

Era 2020. O ano sequer principiara nestas terras mestiças e já se ouvia o burburinho sobre um tal vírus chinês. Coisa séria, de matar rapidamente. “Autoridades preocupadas!” anunciava a TV. Autoridades estrangeiras, talvez. Por aqui, seriedades e preocupações que tenham modos e sigam o calendário. Primeiro o carnaval, depois o ano e o que vier.
Dançamos, cantamos, bebemos, amamos. O medo, bem-educado, respeitou o protocolo. Enquanto já começava a lamber as canelas do outro lado do Atlântico, por aqui esperou o fim dos festejos para dar o ar da graça. Mesmo assim, não nos pegou de frente, recém-carnavalizados que estávamos, brasileiros que somos: temos a morte por vizinha de muro e a China é longe demais! Se muito, sentimos um cheiro: o cheiro de morte recém-morrida, ainda não putrefata; o aroma que beira o morto na hora da partida e é mais uma ideia que um sentido. Supõe-se que esteja lá, mas não faz ninguém tapar o nariz.
Pensávamos que seguiríamos assim, na marola malemolente que nos embala desde Cabral e tempera nosso destempero com risos, gols e cerveja gelada. Qual o quê? Fomos emparedados por um dragão de duas cabeças. De um lado, o vírus outrora distante, agora nos matava aos montes, impiedoso e cônscio de suas obrigações virais; de outro, um vigarista sentado no trono do rei, tão impiedoso e cônscio de suas obrigações virais quanto o próprio vírus (ou mais!).
Tempos grises se abateram sobre esta terra morena. Mortos às centenas de milhares, nossos corpos asfixiados pela incompetência logística de grandes gênios da logística foram lançados em imensas covas coletivas. Covas abertas não por braços de cavar, que já não havia, mas pela truculência marcial das retroescavadeiras. Sequer fomos carpidos a contento. Fora da vala, quem nos pranteava não nos reconhecia em meio à massa indecifrável de cadáveres. Chorávamos uns aos outros na impossibilidade de nos chorarmos um a um adequadamente. E o rei, brioso de não ser coveiro, escarnecia dos que se afogavam em seu desterro infeccioso, laureando seus iguais com a elevadíssima insígnia de “imbrochável, imorrível, incomível”.
Então, a Terra girou. A mesma Terra que os amigos do imperador juravam ser plana como uma bolacha seca, provou-se redonda qual cansara de saber Aristóteles. O tempo correu, as marés subiram, baixaram e o sol tornou a brilhar ao Sul do Equador. Regressaram os risos, os gols, a cerveja gelada e, claro, o carnaval!
O tal vírus assolador segue vivente. Domado, enfim, pelo chicote da ciência, não apavora como antes (corre à boca miúda que nenhum humano virou jacaré tal profetizara o embusteiro). Já ele, nosso kaiser da charlatanice, segunda cabeça do dragão que tivemos que decepar neste solo tropical, é hoje fragilíssimo idoso a lamuriar-se de seus fracassos em uma cela climatizada de prisão, entre soluços e melancolias: onde o berrante para a boiada de idólatras-idiotizados? Onde o brilho ludibriante das joias sauditas? Onde Balneário Camboriú, as motocicletas, os jet-skis, os pãezinhos com leite condensado? Onde os gritos alucinados de “mito, mito”, a bandeira nacional sequestrada para esquetes de “marcha-soldado”, as continências prestadas a muros de quarteis, as orações ao Deus de Israel e aos pneus, os pedidos de socorro a gringos e ETs? Onde o histórico de atleta, o tom ameaçador, o dedo em riste, as vênias a torturador? Onde a glória eterna? Onde O Messias, afinal?
Foi-se tudo com o vento (assim são os castelos de areia).
Daquele despótico e distópico idílio, restou ao monarca o pó: os filhos homens, a carregar seu sobrenome encardido; sua varoa de asas imensas; e a tímida fraquejada. Não fossem as mais de setecentas mil almas que deixaram este chão por suas mãos cruéis e negacionistas, o rei caído, desnudo, gozaria de noites insones terrivelmente solitárias.
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Sempre haverá os fantasmas, majestade!
Sempre haverá os fantasmas, capitão!



2 respostas
Que maravilha!
Gosto muito da forma como a autora escreve: uma escrita leve, que arrasa nas metáforas. É um texto que reforça a nossa indignação e impede o esquecimento da violência e da omissão traumática do negacionismo desumanizado durante a pandemia. Essa Inaê é arretada.
Mestre Lucas
Obrigada.