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…E quando o fascismo vem de dentro, ou de alguém que amamos? Continuamos rindo?

…E quando o fascismo vem de dentro, ou de alguém que amamos? Continuamos rindo?

Numa apresentação sobre a filmografia do cineasta guiné-biassauense Flora Gomes, uma palestrante comentou a irrupção da comicidade em suas obras mais recentes através de um dito popular pós-colonial: “cuidado daquilo que tu ris, pois podes estar a zombar de tu mesmo”. Este conselho zombeteiro traz à tona uma função ancestral da comédia, que é o seu caráter paródico, o seu comentário crítico sobre uma situação que causa desconforto em sua aplicabilidade generalista. Numa conjuntura hodierna marcada pela reascensão de discursos fascistas ao redor do mundo, o teor combativo das comédias é mais que requisitado. E, neste sentido, precisamos elogiar as proezas imersivas do longa-metragem português – em co-produção com a França e Brasil – “Diamantino” (2018, de Gabriel Abrantes & Daniel Schmidt).

Protagonizado por um personagem-título que satiriza ostensivamente os arroubos de vaidade do futebolista lusitano Cristiano Ronaldo, este filme surpreende pelo modo como insere diversas questões sociais mui relevantes em meio a um roteiro que oscila entre o surrealismo e a comédia romântica tradicional. Na trama, Diamantino Matamouros é um extraordinário jogador de futebol que perde os seus talentos em campo no mesmo dia em que seu pai falece. Investigado por conta de escândalos financeiros escabrosos, além de ridicularizado por seus depoimentos estultos em programas de TV, ele passa por uma crise existencial após experimentar o fracasso e resolve adotar um “fugiadinho”, modo como refere-se às crianças que tentam adentar ilegalmente, no intuito por fugirem das perseguições e misérias de seus países natais. Enganado por uma jornalista investigativa, ele termina adotando a namorada deste, que finge-se de adolescente moçambicano. É o início de uma série de situações abonatórias da idiotia do protagonista.

Progressivamente descrito como alguém que possui desenvolvimento cerebral retardado, mas que compensa tal lacuna com uma “generosidade que transborda”, Diamantino obviamente apaixona-se pela pessoa que adota, ao passo em que descobre que suas irmãs gêmeas – que controlam a sua fortuna – estão a roubá-lo. Além disso, ele é submetido a experiências científicas que o metamorfoseiam progressivamente num hermafrodita. Como se não fosse suficiente, Diamantino ainda de envolve num complô separatista de uma ministra de extrema-direita, que transforma o jogador num porta-voz involuntário de uma campanha violenta pela saída de Portugal da União Européia. Tal sinopse basta para salientar que estamos diante de uma comédia, no mínimo, singular?

Interpretado de maneira assaz carinhosa pelo conhecido ator Carloto Cotta, o protagonista de “Diamantino” também é responsável pela narração em ‘off’ que conduz o filme, compartilhando detalhes pensamentais sobremaneira pitorescos, como a associação dos demais jogadores em campo a cachorrinhos felpudos. Ou seja, nas partidas de futebol em que demonstrava uma desenvoltura acima da média, o jogador beneficiava-se de uma infantilização especial que reforçava, para si, o aspecto de brincadeira, de modo que ele apenas divertia-se, enquanto outros lucravam com os seus méritos desportivos. Numa investida bastante louvável, o enredo ressignifica magistralmente os adjetivos que, inicialmente, mostram Diamantino como um personagem negativo. Apesar de efetivamente tolo, sua bondade desinteressada o converte num personagem absolutamente simpático, à deriva numa sociedade entulhada de xenofobia, homofobia, corrupção e outras mazelas nacionais. O recado é direto: em política, é imperativo ir além de nossos preconceitos!

Trasladando-se esta lógica moral para situações recentes de avacalhação pós-eleitoral, perguntamo-nos até que ponto é lícito escarnecer quem financiou a hecatombe política em que nos encontramos. Tomando como exemplo-chave o contexto brasileiro: não ostante ter sido eleito com mais de 55% dos votos válidos no processo eleitoral de 2018, o atual presidente Jair Bolsonaro é alvo de intensificada rejeição por parte dos brasileiros, visto que o somatório de abstenções, votos nulos e brancos passou de 30%. Dizendo de outro modo: quase um terço da população votante não manifestou-se favorável à sua eleição, ainda que tenha contribuído diretamente para tal. Em meio à extrema polarização ideológica que divide lancinantemente o país, encontramos um percentual de pessoas que declara-se “apolítico” ou incapaz de decidir entre as duas únicas opções disponíveis no segundo turno eleitoral, incapacidade esta em muito vinculada ao desagrado midiaticamente retroalimentado pelas administrações anteriores, advindas do Partido dos Trabalhadores (PT). O que alguns “vencidos” fazem em relação aos bolsonaristas e aos indiferentes? Chacota generalizada e imediatista. O que isto desencadeia? Ódio!

Numa reviravolta absurda e caricata em si mesma, a condenação de um humorista responsável por declarações hediondas contra várias mulheres tonou-se o torpe clamor dos seguidores de extrema-direita pela liberdade de expressão, configurando uma deturpação vilanaz de ambas as palavras e uma tendência axiológica radicalmente oposta ao que foi dito acima sobre a comédia de cariz crítico. Ao invés de perceberem que estão rindo de si mesmos, uma parcela considerável de brasileiros dedica-se ao escárnio persistente em relação ao seu próximo. De ambos os lados da polarização, infelizmente. A imbecilidade generalizada que assume-se como tendência dominante de um (des)governo obcecado pela aniquilação educacional pouco a pouco vai contaminando não apenas quem votou a favor do retrocesso político, mas também quem não o fez – seja lá por quais motivos. É preciso ter cuidado com aquilo que não percebemos que legitimamos ao rirmos. “Diamantino” é uma ótima demonstração fílmica disso!

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