A cineasta húngara Márta Mészáros, nascida em 1931 e ainda viva, lidou com a orfandade desde cedo: seu pai, um famoso escultor, foi assassinado pelo regime estalinista, quando ela tinha sete anos, e sua mãe faleceu no parto. Foi criada por uma mãe adotiva, na União Soviética, e isso repercutiu nos temas de seus filmes, o que acomete realizadores demarcados por obsessões pessoais, advindas de traumas ou memórias longevas, ressignificados cinematograficamente. Pensemos em como Roman Polanski aborda o confinamento em suas obras, como Steven Spielberg analisa as questões familiares, como Alfred Hitchcock repetia o tema do homem perseguido por engano e como seu seguidor Brian De Palma analisa os motes de vigilância. A lista seria interminável…
Após realizar alguns documentários em curta-metragem, Márta Mészáros estreou em longas-metragens com um filme chamado “A Garota” (1968), sobre uma moçoila que, após colocar um anúncio no jornal, resolve conhecer a sua mãe biológica, tendo crescido sob a tutela do Estado húngaro. Ao chegar na cidade rural onde vive esta mãe, a protagonista encontra uma realidade sumamente repressiva, de modo que, no cotejo com aquela situação, é como se ela estivesse melhor, experimentando um tipo de independência juvenil inusual para as mulheres, por mais que ela fosse obrigada a trabalhar a maior parte de seu dia. Na segunda metade do filme, a personagem volta para a metrópole comunista onde reside e lida com os problemas típicos de sua faixa etária.
Numa abordagem sobremaneira sensível e repleta de inserções orgânicas de discussões sobre o feminismo, experimentado na práxis, Márta Mészáros chamou positivamente a atenção de quem conseguiu ter acesso à sua obra, então subjugada pelas limitações de circulação advindas da Guerra Fria. Até que ela vence o Urso de Ouro em Berlim com “Adoção” (1975), quiçá o seu filme mais célebre, e é sobre ele que falaremos a partir de agora, visto que, mais uma vez, como o próprio título antecipa, uma abordagem centrada no abandono familiar é posta em primeiro plano. Neste caso, o encontro entre Kata (Katalin Berek) — uma funcionária de fábrica com mais de quarenta anos de idade, que deseja ter um filho — e Anna (Gyöngyvér Vigh) — interna de um instituto público que namora um rapaz da cidade, sem o consentimento de seus pais — estimulará uma reflexão sobre reconexões afetivas, num filme que evita a tendência hollywoodiana ao melodrama, ainda que a trama possua diversos elementos que poderia conduzir a isto…
No início do filme, Kata está num exame ginecológico, averiguando não apenas a sua saúde, como também as suas condições ainda ativas de procriação. Ela tem um caso de vários anos com um colega comprometido, Jóska (László Szabó), que não compartilha a sua empolgação fecundativa, visto que ele já tem alguns filhos com sua esposa, que quase não sai de casa, por causa do excesso de tarefas domésticas. Numa determinada tarde, algumas jovens adentram a residência de Kata, e Anna pergunta se ela pode emprestar-lhe um quarto, para que ela encontre-se romanticamente com o seu namorado. É o pretexto para que a realizadora aborde as motivações femininas através dos anseios de duas gerações distintas, que lidam com contextos familiares radicalmente opostos: solitária, Kata sonha em ser mãe; igualmente solitária, Anna é escorraçada por seus parentes, considerada “prostituta” por insistir em levar a cabo os seus desejos juvenis.
Não obstante a curta duração do filme (menos de uma hora e meia), “Adoção” é um filme lento e intencionalmente anclimático: numa tentativa de auxiliar Anna a ficar junto ao seu namorado, Kata visita a família dela, que consente com o casamento como se estivesse a despachar uma carga de lixo. A festa correspondente a este evento é mostrada como um evento permeado por tristezas e frustrações, ainda que pareça corresponder ao que Anna desejava para si. Ao lograr êxito em sua empreitada, é como se isto não desse conta de suas motivações individuais, de modo que os papéis comumente atribuídos às mulheres, numa configuração social binária e limitadora, não se vinculassem identitariamente às suas conformações individuais, o que repercute em todos os filmes realizados por Márta Mészáros. Em paralelo às volições matrimoniais, quase automáticas, de Anna, Kata insiste em averiguar as suas possibilidades de tornar-se mãe, mesmo que seja mediante adoção de alguma criança abandonada, com o perigo de estas serem marcadas por aflições do passado, como insinua Anna. Num filme como este, faz sentido um final feliz? E na realidade? Vale a pena conhecer as produções meszarianas, enfaticamente autorais!
Wesley Pereira de Castro.
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