“Territórios não são propriedades, mas cenários”: ou aquilo que aprendemos (e fazemos) nos colóquios sobre cinema e nas conversas sobre premiações…

Na noite de 09 de junho de 2026, na Universidade Federal de Sergipe, aconteceu a abertura da décima segunda edição do COCAAL – Colóquio de Cinema e Arte da América Latina. Junto a algumas professoras da universidade em pauta, a pesquisadora de origem boliviana Yanet Aguilera leu um texto de apresentação, em que, servindo-se da metáfora identitária de um melro que mostra-se e é percebido em seu ambiente, defendeu a necessidade de inventar “novos dispositivos de atenção”, em que as maneiras de aparição estariam relacionadas a modos de afeto. Estimulando a valorização de cinemas que enfrentem a dominação hollywoodiana, a pesquisadora perguntou-se, em compartilhamento com a audiência: “o que fazer com a nossa branquitude, já que não conseguimos nos desfazer dela?”. É uma questão procedimental recorrente!

Ao longo da semana em que ocorre o colóquio, diversos professores, alunos e profissionais – vinculados direta e indiretamente à Sétima Arte – apresentam trabalhos que são tematicamente vinculados à “crise da imaginação”, no afã por fomentar “outros mundos, outras imagens e outros futuros”, a partir de gestos simples porém efetivos como, por exemplo, substituir a expressão “país subdesenvolvido” por “país em desenvolvimento”, conforme destacou a crítica Kênia Freitas, em sua fala de abertura. Ao enfrentarmos a precarização das formas de vida, induzida pelo Capitalismo, podemos nos sentir aptos a representar um porvir ativo e discursivo, averiguando “o que está em jogo no presente”. Citando a escritora estadunidense Octavia Butler [1947-2006], mencionada no evento supracitado: “não há nada de novo sob o sol, mas há novos sóis”.

Este tipo de atividade, não obstante os seus atravessamentos burocráticos e/ou acadêmicos, destaca-se pelo estímulo aos encontros, às conversas, aos gestos de amor exalados e recebidos pelos indivíduos. No tipo de “regime de atenção e cuidado” sugerido por Yanet Aguilera, com base em exortativas referências bibliográficas, nossa presença nos ambientes implica não apenas estar perceptível, mas em visibilidade (re)construtiva. Conforme lemos num texto escrito pela comissão organizadora do evento, “o tema desta edição do COCAAL traz as possibilidades imaginativas da arte, do cinema e da cultura para a discussão da nossa presente realidade”. E é o que acompanhamos progressivamente na safra cinematográfica ibero-americana, tal qual se pode verificar nos títulos indicados a edições contemporâneas de cerimônias como a décima terceira edição dos Prêmios Platino, que ocorreu em 9 de maio de 2026, na região de Riviera Maya, no México, e a vigésima quinta edição do Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro, que acontecerá em 04 de agosto de 2026, mas cujas indicações já estão disponíveis…

Em ambos os certames, um filme lembrado por múltiplas indicações é “O Agente Secreto” (2025, de Kléber Mendonça Filho – comentado aqui): nos Prêmios Platino, por exemplo, ele recebeu sete troféus, dentre as oito categorias em que esteve nomeado, incluindo Melhor Filme Íbero-Americano, Melhor Direção e Melhor Ator, para Wagner Moura, além de uma láurea de público para este último. Outros títulos destacados foram: o longa-metragem espanhol “Os Domingos” (2025, de Alauda Ruiz de Azúa), grande vencedor da edição 2026 do prêmio Goya; a impactante produção “Sirât” (2025, de Oliver Laxe – comentada aqui); o argentino “Belén: Uma História de Injustiça” (2025, de Dolores Fonzi); e o drama venezuelano “Ainda É Noite em Caracas” (2025, de Mariana Rondón & Marité Ugás). Ainda que, neste parágrafo, estejamos enfatizando vitórias em seleções de cariz técnico, não se deve imaginar estas obras de arte em competição, mas integradas discursivamente ao delineamento de novas diretrizes de efetiva resistência latino-americana.

Quanto às indicações divulgadas para o Prêmio Grande Otelo, surgiram algumas polêmicas, por causa de omissões gritantes, como a falta de destaque para o longa-metragem premiado na edição 2025 do Festival de Cinema de Gramado [“Cinco Tipos de Medo” (2025, de Bruno Bini)], lembrado apenas nas categorias Melhor Montagem e Melhor Roteiro Adaptado, ou as ausências de Leandra Leal [por “Os Enforcados” (2024, de Fernando Coimbra)] e Shirley Cruz [por “A Melhor Mãe do Mundo” (2025, de Anna Muylaert)] na categoria de Melhor Atriz. Seja como for, a diversidade de propostas enredísticas e de abordagens directivas, contida nestes filmes, confirma uma revitalização em curso no cinema brasileiro, que, para prosseguir, depende da adesão do público e dos debates entusiasmados acerca das obras. Os eventos supracitados, cada qual a seu modo, ajudam a estimular o interesse na continuidade propositiva do que estes títulos têm a oferecer, quanto à ocupação de um terreno espectatorial assaz impregnado por clichês imperialistas e pela homogeneização comportamental que baliza o estímulo neoliberal ao consumismo. Que os novos dispositivos de atenção sejam aplicados, portanto!

Wesley Pereira de Castro.


Crédito da imagem: lavra própria, em cerimônia de abertura do XII COCAAL.

Descarregar artigo em PDF:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

LOGIN

REGISTAR

[wpuf_profile type="registration" id="5754"]