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É menos pior chegar atrasado que faltar? (ou de como lidar com a falta induzida de assunto)

É menos pior chegar atrasado que faltar? (ou de como lidar com a falta induzida de assunto)

A pergunta é retórica, mas serve para puxar assunto, iniciar uma (boa) conversa. Na “Introdução” do livro “Inside Oscar: The Unofficial History of the Academy Awards®”, de Mason Wiley & Damien Bona, os autores mencionam um cartaz colocado à frente de um restaurante californiano, onde se lia: “FECHADO NAS SEGUINTES NOITES: NATAL, PÁSCOA, 4 DE JULHO, HALLOWEEN E NOITE DO PRÊMIO DA ACADEMIA”. Publicado em meados da década de 1980, este livro, quiçá o mais completo – ainda que atualizado somente a posteriori – acerca do evento titular, é então dedicado ao proprietário deste restaurante e “para qualquer um que considere a noite do Oscar como feriado anual”. Quem acompanha esta coluna habitualmente, sabe: definitivamente, estamos enquadrados nesta categoria!

Por motivos óbvios, sabemos e declaramos que os filmes indicados e premiados nesta cerimônia estadunidense não correspondem ao panteão qualitativo que, numa fase de ingenuidade, tendíamos a crer, mas estas seleções dizem bastante sobre as tendências dominantes numa lógica capitalista de perene reinvenção, que, mais que saber lidar com as crises estruturais, sabe inocular as tendências contrárias, num processo de assimilação progressiva que, se não fôssemos capazes de lidar com as contradições cotidianas, poderia nos levar à paralisia ativa. Afinal, os idealismos de outrora não dão conta de nossos recursos sobrevivenciais, em meio à necessidade de trabalhar, às vezes em áreas das quais não gostamos…

Assumindo a intenção indisfarçada deste texto: o responsável por ele foi sufocado por demandas burocráticas relativas à sua vinculação empregatícia e, como tal, não dispôs do tempo de ócio requerido para a apreciação de um bom filme, livro ou álbum musical, a fim de produzir uma resenha. Advogando em causa própria, ele aproveita este espaço para divulgar um projeto considerado megalomaníaco, mas que, em comunhão com um amigo, realiza um sonho de adolescência, que serve para estabelecer um equilíbrio entre a nostalgia inevitável, a partir de determinada faixa etária, e a necessidade de refletir sobre a organicidade histórica, na defesa recorrente da máxima de que, em quaisquer situações, “é importante voltar aos clássicos”.

No dia 08 de abril de 2026, um dia após o aniversário de oitenta e sete anos do cineasta norte-americano Francis Ford Coppola – tachado de megalomaníaco em mais de uma oportunidade –, o crítico de Cinema Wesley Pereira de Castro e o professor universitário Hamílcar Dantas Silveira Júnior iniciaram uma atividade de extensão que pretende exibir, cronologicamente, todos os longas-metragens vencedores do Oscar de Melhor Filme, desde a primeira cerimônia, ocorrida em 16 de maio de 1929. Vários estudantes e cinéfilos inscreveram-se na referida atividade e compareceram ao encontro de abertura, declarando o interesse de, ao longo dos anos, debater as obras exibidas. Uma decisão simples, mas que, num contexto social em que a descoberta de obras antigas é cada vez mais exígua, pode exortar as pessoas a compreenderem mazelas socioeconômicas que se estenderam até os dias atuais, por conta da habilidade hollywoodiana em fazer com que a evasão prevaleça em detrimento da reflexão. O que será que um filme como “Asas” (1927, de William A. Wellman) tem a dizer sobre as situações que enfrentamos hodiernamente? Basta conferir para saber!

Para concluir com dignidade o raciocínio, segue um parágrafo em primeira pessoa: eu estava muito preocupado em, por estar “sem assunto”, não ter o que escrever em minha coluna de sexta-feira, um compromisso hebdomadário que, mesmo quando eu penso que não trouxe nada de relevante para os leitores, surpreendo-me ao deparar-me com reações e/ou indagações às questões que esforço-me para trazer à tona, neste exercício íntimo de “novo jornalismo”. Ainda assim, improvisei estas linhas, compartilhando algumas crenças e inquietações e divulgando um projeto que considero relevante e que, num execício de ausência de modéstia, eu adoraria participar, se fosse aluno. Portanto, se tu moras na região metropolitana da capital do menor Estado do Brasil, convido-te a comparecer nas sessões da “Mostra Cinematográfica de Cinema e História: o Oscar® e o ‘Zeitgeist’”, cujas inscrições estão abertas no sistema SIGAA da Universidade Federal de Sergipe; se tu não moras, reitero o pedido de todas as semanas: conversemos, puxem assuntos, questionem o que está publicado, tragam novas contribuições dialogísticas para a esfera pública. E, claro, abram o coração cinéfilo, a fim de compreender que obras pouco divulgadas como “Cimarron” (1931, de Wesley Ruggles), “Cavalgada” (1933, de Frank Lloyd) e “A Vida de Émile Zola” (1937, de William Dieterle) são relevantes, para além das expectativas eventualmente frustradas que advêm da noticiabilidade derivada do(s) troféu(s) recebido(s) na premiação cinematográfica mais importante de Hollywood. Que os assuntos fluam daqui por diante: ousemos pensar, quando o Capitalismo insiste em incutir a tendência oposta!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: cartaz de lavra própria.

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