EnglishFrenchGermanItalianPortugueseSpanish
EnglishFrenchGermanItalianPortugueseSpanish

“Eu não posso te amar se eu não conseguir te admirar”, diz ela; para ele, basta “fazer sexo todas as noites”…

“Eu não posso te amar se eu não conseguir te admirar”, diz ela; para ele, basta “fazer sexo todas as noites”…

No Brasil e em Portugal, o clássico francês “Betty Blue” (1986, de Jean-Jacques Beineix) voltou a ser exibido nas salas de cinema, em homenagem ao seu quadragésimo aniversário. Bastante cultuado por seu romantismo intenso, este filme confirma as tendências do realizador – falecido em janeiro de 2022, aos setenta e cinco anos de idade – em suas aplicações estéticas, advindas da experiência publicitária, do que viria a ser conhecido como ‘cinéma du look’. Junto a Luc Besson e Leos Carax, o diretor desta obra especializou-se na abordagem da inquietação feminina, quando suas protagonistas entregam-se a relacionamentos amorosos que, hoje, seriam definidos como “tóxicos”. Exemplos de outros trabalhos beineixianos, neste sentido: “Diva – Paixão Perigosa” (1981) e “Roselyne e os Leões” (1989). O problema que não quer calar: isto é feito a partir da objetificação indisfarçada das mulheres que, apesar de aparecerem nos títulos dos filmes, nem sempre são as protagonistas…

Detenhamo-nos acerca do celebrado Betty Blue: originalmente intitulado “37º2 le Matin”, quiçá em referência às altas temperaturas sentidas pelos personagens, que ficam despidos o tempo quase inteiro, este filme fala sobre o encontro aparentemente circunstancial entre o faz-tudo Zorg (Jean-Hughes Anglade) e a deslumbrante Betty (Béatrice Dalle). Na primeira seqüência, eles transam demoradamente, numa quarto onde há uma reprodução do quadro “Mona Lisa” pendurado na parede. Zorg comenta que eles se conheceram apenas há algumas semanas. No dia seguinte, Betty aparece com duas mochilas, pedindo para morar com ele, depois de ter sido assediada por um patrão…

Nem bem se recupera do assédio susomencionado, Betty enfrenta outro patrão, o de Zorg, que, ao flagrá-la dormindo com ele, exige que ambos pintem vários bangalôs, o que irrita sobremaneira a moça, que questiona o excesso de submissão de Zorg. É quando, numa das várias brigas com o namorado, Betty encontra alguns manuscritos de Zorg, e percebe que ele possui talento literário. Ela dedica-se a fazer com que ele seja publicado, enquanto Zorg, por algum motivo, reluta em aderir às suas sugestões. Mudam-se para outra cidade, onde arranjam emprego na pizzaria de um amigo, Eddy (Gérard Darmon). Porém, o temperamento indomado de Betty logo causa problemas. Até que, por ocasião de uma viagem súbita, devido ao falecimento da mãe de Eddy, Zorg e Betty instalam-se em sua antiga residência, onde funciona uma loja de pianos. Dará tudo certo, para eles, agora?

Baseado num romance homônimo de Philippe Djian, publicado em 1985, “Betty Blue”, expõe a progressiva degradação psicológica da personagem-título, que, em sua obsessão compulsiva por Zorg, enlouquece, após alegar que “a vida está contra ela”. Como o filme é narrado por Zorg, Betty torna-se uma coadjuvante em seu próprio enredo, objetificada, condenada a servir de musa alucinada para o namorado, cujas habilidades para a literatura são finalmente reconhecidas. Consultando-se a biografia do autor, notamos algumas convergências quanto ao que acontece a Zorg. Betty, assim, converte-se na metonímia ideal da “ex louca”, que muitos homens heterossexuais utilizam para justificar atitudes impetuosas ou pretensamente traumáticas. Betty, por sua vez, é sufocada – literalmente!

Esforçamo-nos para não revelar muitos detalhes acerca da trama do filme, para quem ainda não o viu, pois o recomendamos. A despeito de nossas restrições discursivas concernentes ao machismo da abordagem roteirística, trata-se de um filme mui qualitativo, o que faz com que, mais uma vez, confrontemos um dilema recorrente na apreciação artística: é possível apreciar ficções balizadas naquilo que discordamos moralmente? É um paradoxo aflitivo, mas sim. A fotografia de Jean-François Robin e a trilha musical de Gabriel Yared, ambas deslumbrantes, validam a fama positiva concedida a “Betty Blue”, ao longo dos anos. Mas a diferença no desenvolvimento das personalidades de Zorg e Betty, em suas respectivas demonstrações de afeto, é algo que salta aos olhos e ouvidos: enquanto pegam carona, depois de incendiarem a antiga residência de Zorg, Betty grita insistentemente que o ama. Ele não retribui, apenas pede que ela repita “de novo” e de novo e de novo. Ela o faz. Mais à frente, quando estão instalados noutra residência, Zorg é assediado sexualmente por uma vizinha, Annie (Clémentine Célarié), mas ele a rejeita, dizendo que “resistir aos próprios desejos faz com que nos sintamos mais livres”, e empurra-a com violência, entre as prateleiras do armazém que ela gerencia. A versão do filme exibida nos cinemas possui uma hora e cinco minutos a menos que aquela que foi concebida por seu diretor, de modo que ficou de fora o instante em que Betty afirma que prefere se embebedar, pois “uma ressaca dói menos que uma coração partido”. Ao final da sessão, continuamos incomodados por causa do que acontece, em relação à radical mudança de tom no trecho final da obra: num instante, um jovem Vincent Lindon aparece como um policial atabalhoado, que canta ao saber que Zorg será pai; noutro momento, Zorg veste-se de mulher para visitar Betty, internada num hospital, amarrada ao leito. Quando recebe o telefonema de um editor, encantado pelo que acabara de ler – o manuscrito enviado por Betty, que o digitou linha a linha, mesmo sem saber datilografar –, Zorg é interrogado se já estava escrevendo um segundo romance. Alguém adivinha o que acontece, mesmo sem ter visto o filme?

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem disponível em: https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/50d144f6e4b05aff8e5b9c8c/1401145425845-9D78314C1IC249298P08/image-asset.jpeg

Descarregar artigo em PDF:

Download PDF

Partilhar este artigo:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

LOGIN

REGISTAR

[wpuf_profile type="registration" id="5754"]