Vencedor dos prêmios de Melhor Filme e Melhor Ator (para Pedro Leão) na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio 2026, “Não Estamos Sonhando” (2026, de Ulisses Arthur) destaca-se pela efusividade com que apresenta os estados de espírito de seus personagens. Trabalho de estréia em longas-metragens de um profissional cinematográfico bastante experiente, em Alagoas, este filme evidencia um descompasso entre a adesão propriamente dita à sua trama ficcional e os recursos maneiristas na exposição daquilo que é prometido pelo título: em contraposição aos problemas inevitáveis da vida cotidiana (as dificuldades para assegurar a garantia aos direitos universitários para estudantes de origem periférica, por exemplo), a produção oferta-nos uma imersão imitativamente onírica, através das batidas progressivas da ‘dance music’ e seus ímpetos dançantes…
O protagonista do filme é Ciro (interpretado por Pedro Leão, justamente), um estudante de Medicina que vive com uma madrinha oportunista (Nívea Maria), que padece de hipertensão. Não sabemos especificamente o grau de parentesco entre eles, mas logo fica evidente que ela discorda de seus comportamentos, e limita a liberdade de seus anseios sociais (e sexuais). Ciro e seus colegas de universidade também sofrem com o atraso nas bolsas que permitem que eles continuem estudando: estão sem receber os pagamentos há três meses e dedicam o tempo livre ao aprendizado de técnicas de ‘pole dance’. Mas até mesmo isso passa a ser ameaçado pela má administração do campus universitário, pois eles não têm como pagar o aluguel da academia onde ocorrem as aulas.
Depois que é obrigado a sair do apartamento de sua madrinha, Ciro consegue se instalar no quarto de um vizinho, Antônio (Luciano Pedro Jr.), por quem logo apaixonar-se-á – tanto quanto nós, espectadores. Este, entretanto, mora com a sua prima Deyse (Tamylka Viana), que também desejará aprender os passos de ‘pole dance’. Nas entrelinhas destes encontros, a exortação à vivência grupal, sendo que Ciro e seus amigos são comumente filmados em comunhão, abraçados, ainda que eles eventualmente briguem entre si, sobretudo com o espevitado Veneno (Pedro Walissom), que acusa Ciro de ser excessivamente controlador em relação à turma. Mas trata-se de um filme sobre reconciliação e aceitação, não obstante eles precisarem confrontar diretamente o reitor da Universidade, no afã por exigir que ele libere os recursos para pagamento das bolsas em atraso, a fim de assegurar a lógica de inclusão e diversidade que são ofertadas enquanto jargões contemporâneos.
Que este filme seja lançado num ano eleitoral, em que a alegada polarização partidária atingiu um auge mui destacável, “Não Estamos Sonhando” demonstra-se assaz político, no modo como demonstra como válido e acessível um modelo de união entre pessoas negras, periféricas e acadêmicas, neste caso específico, vinculadas à área da Saúde (Fisioterapia, Odontologia, Enfermagem, etc). Um contra-exemplo procedimental está na apatia do ex-namorado de Ciro, Elton (Henrique Nagope), também estudante de Medicina, e emocionalmente chantagista. As situações do enredo são acompanhadas pela pulsante trilha musical de Carlos do Complexo, que utiliza a canção “So Dumb”, sucesso de Urias – entre outros artistas alternativos e/ou LGBTQIAPN+ – em cenas-chave, para integrar o espectador num transe progressivo, em enfrentamento aos preconceitos hodiernos. Um mérito mui elogiável do filme é a quantidade de cenas filmadas no interior de ônibus em movimento, o que possibilita uma seqüência antológica, em que Ciro e seus amigos, afligidos por causa de um congestionamento no trânsito, imagina que estão numa boate, em pleno veículo, e começam a executar seus momentos de dança em meio aos demais passageiros. Palmas para a direção fotográfica de Dani Correia. Trata-se de um filme pedagógico em sua adoção afetiva. Política dos afetos em estado bruto!
Com este texto, voltamos aos assuntos corriqueiros, à defesa de um Brasil possível e à valorização dos sentimentos de amizade. Responsável por uma ‘mise em scene’ acachapante, que parece nitidamente influenciada por Brian de Palma (vide a utilização pormenorizada dos efeitos de iluminação no quarto que Ciro compartilha no apartamento de Antônio), Ulisses Arthur confirma-se como um dos talentos emergentes mais empáticos do Brasil, associado a uma cena cultural profusa e reconhecia através das participações em festivais [o longa-metragem “Olhe para Mim” (2026, de Raffhael Barbosa) e o curta-metragem “Futuro Decadance” (2026, de Leviathan), ambos alagoanos, estrearam no Festival Olhar de Cinema e no Festival de Brasília, respectivamente], sendo este projeto financiado com recursos públicos, de maneira ainda pioneira em Maceió. Que seja um dentre vários: o Brasil precisa reencontrar esta festividade corpórea (e calorosa) que abunda no Nordeste de nosso país!
Wesley Pereira de Castro.
Fonte da imagem: https://imagens.festivaldorio.com.br/2026/site/peliculas/largest/noesta_f02cor_2026116826.jpg