A ausência sentida, quando advinda de uma morte anunciada


Deparamo-nos, neste filme, com uma demonstração prática de questionar o próprio cotidiano do realizador, enquanto ele imerge na feitura de uma obra cinematográfica: onde começa a vida e onde termina o filme (ou vice-versa)? O próprio diretor responde, numa entrevista: “eu não consegui terminar o filme. Ele era maior que eu. Eu apenas o interrompi!”.
“Antes de seguir em frente, eu tenho que voltar atrás”: ou de quando a História é também íntima!


Famosa por realizar documentários em primeiríssima pessoa, Petra Costa tomou este mesmo procedimento como ponto de partida para sua mais recente obra. Entretanto, por algum motivo, ela abandona justamente o recurso narrativo que lhe é tão caro e faz com que esta obra soe datada pouco tempo após o rebuliço crítico que vem causando. Como é típico da Netflix, aliás.
Sobre a capacidade de “ser maravilhoso, de uma maneira repulsiva”: o jornalismo enquanto vocação influenciadora


Em muitos casos, a fronteira noticiosa entre público e privado é sobremaneira tênue. E, obviamente, o cinema hollywoodiano soube explorar muitíssimo bem tal peculiaridade atrativa do Jornalismo, de modo que urge a recomendação de um dos clássicos absolutos sobre esta profissão: “Jejum de Amor” (1940), dirigido pelo mestre cinematográfico Howard Hawks (1896-1977).
Protestar contra o que oprime: a balbúrdia mais que necessária!


Demonstrando que os protestos contra a pretensa implantação de uma torpe “etiqueta” universitária não são exclusividade da conjuntura (des)governamental hodiernamente em curso, convém trazer à tona a filmografia de uma das mais autorais vozes protestantes contra a repressão ditatorial na esfera dos costumes, a cineasta paulistana Ana Carolina, ainda em atividade.
Em política, tanto quanto na arte, convém olhar para o outro a fim de falar de si mesmo, e/ou vice-versa


Tomando-se como ponto de partida reflexivo estes dados contemporâneos, ainda em processamento factual, podemos aplicar a relação de alteridade e subjetividade contida no título deste artigo ao derradeiro exemplar da trilogia sobre a cidade de Alexandria levada a cabo pelo cineasta egípcio Youssef Chahine (1926-2008)… Não será uma mera associação casual, portanto.
Quando a independência requer também liberação intracolonial… Ou: basta de ser hospedeiro voluntário de quem oprime!


Mais de uma década passou-se entre o início das ações de guerrilha emancipatória e a efetivação institucional da mesma. Para piorar, depois da concretização da independência bissau-guineense, diversos conflitos internos dificultaram a validação da identidade nacional, sendo este um tema que perpassa toda a filmografia do cineasta Flora Gomes, pioneiro do cinema neste país.
“Se paramos de respirar, morremos; se paramos de resistir, o mundo morre!”


Apesar de ser vendido publicitariamente como um exemplar modelar do cinema romântico, “Casablanca” o é também na acepção mais idealizada do termo. Seu discurso é predominantemente político, ainda que atravessado pelos interesses vendáveis do ‘studio system’. Divertia e conscientizava em iguais medidas. E, revisto hoje, demonstra-se ainda bastante atual, inclusive em relação à caótica situação hodierna do Brasil…
A recuperação da harmonia (muito além do resultado de uma competição…)


Repleto de momentos antológicos em sua exposição enternecedora de uma inaudita situação de miserabilidade japonesa, “Assunto de Família” demonstra-se bastante merecedor do prêmio máximo do Festival de Cannes por mesclar inteligentemente a perspectiva de condução autoral, com o auxílio de seus apanágios técnicos, e o clamor por transformação comunitária que unifica os laureados mais recentes.
Da necessidade de rever… e sentir… e discordar… e saber!


Nos tempos atuais, de fórmulas genéricas e clamor pela velocidade autotélica, a “estética da fome” é paulatinamente substituída por sua variação cosmética. E tudo isso, obviamente, tem muitíssimo a ver com a conjuntura (des)governamental chula em que vivemos, na qual os grandes educadores brasileiros são perseguidos por filiações ideológicas tachadas de nocivas pela corja malévola que beneficia-se do fomento à ignorância maciça da população. Tristes tempos nós vivemos…
Quando o trabalho não dignifica…[um exemplo elíptico]


A fim de comentarmos a polêmica envolvendo a anunciada aprovação de uma reforma previdenciária que tende a tornar ainda mais calamitosa a situação dos trabalhadores brasileiros, servir-nos-emos de uma análise de um clássico filme japonês enquanto metáfora primeva do mal-estar hodiernamente generalizado. Trata-se de “A Mulher Inseto ou Tratado Entomológico do Japão” (1963), dirigido pelo mestre da ‘Nubaru vagu’ – nomeação particular para a ‘Nouvelle vague’ japonesa – Shohei Imamura (1926-2006).
Paradoxo metonímico da crítica cinematográfica contemporânea: pode-se ser contra o processo e a favor de seus produtos?


Enxergado como epítome de um vilanaz sistema que reinstaura o truste entre produção, exibição e distribuição, “Vingadores: Ultimato” foi comumente excluído dos textos críticos como tal. Motivo principal: temia-se terrivelmente a revelação de ‘spoilers’, informações tramáticas que supostamente estragariam o prazer de quem ainda não viu o filme. Decorrência imediata: pré-estréias com ingressos esgotados!
Festival Primavera do Cine de Vigo: o lugar da lusofonia


Mais uma vez, a cidade de Vigo, na Galiza, recebe o Festival Primavera do Cine, que chega este ano à sua VIII edição. O encontro, auto-definido como “evento internacional de cine galego e das áreas lusófonas”, teve início dia 23 de abril com a retrospetiva de cinema cubano. O ciclo continuará até o dia 5 […]
Das possíveis concatenações entre política e religião


Divergências ideológicas à parte, não é um despautério afirmar que o papa atual demonstra-se bem mais progressista que os seus antecessores, conforme percebemos no documentário “Papa Francisco: Um Homem de Palavra” (2018), dirigido pelo consagrado cineasta alemão Wim Wenders.
“Quando estivermos prontos, acontecerá algo; quando acontecer algo, estaremos prontos!”


A fórmula contida no título foi extraída do filme de guerrilha intelectual “Partner” (1968), terceiro longa-metragem do genial cineasta Bernardo Bertolucci (1941-2018). Na cena em pauta, um professor de teatro desafia a sua turma a criar ação a partir de situações banais do cotidiano: “o teatro é uma das vias para se chegar à realidade”, gritava ele. O desafio é para nós, espectadores!
A simplicidade orquestrada da beleza cotidiana: um triunfo do cinema mineiro


Voltando ao discurso emocionado de seu diretor – que é negro – um dos méritos mais altissonantes deste filme tem a ver justamente com o protagonismo racial defendido pelo realizador, naturalizado em sua grandiosidade corriqueira, em suas epifanias triviais. Grace Passô firma-se como uma das atrizes mais valiosas do cinema brasileiro contemporâneo.
A propósito de um ou mais curtas-metragens: um ‘corpus’ filmográfico que desnuda o Brasil atual!


Aloysio Raulino (1947-2013) é um dos mais conceituados diretores de fotografia do cinema brasileiro e possui uma fundamentada carreira no cinema documental de curta-metragem, em relação à qual convém traçarmos alguns dolorosos paralelos com a situação atual do Brasil…
Imortais homenageiam-se em vida: Agnès Varda (1928-2019) e o legado de uma diva feminista


Mesmo para quem não viu uma ou outra obra, sabemos o que está contido nos interstícios: o testemunho de alguém que celebrou a vida com intensidade e extremo afeto. Falecida aos 90 anos de idade – completaria 91 no dia 30 de maio – Agnès Varda destacou-se por uma carreira ensaística e com alto teor feminista.
Deontologia da crítica anti-recomendativa: a perfídia em forma de mau documentário!


A despeito de quaisquer juízos de valor sobre o delicado tema do abuso sexual de menores – e, infelizmente, tudo leva a crer que o cantor realmente tenha cometido vários dos crimes dos quais foi acusado – este filme opta pelos mais nojosos estratagemas de condução espectatorial. Técnica e eticamente, “Deixando Neverland” soçobra em seu tom revanchista e em sua pusilânime unilateralidade expositiva de fatos anteriormente negados em julgamentos públicos.
Adoecimento físico e psicológico no telemarketing: esgotamento induzido do precariado


Por conta disso, o setor de telemarketing é o grande bode expiatório do precariado, sobretudo em sua vertente toyotista – ou seja, embasada na fragmentação de classe, a partir de uma lógica pretensamente participativa que desespecializa os funcionários, visto que estes realizam funções genéricas, em que o fruto de seu trabalho não engendra produtos, mas o serviço em si, que não pode ser mensurado.
Quando ver um filme torna-se uma necessidade sociológica ou a falibilidade proposital das convenções de gênero como evento (auto)crítico


Ao final da sessão, não faltarão hordas de espectadores e/ou críticos que apressar-se-ão em “explicar” os significados ocultos do versículo bíblico reiteradamente apresentado ao longo da projeção, o décimo primeiro versículo do capítulo 11 do livro de Jeremias, que prediz: “portanto, assim diz o Senhor: eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei”. O que este vitupério acrescenta à nossa leitura alardeada de um dos filmes mais fascinantes deste ano recém-iniciado?
