Na noite de 11 de janeiro de 2026, vários brasileiros comemoraram as inauditas vitórias do longa-metragem “O Agente Secreto” (2025, de Kleber Mendonça Filho) na cerimônia dos Globos de Ouro estadunidenses, nas categorias Melhor Filme em Língua Não-Inglesa e Melhor Ator, para o baiano Wagner Moura. Deveria ser uma festa, mas logo surgiram desagradáveis efeitos colaterais: de um lado, manchetes jornalísticas redutoras, que estimulam a competitividade entre filmes e profissionais do cinema, além de trazerem à tona julgamentos reprovadores sobre os comportamentos particulares de diretores e atores; do outro, campanhas de “boicote”, por parte de cinéfilos, que atribuem cotações e comentários negativos que sequer foram vistos, apenas porque foram mencionados nas mesmas categorias que o filme brasileiro. Numa terceira vertente, há quem reclame que estas vitórias celebram um mero entreguismo industrial, que não trará efetivas transformações para o panorama específico do cinema brasileiro, seja em âmbito produtivo ou distributivo, para os filmes independentes. Há muito o que ser considerado a partir daí, então…
Gostando-se ou não de “O Agente Secreto” — vide comentário sobre o filme, aqui —, tem-se que admitir que ele é mui qualitativo em termos técnicos, além de corroborar as intenções de seu realizador, no que tange ao rechaço do crescimento alarmante da extrema-direita, com destaque preocupante para o surgimento da seita bolsonarista, no Brasil. Entretanto, os supracitados efeitos colaterais estimulam-nos a prestar ainda mais atenção a algumas chagas continuadas da condição eminentemente subdesenvolvimentista do cinema brasileiro. Ou será que deveríamos utilizar o plural “cinemas brasileiros”? Por conta das reações entusiásticas do Governo Federal e da atual ministra da Cultura, Margareth Menezes, em suas respectivas redes sociais, aos prêmios recebidos pelo filme em questão, internautas cobraram maior celeridade em decisões referentes a questões como a regulação dos ‘streamings’ e a quota de tela, nos cinemas. O que, claro, faz com que sejam considerados os destinos de produções aquisitivamente menores, mas fascinantes, que tendem a ficar restritas ao circuito de festivais. A propósito, já ouviram falar do longa-metragem “Idade da Pedra” (2024), do cineasta paulista Renan Rovida?
Recebedor do prêmio Novos Olhares, no Festival Internacional de Curitiba Olhar de Cinema, “Idade da Pedra” dá continuidade aos experimentos narrativos e discursivos que o diretor empreendera em “Pão e Gente” (2021), a saber, a musicalidade brechtiana, a exortação de esforços coletivos no enfrentamento ao Capitalismo e o aproveitamento actancial de um elenco, que ele próprio encabeça como ator, que possui vasta experiência teatral. Se, na produção anterior, a influência do dramaturgo alemão era mais explícita, nesta mais recente produção, há um flerte com as temáticas e intenções do chamado Cinema Marginal. Porém, há algo de excessivamente “limpo” no tratamento das imagens e situações, não obstante os personagens comumente revolverem o lixo. Na primeira seqüência, por exemplo, dois garis — interpretados por Talita Araújo e Carlos Francisco — remexem uma pilha de detritos urbanos, e encontram um sapato sujo de sangue, restos de comida e um trompete. Tais objetos são identificados com anos que remetem a guerras, onde houve bastante resistência civil, e, utilizando o instrumento musical, os dois garis iniciam um concerto improvisado, enquanto notam que quase todas as residências e estabelecimentos ao redor estão ofertados para aluguel. Ainda assim, há gente morando nas ruas. Surge uma crítica imediata à gentrificação!
O protagonista do filme, Terceiro Mundo (vivido pelo próprio diretor), também remexe o lixo, mas seus intuitos são inicialmente difíceis de serem compreendidos: vemo-lo mendigando comida, e sendo hostilizado, na porta de uma lanchonete e, mais tarde, interagindo com várias pessoas que encontra nas ruas, incluindo uma interação em ‘flashback’, quando ele sai da cidade de Taubaté, com uma galinha nos braços, disposto a enfrentar a metrópole, depois que a indústria automobilística em que trabalhava é fechada, deixando ele, seu pai, seu irmão e quase todos os vizinhos sem emprego. No caminho, alguém (Cidinha Marinho) lhe pede que entregue brincos à Nossa Senhora de Aparecida, o que renderá um chiste interessante envolvendo homonímia, quando Terceiro Mundo conhece uma transeunte de nome Cida (Renata Adrianna). Ao fundo, um côro de Fúrias enfatiza a necessidade de aplicar estratégias que diminuam a solidão dos indivíduos.
Ao longo dos setenta minutos de duração deste filme, Terceiro Mundo trava alguns contatos sexuais — incluindo um coito agressivo com um personagem de nome Brasil (Carlos Escher) —, validando a importância do prazer enquanto necessidade humana elementar, tanto quanto o café que é vendido por uma mulher tão simpática quanto expressiva e combativa (interpretada por Carlota Joaquina). Numa seqüência deveras significativa, em seu teor discursivo, Terceiro Mundo senta-se nas cadeiras esvaziadas de um cinema pornográfico e rasga as bandeiras de nações colonialistas. Porém, nem todos os encontros serão pacíficos, conforme ele próprio adverte ao cachorrinho Wi-Fi: o protagonista será obrigado a ensaiar e aplicar diversos golpes de boxe, a fim de se defender dos ataques policiais e de desconhecidos aporofóbicos. Numa brilhante superposição de imagens, a crueza dos chãos urbanos, convertidos em dormitório improvisado, cede espaço à vegetação taubatense, como se a harmonia (familiar, coletiva) fosse reduzida a um ideal sobrenatural. Fica evidente, entretanto, que Renan Rovida advoga em prol da utopia socialista, tornada pragmática mediante adesão maciça da população. Eis o nosso anseio também: que o sucesso alcançado por produções brasileiras em premiações internacionais ajude filmes independentes a alcançar o seu público. Imagina que lindo seria uma sessão de “Idade da Pedra” num cinema lotado. Uau!
Wesley Pereira de Castro.
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