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“Coringa”: o surto controlado[r] de um dos filmes mais debatidos do ano

“Coringa”: o surto controlado[r] de um dos filmes mais debatidos do ano

Quando “Coringa” (2019, de Todd Phillips) recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, surgiram inúmeros comentários repudiando esta concessão enviesada de uma láurea de alto cacife artístico a um anunciado arrasa-quarteirão hollywoodiano. Após a estréia comercial do filme, as reações inverteram-se: parte considerável da esquerda política detectou caracteres marxistas na estrutura narrativa do mesmo, supostamente embasada numa variação contemporânea da luta de classes. Debates sobre o potencial sociológico do filme abundaram virtualmente, e assistir a este filme tornou-se uma obrigação acadêmica. Encerrada a primeira semana de exibição, o filme já conseguiu desbancar alguns recordes de bilheteria. Mas… Será que ele cumpre tudo aquilo que promete? Ou melhor, será que ele realmente promete algo? Reflitamos um pouco sobre as contradições inelutáveis deste complexo produto cinematográfico hodierno…

Não obstante o personagem-título ser previamente conhecido como o principal vilão das novelas gráficas protagonizadas pelo Homem-Morcego, isolá-lo deste universo narrativo talvez seja mais útil para a compreensão de alguns de seus méritos. Ou seja, ao invés de pensarmos no Coringa, enxerguemos prioritariamente o socialmente invisibilizado Arthur Fleck, interpretado com total entrega pelo extraordinário Joaquin Phoenix. Infelizmente, há um amontoado de clichês personalísticos circundando esta composição central, mas há espaço para um ‘tour de force’ sumamente aplaudível perto do final, numa seqüência magistralmente co-protagonizada por Robert De Niro, que não está neste filme por acaso: as emulações scorseseanas são deveras relevantes!

Amalgamando características de pelo menos dois filmes-chave do grande cineasta nova-iorquino, “Coringa” apresenta-nos a uma Gotham City que, reconstituindo o início da década de 1980, reflete problemas dos Estados Unidos da América nos dias de hoje. Como reação imediata – no sentido mais hipodérmico do termo – não faltou quem concedesse a chancela de “revolucionário” ao (sub)discurso reagente do filme. E este é um de seus maiores problemas – imputado, afinal de contas: ele expõe sintomas, mas não propõe resolução de qualquer problema específico. Vangloria-se de certa instauração do caos, mas o desencadeador humano do mesmo refuta qualquer intenção ostensivamente política nesta empreitada. Termina sendo um agente político, claro, pois tudo o que fazemos é eminentemente político. Mas assemelha-se muito mais a um arremedo enlouquecido de figura messiânica que a um promulgador de verdades indesejáveis. E, tendo em vista um saldo eleitoral bastante recente no Brasil, percebemos o quanto isso é prejudicial, perigoso e francamente contraproducente.

Indo direto ao ponto: se “Coringa” não é bem-sucedido enquanto translação marxista – o que não parece ser seu intento, convenhamos – ele é mui relevante na apresentação da virulência psiquiátrica que traz à tona. Afinal, não apenas o protagonista é um esquizofrênico abandonado pelos cortes de gastos e desestímulos funcionais dos programas estatais de Saúde como a sua própria mãe é classificada e internada como insana por causa de suspeitas insuficientemente esclarecidas de envolvimento sexual interclassista. O roteiro mantém uma sagaz dubiedade quanto a isso, adotando uma condução narrativa que faz com que confundamo-nos com a perturbação mental do protagonista. Vemos pouco mais do que ele vê, sentimos algo parecido com o que ele sente. Mas isso não é suficiente para angariar simpatia… Se não tivesse se tornado infame, Arthur Fleck permaneceria invisibilizado enquanto pária subempregado. Tanto quanto um Travis Bickle contemporâneo.

Dentre as firulas mais inconvenientes deste enredo – independente das várias histórias gráficas anteriores sobre o personagem – as que mais incomodam pela superfluidade são as conexões forçadas com a multimilionária família Wayne, exibida aqui em sua faceta mais deletéria, numa concepção maniqueísta que associa indelevelmente a riqueza aquisitiva à hipocrisia e/ou à malevolência. Como reação mal-delineada, as atitudes quiçá involuntárias do protagonista tornam-se conclamações revoltosas com foco indeciso e atravessadas pela louvação equivocada de um ato emocionalmente explosivo, que devolve à classe dominante/opressora o mal que elas sedimentam diuturnamente via exploração exacerbada do trabalho alheio…

Se, por um lado, Arthur Fleck não possui consciência de classe, visto que é desprezado por seus colegas, vizinhos e transeuntes em conseqüência de uma patologia gargalhante que não oblitera o despejo de várias lágrimas, por outro, ele é a síntese tipificada da incompreensão sofrida pelos portadores de doenças ou transtornos mentais no capitalismo atual. E, obviamente, isso desencadeia sequências de extrema violência física, que beiram a supremacia técnico-cinematográfica, exceto por parecerem um tanto incoesas em relação ao restante da trama: quando “possuído” pelo Coringa, Arthur exibe traços de sapiência crítica não demonstrados em seu dia a dia…

Dentre os aspectos positivos do filme, merece destaque a trilha musical com acordes graves e tonitruantes de Hildur Guðnadóttir, que permanece singrando a consciência espectatorial após a sessão. Num instante belíssimo, Arthur emite um sorriso sincero enquanto vê um clássico chapliniano no cinema, com o intuito de perseguir Thomas Wayne (Brett Cullen), que vai ao banheiro num dos clímaces cômicos do filme em pauta. Da maneira como a cena é conduzida, isso diz muito sobre o esnobismo pretensamente cinefílico do personagem milionário, mostrado como vilão paralelo da cidade oportunamente abandonada pelo poder público que é Gotham City. Mesmo não sendo o ótimo filme que queriam que fosse, “Coringa” propõe um válido e urgente debate sobre o controle espúrio das mazelas psiquiátricas de origem social estabelecido pelas orientações toxicológicas. Isso compensa as decepções advindas de sua expectação cooptada. Os vilões verdadeiros estão entre nós – e têm muito poder por detrás das telas!

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