“Quando eu paro de pensar no futuro, eu volto ao presente”: sobre as verdades que precisam ser vistas, ouvidas e sentidas!

Quem pôde participar da conferência de imprensa que anunciou a programação do festival É Tudo Verdade, assistiu em primeira mão a “Diários de Mianmar” (2022), documentário creditado ao Coletivo Cinematográfico de Mianmar (antiga Birmânia), e que foi recentemente premiado no Festival Internacional de Cinema de Berlim. A opção pela ausência de créditos individuais tem a ver com as perseguições sofridas por quem ousa documentar os abusos de poder cometidos pelo general Min Aung Hlaing, que tomou definitivamente o poder no país, através de um golpe de estado, em 01 de fevereiro de 2021.

“Está todo mundo passando fome e tu tens coragem de falar em ordem?!” [o Brasil antes, o Brasil hoje]

Pela similaridade lamentosa com a situação contemporânea do país, é oportuno debater a trindade composta pelos filmes “Vidas Secas” (1963, de Nelson Pereira dos Santos), “Os Fuzis” (1963, de Ruy Guerra) e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1963, de Glauber Rocha), obras-primas inquestionáveis do cinema brasileiro. Deter-nos-emos em particular no segundo destes filmes, merecedor de inúmeros prêmios internacionais, entre eles o Urso de Prata no Festival de Berlim, em 1964.

“Estrelas são [como] os furos na lona do circo” (declarem seu amor aos vivos, hoje – isso imortaliza!)

Quando o falecimento ocorre por vias trágicas – e no fulgor da idade – a comoção é ainda maior. E, neste sentido, convém aproveitarmos esta oportunidade para comentar o lançamento do documentário “Já que Ninguém me Tira Para Dançar” (2021, de Ana Maria Magalhães), sobre a trajetória da icônica atriz fluminense Leila Diniz [1945-1972], que morreu num acidente aéreo, numa viagem através da Índia, aos vinte e sete anos de idade, quando voltava de um festival de cinema na Austrália.

Se tu sobreviveste à pandemia, siga fazendo-o: o Cinema te dá os parabéns!

Tal como vem acontecendo nos últimos dois anos, as exibições cinematográficas parcial ou completamente ‘on-line’ serão mantidas. Dentre elas, a Mostra do Filme Livre, cuja vigésima edição – após uma breve interrupção – ocorre entre os dias 10 e 16 de janeiro de 2022. Tema comum aos filmes selecionados: a pandemia, justamente!

“É preciso uma guerra revolucionária contra a guerra imperialista para acabar de vez com a Guerra” (à guisa de manifesto)

No fulgor de seus oitenta anos de idade, o cineasta Neville D’Almeida esteve disposto a comparecer num cinema de rua, na pequena cidade nordestina de Aracaju – capital de Sergipe, menor Estado do Brasil –, onde apresentou o seu primeiro longa-metragem para um platéia entusiasmada. Tratava-se de “Jardim de Guerra” (1968), filme atualmente exibido em sua integralidade, mas que foi tolhido pela Censura, que exigiu que o diretor concordasse com a retirada de seqüências importantíssimas, quando o filme tentou ser lançado, em 1970. Dentre estas, o discurso mui apaixonado proferido pelo ator Antônio Pitanga, que vocifera contra o racismo e profere o brado que intitula este artigo…

A importância de gritar “eu sou!” em imagens – e de ser, através de ações cotidianas!

Ocorrida entre os dias 05 e 14 de novembro de 2021, a terceira edição do Nicho Novembro teve como tema norteador a pergunta “para qual normal voltaremos?”. Além de várias atividades formativas, a seleção de filmes deste festival inseriu as questões raciais em conjunturas mais complexas, visto que o racismo não surge como componente apartado de outras posturas preconceituosas: os discursos de ódio e malevolência são imbricados, justificando a si mesmos através de exclusões atravessadas. É o que percebemos nas sinopses dos filmes…

“Que mania de achar que a gente não pode ter as coisas!”, ou o Cinema enquanto evocação feliz do dia a dia…

Após ter estreado no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, o longa-metragem “A Felicidade das Coisas” (2021, de Thaís Fujinaga) também fez parte dos lançamentos brasileiros exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: primeiro trabalho de sua realizadora, este filme foi um dos mais elogiados por público e crítica durante o evento, o que é bastante compreensível. Muitíssimo bem conduzido em suas evocações da vida cotidiana, ele serve como um pertinente reflexo socioeconômico das mudanças políticas enfrentadas pelo Brasil nos últimos anos…

Assim na Romênia como no Brasil: “quanto mais idiota uma opinião, mais importante ela é”?

Na manhã do dia 09 de outubro de 2021, a curadora e produtora cultural Renata de Almeida realizou uma conferência de imprensa, a fim de apresentar aos jornalistas as novidades do evento cinematográfico mais importante do Brasil, organizado por ela: a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, cuja quadragésima quinta edição ocorre entre os dias 21 de outubro e 03 de novembro. Na ocasião, ela anunciou os títulos de alguns filmes que serão exibidos na programação deste ano, e emocionou-se bastante ao refletir sobre o modo como parte considerável da sociedade brasileira ataca os profissionais da imprensa e da cultura no (des)governo atual…

Na impossibilidade de uma feijoada militante, um bom cozido cinematográfico antirracista…

Em exibição nalgumas salas de cinema e disponível através do serviço de ‘streaming’ GloboPlay, o longa-metragem “Doutor Gama” permite que o diretor Jeferson De restabeleça a urgência de seus mandamentos reivindicativos. Na trama, o personagem-título encara os espectadores de frente e pergunta-nos como conseguimos ser coniventes com a morte de tantas pessoas, por causa do racismo – que possui um acentuado viés estrutural, no país. Até que acompanhamos, em ‘flashback’, os fatos que possibilitaram que, antes de a escravidão ser abolida no Brasil, ele tenha conseguido formar-se em Direito.

“Eu não quero pão com geléia de morango!”, ou a importância (sobrevivencial) de focar em boas notícias…

Passados quase dois anos desde que surgiram os primeiros casos do CoronaVírus na China, a população mundial está saturada de enumerar mortos, de lidar com as irresponsabilidades administrativas de seus representantes políticos, de estar confinada. E, como tal, as aberturas benfazejas de reconstituição social através da educação e da arte são extremamente urgentes – e possíveis. Ao final desse artigo, falaremos sobre a noticiabilidade de uma delas. Por ora, é necessário recomendar um longa-metragem brasileiro contemporâneo, sobremaneira oportuno: “A Nuvem Rosa” (2021, de Iuli Gerbase).

Por que novamente a ladainha da “autoridade constituída por Deus”?

Os pastores evangélicos brasileiros frequentemente retomam o discurso da defesa de algum governante baseado na ideia bíblica da “autoridade constituída por Deus”. Será que trata-se de uma doutrina cristã inequívoca e incontestável? Será que há algum consenso entre os cristãos sobre a ideia da “autoridade constituída por Deus”?

De como a Literatura ajuda-nos a lutar e resistir, depois que a nossa língua é decepada… [diretamente ao ponto: abaixo o racismo!]

A difusão de um romance contemporâneo tão primoroso quanto “Torto Arado”, escrito pelo baiano Itamar Vieira Júnior, merece exaltação: lançado em 2019, inicialmente em Portugal, este livro recebeu diversas láureas importantes, entre elas o tradicional Prêmio Jabuti, em 2020. E é uma obra que faz jus à sua fama. Narrado de maneira épica, conta as desventuras enfrentadas pelas irmãs Bibiana e Belonísia – que são filhas de escravos libertos – ao longo de algumas décadas, numa fazenda no sertão da Bahia.

“É preciso falar seriamente sobre o problema da morte” ou de quando chorar durante uma resenha é indicativo de resistência…

Ainda que pareçam imediatamente disassociados, há pontos de intersecção possíveis entre o primeiro (e magistral) longa-metragem de Júlio Calasso Jr. e a situação desoladora em que encontra-se o Brasil atual: “Longo Caminho da Morte” (1971) revela-se um título profético – porque mui historicizado – para compreendermos a gestação diuturna do ódio político no contexto hodierno. O bolsonarismo advoga a morte; Júlio Calasso Jr. diagnosticou a origem longeva deste processo.

É possível fazer algumas generalizações sobre todos os evangélicos brasileiros?

Os mais diversos grupos evangélicos brasileiros não constituem um bloco monolítico e os crentes evangélicos muitas vezes adotam posicionamentos distintos das lideranças de suas igrejas. Isto não está em questão. Mas será que é possível fazer algumas generalizações sobre todos os evangélicos brasileiros?, será que é possível apontar algumas características comuns que são encontradas em todos os grupos evangélicos brasileiros?, será que algumas generalizações podem ajudar as análises a respeito dos evangélicos brasileiros?, o que dizer do projeto de hegemonia religiosa dos líderes das grandes igrejas evangélicas?

“Infelizmente, os policiais não conseguem resolver nada utilizando poderes mágicos”: leiamos nas entrelinhas, urgentemente!

Em termos proporcionais, há um fosso considerável entre aquilo que fundamentou a ascensão do Nazismo, por exemplo, e a instalação do bolsonarismo no Brasil. Os parâmetros pretensamente intelectuais são radicalmente distintos, mas os aspectos em comum também destacam-se. Sobretudo no aproveitamento paranóico dos apanágios econômicos da contemporaneidade: a inflação acachapante dos preços segue assombrando os brasileiros. O desemprego, idem.

Diálogo com o público: “Para que o povo lute, ele precisa saber que houve quem lutasse antes”!

Apesar de ser o protagonista do filme que leva seu título, Carlos Marighella não vive isolado. Pelo contrário: é cercado de jovens motivados – e atravessados por inevitáveis contradições sociais –, que o ajudam a pôr em prática os seus ataques contra a violência ditatorial. Porém, o filme parece duvidar da melhor abordagem ativista: por vezes, adere às táticas de guerrilha baseadas na lógica do “olho por olho, dente por dente”; na grande maioria das cenas, opta por digressões familiares que não funcionam a contento.

De quando a realidade nos invade, e algumas descobertas ritmadas progridem…

Surgido no curta-metragem confessional “Feio, Velho e Ruim” (2015) e interpretado pelo próprio Marcus Curvelo, Joder Oliveira Carvalho possui não apenas sobrenome, como também um Cadastro de Pessoa Física. E ele retorna em mais de um filme, de modo que protagoniza, como elemento de uma disrupção psicanalítica, o primeiro (e ótimo) longa-metragem do diretor, “Eu, Empresa” (2021, co-dirigido por Leon Sampaio), que diagnostica brilhantemente as aflições socioeconômicas da contemporaneidade…

O que ainda podemos fazer para tornar a nossa civilização menos desumana?

Após a promulgação do Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968, que restringiu a liberdade dos cidadãos brasileiros na fase mais cruel da ditadura militar que governou o país por vinte e um anos, os idealizadores da Belair são intimidados, de modo que precisam refugiar-se em países estrangeiros. E, sob essas condições atordoadas, foi realizado, entre outras obras, “Memórias de um Estrangulador de Loiras”, considerado inacessível por muito tempo …