Premiado como Melhor Documentário no Festival do Rio e concorrente na Mostra Competitiva de Longas-Metragens do Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em São Paulo, “Apolo” (2025, de Tainá Müller & Ísis Broken) é um filme que diz muito sobre os apanágios da contemporaneidade, em que cada instante é midiaticamente representado. Dedicado ao filho recém-nascido de duas pessoas transexuais, este filme compensa o seu formato de videoclipe estendido pelo modo extremamente sincero como o pai e a mãe do bebê Apolo, ambos transexuais, dedicam afeto a ele, a ponto de se submeterem a tratamentos e procedimentos mui delicados, em termos de interrupção provisória de suas agendas pessoais.
Ísis Broken, co-diretora e mãe de Apolo, é uma ‘rapper’ sergipana, responsável pelo álbum “Bruxa Cangaceira” (2021) e pelo extraordinário videoclipe da canção “O Clã”, além de ter desempenhado um papel pequeno, mas marcante na telenovela “No Rancho Fundo”, da TV Globo. No início do documentário, ela conta como conheceu Lourenzo Gabriel — também ‘rapper’, difundido sob o nome artístico Aqualien — e por quem apaixonou-se de imediato, virtualmente, depois de uma madrugada inteira conversando com ele. Após convencê-lo a vir de São Paulo para Aracaju, Ísis comenta que o primeiro beijo entre os dois foi tão intenso que desembocou na concepção de Apolo, por vias naturais. Há algumas suspeitas de programação publicitária, quanto a isso, já que Lourenzo era submetido a tratamento hormonal, com testosterona, o que impediria sequer que ele menstruasse, mas isso é dissipado à medida que o filme avança, quando acompanhamos Lourenzo lidando com dilemas pungentes, como a possibilidade de precisar amamentar o seu filho, através dos próprios seios, o que poderia desencadear um trauma disfórico.
Num diálogo casual e interessantíssimo, Ísis e Lourenzo comparam as relações que ambos possuem com seus próprios corpos: enquanto ela diz que não se sente incomodada ao se assumir como uma “mulher com pau”, inclusive quando vai à praia, ele, por sua vez, relata que foi vítima de inúmeros maus tratos, e ainda se sente magoado por não ter sido respeitado na declaração de sua identidade de gênero, entre as pessoas mais próximas. Lourenzo elenca diversos momentos em que brigara com a sua mãe, por conta disso, e, numa rima mnemônica pitoresca, ambos os personagens reais comentam as suas interações infantis com o programa televisivo “Bom Dia & Cia.”, do canal aberto SBT, apresentado pela ex-cantora Eliana: enquanto Lourenzo foi hostilizado por não querer usar vestidos e por desgostar de brinquedos de cozinha, quando era criança, Ísis relata a situação dolorosa em que seu pai queimou os seus brinquedos, incluindo o bichinho de pelúcia Melocoton, que transformou-se numa “gosma vermelha” na fogueira. Numa cena perto do final, ela ganha um novo boneco destes, e o abraça com força, metonimizando um gesto de cura possível (e tardia) para crianças que foram bastante machucadas. Estamos diante de um documentário sobre esperança e acolhimento, afinal.
Outra rima visual interessante é percebida através de elementos de decoração vinculados ao cavalo-marinho, que aparecem no quarto de Apolo, o que é muito contundente, visto que esta espécie de peixe é famosa pela “inversão de papéis sociais”, pois é o macho da espécie quem cuida dos filhotes. Como estamos assistindo a um filme em que o pai engravida, há ilustração melhor do que esta? Não por acaso, tanto Lourenzo quanto Ísis mencionam rusgas envolvendo os representantes masculinos de suas famílias, seja no que tange à separação dos progenitores do primeiro, seja no que diz respeito à homofobia e intolerância do pai da segunda. Felizmente, a mãe, a avó e as tias de Ísis são sobremaneira acolhedoras, algo que ainda está sendo uma novidade para Lourenzo, no contato restabelecido com a sua mãe, de aparência juvenil.
Por ser um filme narrado como se fosse uma carta audiovisual para o nomeado Apolo, este longa-metragem consegue justificar os seus problemas formais, de cariz publicitário, atrelando-os aos pontos de vista de Ísis e Lourenzo, que decidem sair de Sergipe, por acharem que o Estado nordestino oferece poucas oportunidades para as suas respectivas carreiras artísticas e por sofrerem atos demarcados de transfobia. Em São Paulo, a gravidez atípica de Lourenzo pôde ser acompanhada por médico que trabalha num Centro de Referência Transexual, o que, lamentavelmente, não impede o casal de ser alvo do ódio gratuito de um taxista, que interrompe uma conversa íntima para destilar os seus preconceitos, durante uma corrida. Mesmo não sendo um filme que inove em termos linguísticos — nem parece ter esta intenção —, “Apolo” é gracioso na maneira como direciona amor pelos seres humanos mencionados, sendo particularmente merecedor de atenção quando Ísis comenta que o que eles estão vivendo lembra aquilo que é exortado pela dupla Os The Dárma Lovers, na excelente canção “Peixes”: “Nós vivemos como peixes/ Com a voz que em nós calamos /Com essa paz que não achamos/ Peixes, pássaros, pessoas/ Nos aquários, nas gaiolas, pelas salas e sacadas/ Afogados no destino de morrer como decoração das casas”. Que o exemplo positivo de Ísis e Lourenzo possa influenciar os nossos governantes, no que tange à aceitação de novas conformações familiares, que abarquem a amplitude dos espectros de gênero, e que, assim, sejam diminuídas as mazelas decorrentes de maus tratos infantis, advindos da inaceitação de outrem quanto àquilo que as pessoas desejam para as próprias vidas. Apolo — que já possui até perfil de Instagram — é muito amado, indubitavelmente. E também exposto, visualmente. Ambas as características estão analisadas, enquanto sintoma epocal, no desenvolvimento do filme. É particularmente relevante quando Ísis explica o porquê de ter escolhido o nome de seu filho, associando-o a motivos solares, enquanto complementa que ela escolheu o próprio nome porque ele significa “nascida de si mesma”. Ela pode — e que bom que ela pôde. Que mais pessoas possam usufruir deste direito, daqui por diante!
Wesley Pereira de Castro.
Fonte da imagem disponível em: https://portalpepper.com.br/wp-content/uploads/2025/10/APOLO.jpg



