Por muito tempo, a versão integral de “Um é Pouco, Dois é Bom” (1970, de Odilon Lopez), primeiro longa-metragem gaúcho dirigido por um negro, esteve indisponível para os espectadores brasileiros. Graças a uma restauração completada em 2024, por uma equipe de profissionais cinematográficos abnegados, o filme está prestes a encontrar novas platéias, tal como aconteceu na noite de 24 de abril de 2026, quando ele foi exibido na cerimônia de abertura da segunda edição da Mostra Quarta Parede, organizada por estudantes vinculados à Universidade Federal de Sergipe. No dia seguinte a exibição, a crítica e pesquisadora Kênia Freitas debateu o filme, compartilhando detalhes sobre a trajetória do pioneiro Odilon Lopez [1941-2002], que iniciou a sua carreira como repórter televisivo.
Dividido em dois episódios, este filme surpreende pela maneira irônica, mas empática, com que narra as desventuras sociais de duas duplas de pessoas: no primeiro dos casos, “Com um Pouquinho de Sorte”, o casal Jorge (Carlos Carvalho) e Maria (Araci Esteves) acaba de se casar. Ele trabalha como motorista de ônibus, e crê que pode quitar um apartamento graças às comissões que recebe pelo bom desempenho em sua função. Ela por sua vez, é comerciária, e perde o emprego por estar grávida. As dívidas se acumulam e Jorge precisará sobreviver através de algumas práticas contraventoras, vendendo mercadorias como camelô, nas ruas, por exemplo. “Vamos levar no varejo aquilo que a fiscalização leva no atacado”, grita ele. Os diálogos concebidos pelo escritor Luis Fernando Verissimo [1936-2025] servem como metáforas espontâneas para o cinema brasileiro!
O segundo episódio, “Vida Nova… Por Acaso”, possui um viés sardônico e autocrítico: dois ladrões, Crioulo (o próprio Odilon Lopez) e Magrão (Francisco Silva), saem da cadeia após alguns meses presos. Deparam-se com dois bandidos em más condições físicas, diante da delegacia, bastante similares a si mesmos. Declararam a intenção de “começarem de novo”, mas voltam a roubar carteiras no primeiro dia de liberdade. Magrão tenta recuperar a convivência com uma antiga namorada, mas esta diz não valia a pena esperar por ele, e rejeita o chaveiro sem chaves que lhe é ofertado pelo ex-amante. “Para que isso?”, pergunta ela. “Para ser utilizado numa porta sem fechadura”, responde ele. Mais uma metáfora para o cinema brasileiro!
Neste episódio, Crioulo é chamado, num carro, por uma jovem loira (Ângela Grosser), a quem ele apelida de Fada, que diz que ele prece com alguém que ela conhecera na adolescência. Paga-lhe roupas novas, convida-o para festas e, no que seria o derradeiro ritual de “iniciação”, o convida para uma festa na praia. Até que Magrão aparece, para resgatá-lo de algo que não é bem explicado, mas que corresponde a uma versão ainda mais rapace do que conhecemos como “apropriação cultural”. A questão racial aparece de maneira inesperada e impactante, adicionando um caráter quase terrífico ao enredo, que, em seu discurso extremamente realista, chega a mostrar a cadeia como um local de conforto para os personagens, visto que ali, eles “podem comer às custas do Governo e deitar sob um teto quente”. Mais de cinquenta anos depois, o que mudou?
Permeado por vários toques de genialidade, “Um é Pouco, Dois é Bom” possui um intervalo, entre os dois episódios, no qual o diretor agradece ao público, pela atenção disponibilizada, e enumera os parceiros comerciais que ajudaram no lançamento do filme. Numa entrevista, concedida em 1982, à edição número 40 da revista Filme Cultura, cuja temática central foi “o negro no cinema brasileiro”, Odilon Lopez lamenta a ausência significativa de personalidades negras à frente e detrás das câmeras. Comenta ele: “a pigmentação é ainda uma barreira para o artista no Brasil, até mesmo na TV. Salvo exceções, seus personagens [negros] não miscigenam com os arianos”. Por muito tempo, nem mesmo os cinéfilos conheciam o realizador em questão, que dirigiu apenas este filme, impressionante naquilo que traz à tona, tanto dramática quanto comicamente. “O caminho a seguir é o trabalho árduo, ampliando os horizontes para os que nos sucederem. O futuro deles vai depender do que deixarmos como exemplo”, pondera Odilon Lopez, ao citar Charles Chaplin [1889-1977] e Grande Otelo [1915-1993] como as suas principais influências. Na prática, infelizmente, artistas inconformistas como ele permanecem relegados aos circuitos restritos, quando o diretor ambicionava justamente o alcance popular, então obtido pela televisão. Cabe a nós fomentar o interesse por um filme tão ousado como este, que opta pela protagonização de personagens trambiqueiros a fim de deixar claro qual é o vilão em ambas as estórias, o capitalismo especulativo e o racismo estrutural – sintetizados no neologismo “granjestes”, mistura de grã-finos com cafajestes. No derradeiro letreiro, “uma homenagem aos donos de cinema que não fecham as cortinas até terminarem os créditos”. O que Jorge diz, após arrotar em sua sala, depois de um bom almoço de domingo, tem a ver om o ‘modus operandi’ do filme, que imita a estrutura pornochanchadesca do período para subvertê-la sociologicamente. Eis o corolário de um autor mui singular do cinema brasileiro!
Wesley Pereira de Castro.
Fonte da imagem disponível em: https://s3.sa-east-1.amazonaws.com/prd.editor.fundacaoitau.org.br/public/image/3455/file/optimized-27a6d96fd6856ca024d0b61d93fb4634.png



