EnglishFrenchGermanItalianPortugueseSpanish
EnglishFrenchGermanItalianPortugueseSpanish

Quando o trabalho não dignifica…[um exemplo elíptico]

Quando o trabalho não dignifica…[um exemplo elíptico]

Para as novas gerações, trabalhar em feriados é algo corriqueiro. Se, até a década de 1990, períodos como a Semana Santa, o Dia de Finados ou o Natal eram altamente celebrados, inclusive de maneira litúrgica, na aurora do século XXI é comum encontrarmos trabalhadores requerendo horas extras nos feriados, a fim de receberem em dobro por esta jornada adicional. Estamos na era das terceirizações, dos contratos de feristas, do precariado, enfim. O que há para ser comemorado no Dia Internacional do Trabalho, portanto? Para alguns dos principais interessados na data, é um dia de labuta como qualquer outro…

Como principal conseqüência desta mudança comportamental, temos uma espécie de secularização das leis trabalhistas, sobremaneira aplicáveis aos interesses dos investidores e mantenedores do sistema capitalista, que lucram bastante com a perda da consciência de classe dos trabalhadores hodiernos. Nessa conjuntura, o trabalho aparece com algo que esfacela corpo e mente dos seres humanos, como fardo que desumaniza, que exaure, que opõe pessoa contra pessoa em meio ao escasseamento de boas oportunidades empregatícias. Não apenas há um comodismo forçado em relação a condições desfavoráveis de trabalho, mas uma competitividade intrínseca, decorrente da crise atualmente enfrentada pelo capitalismo mundial.

Antes de trazermos a questão para um ambiente de suma preocupação, envolvendo a anunciada aprovação de uma reforma previdenciária que tende a tornar ainda mais calamitosa a situação dos trabalhadores brasileiros, servir-nos-emos de uma análise de um clássico filme japonês enquanto metáfora primeva do mal-estar hodiernamente generalizado. Trata-se de “A Mulher Inseto ou Tratado Entomológico do Japão” (1963), dirigido pelo mestre da ‘Nubaru vagu’ – nomeação particular para a ‘Nouvelle vague’ japonesa – Shohei Imamura (1926-2006).

Tramaticamente iniciado em 1918, com o nascimento da protagonista Tome (Sachiko Hidari), logo testemunhamos o preconceito sofrido por sua mãe, sexualmente promíscua, e, por conta disso, acusada de não saber quem é o pai da criança. Ela consegue emancebar-se com o tolerante Chuji (Kazuo Kitamura), mas este passa a desenvolver um convívio largamente incestuoso com a filha Tome. Dormem juntos e descrevem-se como “casados”. Diversas elipses temporais são mostradas, até encontrarmos Tome trabalhando numa fábrica têxtil, como parte do esforço patriótico da população japonesa em relação à II Guerra Mundial. Como é sabido de todos, o Japão perde a guerra. E Tome, obviamente, fica sem trabalho…

Obstinada, a jovem não se subordina ao derrotismo em voga. É oferecida em casamento a um latifundiário local, mas engravida e é devolvida à família. Consegue convencer suas parentas mais velhas a não assassinarem o bebê e, em meio à fome, amamenta o próprio pai diretamente em seu seio. Mas é necessário seguir em frente: ela migra para a capital japonesa e consegue um emprego como criada na casa da amante de um soldado norte-americano. Atraída pelas constantes práticas sexuais de sua patroa, distrai-se e não percebe que a filha desta brincava perto do fogão. O inevitável acidente acontece, a criança morre, e, após requerer auxílio numa missão religiosa, ela é obrigada a recair na prostituição. Torna-se uma cafetina bem-sucedida e, na derradeira cena do filme, atola a sandália na lama da cidade rural em que nasceu. Não se detalha o que ocorreu neste interstício narrativo propositalmente: este filme precisa ser visto!

Em sua pletora de horrores sociais desencadeados pelo desemprego massivo, o cineasta Shohei Imamura estabelece a sua principal obsessão temática: a exposição dos seres humanos como aprisionados às necessidades animalescas mais elementares, a fome e o desejo sexual. Tome é apresentada como uma corajosa sobrevivente de uma situação de larga miserabilidade e descrédito social, mas também como corolário psicológico de um sintoma advindo do labor intensificado, a perda da própria dignidade. O filme foi realizado na Ásia, no início da década de 1960. Estamos no Brasil, em 2019. Entre um e outro contexto, o que há de similar?

De uma maneira lamentavelmente mais elaborada, enfrentamos diuturnamente este mesmo fomento à indignidade, através de rotinas inclementes de trabalho, leis que favorecem principalmente as injustiças patronais e direitos que perigam ser revogados com a supracitada reforma previdenciária em julgamento. Os níveis de desemprego crescem bastante no País e o poder de compra vinculado ao salário-mínimo é cada vez menor. Aumentos de vários produtos são semanalmente anunciados, sobretudo em relação aos que advêm do petróleo. Inúmeras empresas estatais estão prestes a ser privatizadas. A polarização ideológica é retroalimentada com vigor, em especial nas mídias sociais, com vistas à manutenção de um conflito popular que facilita o trabalho dos grandes empresários com interesses vilanazes: estando a população desunida, é muito mais fácil o controle. Educadores passam a ser os maiores inimigos da classe política atualmente no poder. No panorama internacional, a situação conflituosa é bastante semelhante. Afinal, o que há para ser comemorado?

Descarregar artigo em PDF:

Download PDF

Partilhar este artigo:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

LOGIN

REGISTAR

[wpuf_profile type="registration" id="5754"]