Em qual situação “um distintivo é mais assustador que uma arma”? Pensaram no racismo?


A biografia do líder dos Panteras Negras no Estado de Illinois é contada numa narrativa que mescla o gênero policial com os rompantes de drama familiar. O protagonista é personificado com uma intensidade mui aplaudível, de maneira que todo e qualquer prêmio que Daniel Kaluuya receber por este papel é deveras merecido. Mas a contrapartida actancial de Lakeith Stanfield é ainda mais drástica: afinal, ele interpreta alguém que está interpretando um papel, de modo que o agente do FBI Roy Mitchell (Jesse Plemons) chega a comentar, após observar o seu comportamento gregário: “tua interpretação merece um Oscar”.
“De que serve um criado sem patrão?” (lições fílmicas de oportunismo capitalista)


Adaptado a partir de um romance do escritor indiano Aravid Andiga, “O Tigre Branco” possui muitas similaridades rítmicas com os filmes do cineasta britânico Danny Boyle, tanto que, em determinado momento, faz uma emulação distintiva de caráter chistoso, quando o protagonista declara que não participou de nenhum programa televisivo de perguntas e respostas para poder modificar o seu destino…
(Título não autorizado)


Surpreendentemente indicado em quatro categorias importantes do prêmio Globo de Ouro (Melhor Filme Dramático, Melhor Direção, Melhor Atriz e Melhor Roteiro), “Bela Vingança” ajudou a concretizar algo histórico – e muitíssimo importante: pela primeira vez, dentre as cinco indicações destinadas a Melhor Direção, três delas foram ocupadas por mulheres. O filme chega num momento mais que pontual, adequadíssimo.
A política contemporânea é uma trama hitchcockiana invertida?


Sob a égide dos esforços propagandísticos de guerra em Hollywood, Alfred Hitchcock realizou, através de “Sabotador” (1942), uma obra externamente afim às convenções de gênero da época, sem a profusão dos rasgos sumamente autorais que o eternizaram enquanto “mestre do suspense”. Vendo o filme hoje em dia, percebemos que há muitas perspectivas indiciais em meio à sua estrutura enredística convencional.
“A tosquia é provisória, cansei de ser um andarilho!”: notas sobre uma minissérie clássica!


Depois de um ano tão tumultuado como foi 2020, é sobremaneira providencial que um espectador hipotético deparasse-se com uma reprise da minissérie “Pássaros Feridos”, num canal aberto de TV. Realizada em 1983 e dividida em quatro capítulos com durações distintas, esta minissérie é uma das mais qualitativamente elogiadas de todos os tempos. E os méritos são abundantes…
Sem a prerrogativa da dúvida, “quanto mais se pode ver, mais se pode cometer erros”!


O lançamento de um documentário como “Não Haverá Mais Noite” (2020, de Eléonore Weber) surpreende pela aplicação prática das teorias virilianas, numa conjuntura assaz contemporânea: é o corolário perfeito (e apavorante) do combate de narrativas, convertido em potenciais genocídios, que caracteriza a chegada ao poder das facções de extrema-direita, além de metonimizar a perene atividade destrutiva do imperialismo estadunidense ao redor do mundo.
“O ouro muda as pessoas. Até os amigos. Tome cuidado!”: ou de quando é importante errar para prolongar os abraços…


Não obstante a perfeita consonância com o momento histórico-reivindicativo atual, Spike Lee refuta o “discurso de manada” (por melhor intencionado que seja) e opta por uma proposta discursiva muito mais complexa, provocadora e autocrítica. Demonstra que as contradições idealistas e comportamentais são inevitáveis em quaisquer contextos – principalmente, nos mais explicitamente sobrevivenciais…
A ameaça mais que visível, em chave recorrente: quem acusa? Quem se defende?


Mesmo que “O Homem Invisível” não seja a obra revolucionária de terror hodierno que alguns apregoam, a total ruptura em relação à trama original é digna de nota mui elogiosa. Em verdade, exceto pelo título wellsiano, não há mais nada em comum com o enredo clássico: o que interessa ao diretor é denunciar a invisibilização das mulheres que denunciam agressões
Nas rebarbas do Oscar 2020: “quando tu consegues um pouco de poder, podes te converter num monstro”


Apesar de ser republicano, a filmografia de Clint Eastwood ultrapassa o esquerdismo explícito de alguns cineastas afobados ao erigir um ‘corpus’ sobremaneira sólido, em que protagonistas injustiçados são defendidos de maneira incisiva. Ou seja, tal cineasta é um patriota irrepreensível, mas não esquiva-se quando é necessário denunciar as más ações de homens poderosos e do “lado certo da Lei”.
Pergunta supratextual: no feminismo orgânico, há lugar para as patricinhas?


“Adoráveis Mulheres” (2019), indicado a seis categorias no Oscar 2020 mas preterido na categoria de Melhor Direção, engendrou polêmicas acerca do machismo dominante na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Em paralelo a estas polêmicas, foi muito criticado o olhar excessivamente “branco” (porque privilegiado) da diretora Greta Gerwig. Em que sentido tais polêmicas favorecem ou denigrem o filme em si?
Apesar da vendabilidade progressiva, o amor não é defeito: mesmo cooptado, ele salva vidas!


A terceira maior bilheteria cinematográfica de 1968 foi “Se Meu Fusca Falasse” (1968, de Robert Stevenson) – tradução titular brasileira para “The Love Bug” –, lançado num ano em que o Código Hays entrava em desuso em Hollywood e quando o movimento ‘hippie’ foi devidamente assimilado pelo ‘establishment’. O que isso tem a ver com os brasileiros?
“What the Fox”: denúncias bombásticas são potentes furos cinematográficos!


Em meados de 2016, em meio à agressiva campanha eleitoral do magnata Donald Trump, que, afinal, foi eleito presidente dos Estados Unidos da América, a jornalista Gretchen Carlson processou o então presidente da emissora Fox News, Roger Ailes, por assédio sexual, numa situação que desencadeou diversas denúncias semelhantes. Em 2019, esta cadeia de eventos (extra)jornalísticos converteu-se em enredo do filme “O Escândalo” [título original: ‘Bombshell’], dirigido por Jay Roach e roteirizado por Charles Randoph,
Começa a temporada de premiações hollywoodianas (e algo para além disso)!


No dia 05 de janeiro, aconteceu a cerimônia dos Globos de Ouro 2020 – e, como sói acontecer neste tipo de evento, os prêmios em si – que pareciam os mais importantes – eventualmente são eclipsados por discursos, protestos, manifestações públicas ou designações políticas que ultrapassam o tecnicismo da concessão de láureas.
Fim de ano, fim de era: haverá ainda cinema?


“Star Wars – Episódio IX: A Ascensão Skywalker” (2019, de J. J. Abrams) era cercado de intensa expectativa, pois punha fim a uma saga com quarenta e dois anos de existência. Mas o capítulo final decepcionou muitos fãs. Motivo: é inautêntico, apenas repisa a alternância de motes heróicos vistos anteriormente. Ou seja: é um filme vazio, ainda que não necessariamente ruim…
Abstrações financeiras do amor cinematográfico no século XXI: mais um irritante caso baumbachiano


Produzido pela plataforma Netflix, “História de um Casamento” foi o filme mais indicado no anúncio dos concorrentes ao prêmio Globo de Ouro, cuja cerimônia ocorrerá em 05 de janeiro de 2020, sendo lembrado em seis categorias: Melhor Filme – Drama, Melhor Roteiro, Melhor Trilha Musical e três categorias interpretativas, comentadas a posteriori.
O que resta da inspiração quando “o tempo voa de viagem econômica”?


As acusações de que o ator, diretor e roteirista Woody Allen teria abusado sexualmente de seus filhos engendrou o que atualmente é conhecido como “cancelamento” midiático. Ou seja: pelos pecados e/ou crimes de que é acusado na esfera pessoal, as obras deste artista devem também ser defenestradas. De fato, uma e outras estão relacionadas?
“Coringa”: o surto controlado[r] de um dos filmes mais debatidos do ano


Indo direto ao ponto: se “Coringa” não é bem-sucedido enquanto translação marxista – o que não parece ser seu intento, convenhamos – ele é mui relevante na apresentação da virulência psiquiátrica que traz à tona.
Por que é importante falar sobre os festivais de cinema (e não apenas sobre suas premiações)?


Independente de ser ótimo, não é arriscado privilegiar um filme que gozará facilmente de sucesso nas bilheterias e premiações técnicas de todo o mundo? Esta decisão considerada mui concessiva não seria tendente à cartelização hollywoodiana? São perguntas que seguem repercutindo após a divulgação da lista de premiados…
Algoritmos da podolatria no fim de eras: a paixão melancólica enquanto estilo cinefílico confessional!


Se Quentin Tarantino efetivamente glamoriza a violência, isto ocorre enquanto obediência a convenções particulares de gênero cinematográfico e não como reflexo de um testemunho moral. E nisso reside uma das grandes forças da obra-prima de maturidade e reflexão cinéfila realizada por este grande reinventor hollywoodiano: a consecução – não necessariamente voluntária – de um preceito sugerido pelo filósofo Gilles Deleuze [1925-1995] quanto ao enfrentamento do fascismo midiático.
Sobre a capacidade de “ser maravilhoso, de uma maneira repulsiva”: o jornalismo enquanto vocação influenciadora


Em muitos casos, a fronteira noticiosa entre público e privado é sobremaneira tênue. E, obviamente, o cinema hollywoodiano soube explorar muitíssimo bem tal peculiaridade atrativa do Jornalismo, de modo que urge a recomendação de um dos clássicos absolutos sobre esta profissão: “Jejum de Amor” (1940), dirigido pelo mestre cinematográfico Howard Hawks (1896-1977).
