’ e ‘realidade’ não possuem o mesmo sufixo por coincidência!


Apesar de não ter figurado na lista definitiva de melhores filmes do ano da revista Cahiers du Cinéma, “Casa de Dinamite” (2025, de Kathryn Bigelow) foi mencionado nas listas individuais de vários articulistas, confirmando o apreço que os críticos sentem por sua hábil realizadora, responsável por um clássico de ação noventista [“Caçadores de Emoção” (1991)], por um ‘cult movie’ absoluto [“Estranhos Prazeres” (1995)] e pelo primeiro Oscar de Melhor Direção concedido a uma mulher [pelo excelente “Guerra ao Terror” (2008)]. Trata-se de uma diretora que respeita as convenções de gêneros clássicos hollywoodianos, na superfície, mas que, no desenvolvimento dos roteiros que escolhe, insere demonstrações de uma crise de valores capitalistas, representada pela falibilidade dos relacionamentos interpessoais entre os personagens.
“Não falha nunca: quanto maior o vigarista, mais ele pede a proteção da lei”. Parece um laudo contemporâneo, mas é a fala de um filme cinqüentista!


Dirigido por um cineasta acerca do qual não se sabe quase nada, o longa-metragem “Sanha Diabólica” (1959, de Edward Dein) surpreende pelo modo como amalgama elementos do faroeste e do terror – de forma brilhante, aliás. Na primeira seqüência, um médico e um pastor comentam as suas respectivas filiações à ciência e à religião, enquanto tratam de uma estranha moléstia, que, de repente, acomete as jovenzinhas da cidade em que eles vivem. O médico, Dr. Carter (John Hoyt), afirma que, “se fosse supersticioso, diria estar sob o jugo de uma maldição”. Fica desolado quando a garota morre, ao proferir um grito de horror. O pastor Dan (Eric Fleming), entretanto, nota duas feridas ensangüentadas no pescoço da moça…
“Tu só me encontraste porque ontem choveu”…: que tal mais um exercício crítico, envolvendo a audiência imediata a um filme pouco conhecido?


Originalmente nomeado “The Fastest Gun Alive” [“A arma mais rápida do mundo” – rebatizado “A Vida ou a Morte” em Portugal], “Gatilho Relâmpago” (1956, de Russell Rouse) surpreende pela maneira com que desenvolve a sua trama, afinal elementar: logo no começo, o personagem Vinnie Harold (Broderick Crawford, brilhantemente odioso) busca o xerife de uma cidadezinha, que, ao aparecer, não compreende o porquê de estar sendo procurado, já que não reconhece o seu opositor. Este afirma que soube de sua fama como o “pistoleiro mais rápido do Oeste”, e assassina o xerife de maneira impiedosa, o que logo se espalha, enquanto fofoca, até chegar à cidadela de Cross Creek, onde vive o nosso protagonista, George Kelby Jr. (Glenn Ford), que possui uma mercearia junto à sua esposa grávida Dora (Jeanne Crain). Ele dedica várias horas de seu dia ao treinamento de tiros, mas nunca é visto portando um revólver ou bebendo em público. Em breve, descobriremos as razões por detrás desta decisão, que causa estranhamento entre os cavalheiros locais.
“Eu não sei onde o sr. Lynch está. Ele passou por aqui, e fez a maior bagunça!”: qualquer homenagem é insuficiente, quando aquém do amor sentido…


Tendo em vista o sobejo de adjetivos elogiosos em relação ao cineasta em pauta, fica evidente que o redator responsável por esta coluna é um fã ardoroso de David Lynch. Como tal, o artista será celebrado através de múltiplas revisões de suas obras, antológicas e fascinantes a cada contato. Receber a notícia de seu falecimento foi como saber da morte de um parente querido, tamanho o baque, o que foi reverberado em diversas publicações, nas redes sociais…
“Eu não entendo a geração de vocês, é tudo TikTok, Instagram…”: uma metonímia para o cinema norte-americano, em 2024


Se, na maior parte de suas duas horas e dezenove minutos de duração, “Anora” (2024, de Sean Baker) possui um ritmo frenético e consciencioso do término anunciado de seu transe efusivo, no desfecho, ele revela-se uma obra incrivelmente adulta, tal qual o faz-tudo armênio Toros (Karren Karagulian) requer para si mesmo, à guisa de alcunha, ao expor para Ani as incongruências das promessas feitas por Ivan, na ocasião do supracitado casamento. Mesmo que o filme não seja a obra-prima que muitos anunciaram, “Anora” conquista-nos pelo respeito direcionado a personagens que noutras obras hollywoodianas, seriam julgadas por seus atos afobados.
“Depois que aquele alarme de puberdade tocou, tudo começou a dar errado” — ou quando uma identificação legítima é também forçada!


Em “Divertida Mente 2”, ao invés de as situações ficcionais serem expostas ao nosso cotejo íntimo, a fim de que possamos ou não nos identificar, estas surgem como imposições generalistas, de modo que quase todo mundo assume que é ansioso e que experimenta recorrentemente o mal-estar apresentado no filme. Não se nega que isso ocorra de maneira espontânea, mas, ao mesmo tempo, tal condição faz parte de uma programação ardilosa da faceta hodierna do capitalismo: é mister tornar todo mundo ansioso e duvidoso das próprias capacidades (intelectuais, físicas, afetivas, etc.) para, logo em seguida, apresentar tramas em que isso seja tematizado explicitamente, de modo que o espelhamento identitário redunde em garantia de lucro e divulgação.
Já inventaram um botão para pular as cenas de sexo, nos filmes? “É verdade que uma pessoa pode morrer de tanto transar?”


Nas mídias sociais, são abundantes – não enquanto piada, infelizmente – a requisição de um “botão para pular cenas de sexo” nos serviços de ‘streaming’. A fim de se evitar o prolongamento do machismo, via adoção assimétrica da nudez entre os gêneros, “joga-se o bebê fora, junto com a água suja”, para utilizar um oportuno ditado popular.
“— Por que tu estás fazendo isso? — Porque tu permitiste”! [eis o recado: prestemos atenção àquilo que deixamos acontecer…]


O diálogo acima pertence ao filme dinamarquês “Não Fale o Mal” (2022, de Christian Tafdrup), recém-regravado por Hollywood. A versão homônima estadunidense, dirigida pelo britânico James Watkins, estreou nos cinemas em setembro de 2024, e surpreendeu pela celeridade com que foi realizado: para que refilmar, tão rapidamente, um filme que é quase inteiramente falado em inglês?
“Talvez o ódio seja mais forte que a morte, como estás a perceber”, ou aquilo que aprendemos com as tramas de terror…


Antes de proceder à indicação audiovisual desta semana, é necessário que seja acrescida uma declaração de consciência, por parte deste redator: algumas vezes, aquilo que testemunhamos ao nosso redor é ainda mais atroz que os enredos de alguns filmes — não obstante, haver um intercambiamento imitativo entre eles. Assistir a um telejornal, por alguns minutos, […]
“Para os jacarés, o restaurante estará disponível assim que aterrissarmos!” – ou porque precisamos falar sobre os ditos “filmes ruins”!


A despeito da tendência predominante em classificar os filmes em meramente bons e ruins, atribuindo-lhes cotações reducionistas que não levam em consideração as inúmeras possibilidades entre um e outro adjetivo, convém investigarmos as produções que vemos (e debatemos) de maneira orgânica, enfatizando o que pode ser apreendido das experiências espectatoriais. Trata-se de um conselho legitimamente bazaniano, que explica o porquê de obras defenestradas em seu lançamento converterem-se em objetos de culto, anos depois. Talvez seja o caso aqui.
“Basta colocar a panela em cima do fogo e comer o que sair, uai!” – ou de como é urgente contextualizar o que testemunhamos…


Num excelente livro, escrito em colaboração com a sua esposa Kristin Thompson, o teórico fílmico norte-americano David Bordwell analisa várias obras hollywoodianas através de um escopo aleatório, a fim de demonstrar algumas recorrências narrativas moldadas pelas convenções de gênero e pelas determinações do ‘studio system’ e do ‘star system’. E é assim que chegamos ao musical “As Garçonetes de Harvey” (1946, de George Sidney – rebatizado como “A Batalha do Pó de Arroz”, em Portugal), que – mesmo visto por acaso, numa sessão dominical de algum canal de TV – traz consigo lições valiosas sobre a lida cotidiana…
“Qual é o formato de teu pénis?” ou de como os (pós)adolescentes norte-americanos tornam-se empreendedores do amor!


Reconfigurando elementos e recursos narrativos que foram adotados em “Embriagado de Amor” (2002) e “Vício Inerente” (2014), obras que alguns cinéfilos consideram atípicas em sua coerente filmografia, “Licorice Pizza” passa-se no Vale de São Fernando, região de Los Angeles em que o diretor cresceu e que ficou famosa pela produção de filmes pornográficos. Estamos em 1973, e os longas-metragens de sexo explícito começam a invadir as salas tradicionais de cinema. É nesse cenário que conhecemos os dois protagonistas.
“Por que utilizar um código antigo para espelhar algo novo?” (ou “o ano termina, e começa outra vez”…)


Repetindo o mesmo procedimento do já clássico filme de 1999, Neo encontra Morpheus, ingere a pílula vermelha e desperta em seu casulo humano, no centro da enorme colméia de alimentação maquínica. Diferentemente da situação anterior, seu corpo não parece irremediavelmente atrofiado e ele consegue movimentar-se com certa desenvoltura, inclusive percebendo que sua amada Trinity (Carrie Anne-Moss) jaz poucos casulos abaixo do seu. É resgatado por algumas máquinas do bem – sim, agora elas existem! – e levado a uma colônia de rebeldes, onde os eventos do segundo e terceiro filmes são repetidos. Por mais que se tente simular algum perigo irreversível, é tudo previsível na condução da narrativa: alguém exclama “precisamos de um milagre” – e é óbvio que ele ocorrerá!
É preciso sempre voltar aos clássicos! (conselho da arte, conselho na vida)


Vencedor do Oscar de Melhor Diretor por “Gigi” (1958), o norte-americano Vincente Minnelli [1903-1986] realizou em 1952 a obra-prima dramática “Assim Estava Escrito”, que sintetiza com maestria os cacoetes produtivos que engendraram a magnificência dos filmes estadunidenses. Era a época dos grandes gêneros, das superproduções, do ‘studio’ e do ‘star system’. E é tudo brilhantemente retratado neste longa-metragem, cujo título original é ‘The Bad and the Beautiful’ [“O Bruto e a Bela”], mas foi batizado em Portugal como “Cativos do Mal”. Afinal, cada país incutia nos títulos dos filmes chamarizes específicos para suas audiências nacionais…
Pois rever é, também, reviver: a importância de (re)encontrar quem está mais à frente, no caminho!


Não obstante a entusiástica aclamação, por parte da crítica internacional, ao filme “Nomadland” (2020, de Chloé Zhao) – que culminou no recebimento do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza e nos prêmios Oscar de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz, entre tantas outras láureas –, foi reclamado que este longa-metragem registraria […]
“É complicado”, eles repetem: “a heroína alivia um pouco a dor, mas tudo volta depois, pior que antes”!


Conforme o próprio título deixa evidente, conheceremos um pouco dos percalços envolvendo a trajetória artística da cantora Billie Holiday [1915-1959], que faleceu aos 44 anos de idade, em decorrência de complicações da cirrose, após uma vida trágica e uso contínuo de opiáceos. Entretanto, conforme percebemos no mesmo título, a abordagem jornalístico-judicial sobrepuja-se aos demais aspectos biográficos, de modo que, mais uma vez, escolhe-se uma imponente personalidade negra como coadjuvante de sua própria história…
