Quando eu era criança, apanhava todos os dias no colégio. Meus trejeitos considerados afeminados, meus traços físicos delicados e minha voz aguda faziam com que meus colegas de classe nutrissem uma antipatia imediata por mim, inexplicável porém fomentada externamente. Era espancado e maltratado diariamente, além de receber apelidos (Xalalá, FaroFino, Engoli um Grilo, etc.) que, à época, desagradavam-me. Como reação a estes maus tratos reiterados, tornei-me agressivo, emocionalmente descontrolado, até ser expulso do colégio. Manipulado pelos ditames dos ensinamentos católicos, fui convencido de que a dor que eu sentia era necessária para ser aceito socialmente, para ser valorizado enquanto ser humano. Comecei a dizer publicamente que apreciava sentir dor, a fim de não ser tão vilipendiado. A estratégia funcionou por alguns anos: ao imaginarem que eu pudesse sentir um mínimo de prazer ao ser ferido, meus algozes preferiram evitar os tapas, chutes e empurrões frequentes. Tornei-me um masoquista sobrevivencial?
Este parágrafo em primeira pessoa não foi gratuito. Apesar de, sim, condizer com as memórias do responsável por esta coluna, não é uma exclusividade autobiográfica. O que, hoje, é categorizado como ‘bullying’ era um rito de passagem dolorosamente habitual para quem era “diferente”, sem que sequer fossem declarados os motivos para tal. “Não te enquadras nos modelos comportamentais heteronormativos? Surra para ti, então!”. E, assim, foi formado o caráter machucado de quem cresceu nas décadas de 1980 e 1990, de modo que um filme como “Em Minha Pele” (2002, de Marina de Van) afeta-nos intimamente, ao abordar a questão em seu viés adulto…
Neste filme, protagonizado pela própria diretora, conhecemos Esther, uma executiva ‘workaholic’ de uma empresa de marketing, especializada em comunicações com países asiáticos, que está prestes a receber uma promoção. Numa festa, entediante como tende a ser o convívio com os executivos, Esther vai para uma área onde estão entulhados vários objetos e tropeça nalguns deles. Mais tarde, no banheiro, percebe que está sangrando. Limpa rapidamente a ferida e, daí por diante, começará a lidar com reações estranhas às infecções que parecem se espalhar por seu corpo.
Interagindo comumente com seu namorado Vincent (Laurent Lucas) e com a amiga invejosa Sandrine (Léa Drucker), ambos sobremaneira ambiciosos, Esther fica refém das deliberações sobre trabalho, em seu tempo livre, após as reuniões e/ou jantares executivos. E, experimentando um vazio existencial que poderia ser entendido como uma crise de ‘burnout’, ela passa a lamber o sangue que é exalado de suas feridas, além de automutilar-se progressivamente. O seu adoecimento psíquico — e refletido em seus vínculos sociais — reflete-se no modo horripilante como ela passa a tratar o próprio corpo, chegando ao limite de tentar comprar formol numa farmácia, com o intuito de conservar os grandes pedaços de pele que ela extrai de si mesma, de modo que parte considerável dos noventa e três minutos de duração deste filme são dedicados à lenta efetivação das feridas que Esther provoca em seu corpo, algumas delas registradas fotograficamente, para o seu ‘voyeurismo’ adquirido enquanto adesão conscienciosa à patologização.
Associado estilisticamente ao subgênero extremo dos filmes de terror franceses contemporâneos — que rendeu produções tão polêmicas quanto impactantes, como “Alta Tensão” (2003, de Alexandre Aja), “Mártires” (2008, de Pascal Laugier) e “Grave” (2016, de Julia Ducournau) —, “Em Minha Pele” possui várias situações em que enxergamos os ambientes através do olhar de Esther (a seqüência do supermercado, por exemplo, ou o desfecho, num quarto de hotel), de modo que o filme reproduz o enfado existente no cotidiano empregatício da protagonista, a fim de converter-se em perturbador, enquanto acompanhamos os sangramentos continuados de Esther: as reuniões parecem intermináveis, tanto quanto os instantes mais sanguinolentos. Independente de o filme ser ou não funcional na adesão ao público, ele chama a atenção para um efeito colateral de quem não sabe lidar com as seqüelas de seu sofrimento, visto que, neste caso, a dor surge como tentativa de sentir algo, em meio às hipocrisias diplomáticas que consolidam o ambiente ‘yuppie’ (gíria freqüentemente utilizada na década de 1980, para definir os “jovens profissionais urbanos”, em constante ascensão funcional). A letargia de Esther carece da agressividade autoinfligida para que ela seja convertida em personagem. Não fazemos isso conosco mesmo, ao hipertrofiarmos angústias ou lacerações, no afã por parecermos minimamente interessantes para outrem? Assumo a culpa. Texto em primeira pessoa, novamente!
Wesley Pereira de Castro.
Fonte da imagem: https://www.cinemamoderne.com/wp-content/uploads/2025/06/dans-ma-peau-still-siteweb-scaled-e1749061161589.jpg



