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“Aos domingos, era diferente…”: ou de quando o mínimo, na realidade, converte-se em fantasia!

“Aos domingos, era diferente…”: ou de quando o mínimo, na realidade, converte-se em fantasia!

Viver e envelhecer, atravessando décadas, são atividades – ou quiçá, bênçãos – que permitem reflexões a partir de descobertas (audiovisuais, inclusive) que foram inacessíveis, no momento imediato de suas aparições. Tu, por exemplo, já ouviste falar de um média-metragem porto-riquenho chamado “Modesta” (1956, de Benjamin Doniger), sobre a criação espontânea da LML (Liga das Mulheres Liberadas), no interior de uma região insular? No roteiro, as esposas do bairro Sonadora, no município de Guaynabo, cansadas de serem maltratadas por seus maridos, reúnem-se e exigem tratamentos básicos, como os direitos de não serem espancadas e de receberem o auxílio de seus companheiros na educação dos filhos. Isto não deveria ser algo elementar num matrimônio?

Ímpar em feitura, mas ainda pouco conhecido, setenta anos após a sua realização, esta obra dura pouco mais de trinta e cinco minutos, foi selecionada para preservação pela Livraria do Congresso Norte-Americano, em 1998, e foi dirigida por um fotógrafo e engenheiro de som que trabalhou com o célebre documentarista Robert Flaherty [1884-1951], no clássico “A História de Louisiana” (1948). Na abertura do filme que ora comentamos, baseado num conto de Domingo Silas Ortiz, o narrador insiste em declarar que o enredo provém de situações verídicas, contadas por seus tataravós. Naquilo que é exposto como uma sucessão de manhãs, ouvimos diversos maridos reclamando que suas esposas ainda estão dormindo, conclamando-as a despertar para executar árduas atividades domésticas, não reconhecidas enquanto trabalho. Uma destas esposas é justamente a Modesta do título (interpretada por Antonia Hidalgo), que está grávida de mais um filho, tendo que cuidar de três crianças pequenas.

Tolhida por uma rotina austera, que a deixa comumente estafada, Modesta, quando adormece, sonha que está lavando pratos e roupas, varrendo a casa e alimentando porcos, de modo que ela fica revoltada quando o seu marido (Juan Ortiz Jiménez) a destrata, depois de ordenar que ela prepare um cozido de frango, para quando ele voltasse de uma rinha de galos, com os seus amigos. É quando, instintivamente, ela reage, batendo nele com um pedaço de pau, o que chama a atenção das outras mulheres da redondeza, que se sentem inspiradas a também rejeitarem a agressões de seus parceiros. Numa inspirada montagem, o diretor metonimiza a transmissão espontânea desta notícia através de ‘close-ups’ em bocas e orelhas. Trata-se de um filme lúdico, afinal.

O tom conciliador da obra – que é benfazeja no modo como tematiza o empoderamento feminino, numa época em que esta expressão ainda não era fartamente utilizada – causa incômodo pelo modo assimétrico com que expõe um acordo entre maridos e mulheres, com base numa igualdade improvável: é dito que, depois do surgimento da LML, os homens cumpriram a contento a sua parte no acordo, mas põe em suspeição a contrapartida feminina. Não obstante os maridos serem espancadores recorrentes, a câmera é condescendente quando eles exigem que não seja mais executada “a lei da estaca”, e vemos as mulheres largando as varas com que se defendiam. Conclusão trazida para os dias atuais: sabemos o que é um “feminicídio”, mas não conhecemos a palavra que designa um assassinato masculino, cometido pela esposa. Infelizmente, isso não é por acaso: para os maridos, as mulheres foram “a pior das urgências solicitadas por Adão”!

Resguardados os devidos elogios ao média-metragem em questão, convém exortar as próprias mulheres a contarem as suas vitórias, de modo que é prenhe de sentido o questionamento que as organizadoras da nona edição da Egbé (Mostra de Cinema Negro, em Aracaju – Sergipe) trouxeram à tona, em 2026: “quantas diretoras negras tu conheces?”. As trajetórias da cineasta cubana Sara Gómez [1942-1974] e das brasileiras Lilian Solá Santiago e Karen Suzane foram celebradas na edição atual deste evento, que também exibiu diversos curtas-metragens contundentes sobre questões raciais. A reivindicação das vozes femininas na realização cinematográfica é um assunto recorrente desde a primeira edição desta mostra, de modo que o média-metragem resenhado neste texto esclarece, no limiar de suas boas intenções, o porquê de uma abordagem masculina acerca de um levante feminista ser balizada por contradições inevitáveis. No filme, ditados populares atravessam toda a narrativa: seja quando, na caixa registradora de um bar, lemos a advertência “se tu bebes para esquecer, pague antes de beber”, seja na exigência das mulheres em ouvirem a aceitação dos maridos quanto às demandas da LML, antes mesmo de prepararem o jantar, através da alegação de que “não se deve deixar para amanhã aquilo que podemos fazer hoje”. A luta pela eqüidade entre os gêneros é uma solicitação de anteontem. Sigamos na persistência por sua efetivação…

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem disponível em: https://i.ytimg.com/vi/1UpNME-P_UE/hq720.jpg?sqp=-oaymwEhCK4FEIIDSFryq4qpAxMIARUAAAAAGAElAADIQj0AgKJD&rs=AOn4CLCLxciBINNFLxIRH-OpFtbTV8QGMQ

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