A ausência sentida, quando advinda de uma morte anunciada

Deparamo-nos, neste filme, com uma demonstração prática de questionar o próprio cotidiano do realizador, enquanto ele imerge na feitura de uma obra cinematográfica: onde começa a vida e onde termina o filme (ou vice-versa)? O próprio diretor responde, numa entrevista: “eu não consegui terminar o filme. Ele era maior que eu. Eu apenas o interrompi!”.

Protestar contra o que oprime: a balbúrdia mais que necessária!

Demonstrando que os protestos contra a pretensa implantação de uma torpe “etiqueta” universitária não são exclusividade da conjuntura (des)governamental hodiernamente em curso, convém trazer à tona a filmografia de uma das mais autorais vozes protestantes contra a repressão ditatorial na esfera dos costumes, a cineasta paulistana Ana Carolina, ainda em atividade.

Quando a independência requer também liberação intracolonial… Ou: basta de ser hospedeiro voluntário de quem oprime!

Mais de uma década passou-se entre o início das ações de guerrilha emancipatória e a efetivação institucional da mesma. Para piorar, depois da concretização da independência bissau-guineense, diversos conflitos internos dificultaram a validação da identidade nacional, sendo este um tema que perpassa toda a filmografia do cineasta Flora Gomes, pioneiro do cinema neste país.

“Se paramos de respirar, morremos; se paramos de resistir, o mundo morre!”

Apesar de ser vendido publicitariamente como um exemplar modelar do cinema romântico, “Casablanca” o é também na acepção mais idealizada do termo. Seu discurso é predominantemente político, ainda que atravessado pelos interesses vendáveis do ‘studio system’. Divertia e conscientizava em iguais medidas. E, revisto hoje, demonstra-se ainda bastante atual, inclusive em relação à caótica situação hodierna do Brasil…

A recuperação da harmonia (muito além do resultado de uma competição…)

Repleto de momentos antológicos em sua exposição enternecedora de uma inaudita situação de miserabilidade japonesa, “Assunto de Família” demonstra-se bastante merecedor do prêmio máximo do Festival de Cannes por mesclar inteligentemente a perspectiva de condução autoral, com o auxílio de seus apanágios técnicos, e o clamor por transformação comunitária que unifica os laureados mais recentes.

Da necessidade de rever… e sentir… e discordar… e saber!

Nos tempos atuais, de fórmulas genéricas e clamor pela velocidade autotélica, a “estética da fome” é paulatinamente substituída por sua variação cosmética. E tudo isso, obviamente, tem muitíssimo a ver com a conjuntura (des)governamental chula em que vivemos, na qual os grandes educadores brasileiros são perseguidos por filiações ideológicas tachadas de nocivas pela corja malévola que beneficia-se do fomento à ignorância maciça da população. Tristes tempos nós vivemos…

Quando o trabalho não dignifica…[um exemplo elíptico]

A fim de comentarmos a polêmica envolvendo a anunciada aprovação de uma reforma previdenciária que tende a tornar ainda mais calamitosa a situação dos trabalhadores brasileiros, servir-nos-emos de uma análise de um clássico filme japonês enquanto metáfora primeva do mal-estar hodiernamente generalizado. Trata-se de “A Mulher Inseto ou Tratado Entomológico do Japão” (1963), dirigido pelo mestre da ‘Nubaru vagu’ – nomeação particular para a ‘Nouvelle vague’ japonesa – Shohei Imamura (1926-2006).

Paradoxo metonímico da crítica cinematográfica contemporânea: pode-se ser contra o processo e a favor de seus produtos?

Enxergado como epítome de um vilanaz sistema que reinstaura o truste entre produção, exibição e distribuição, “Vingadores: Ultimato” foi comumente excluído dos textos críticos como tal. Motivo principal: temia-se terrivelmente a revelação de ‘spoilers’, informações tramáticas que supostamente estragariam o prazer de quem ainda não viu o filme. Decorrência imediata: pré-estréias com ingressos esgotados!

Festival Primavera do Cine de Vigo: o lugar da lusofonia

Mais uma vez, a cidade de Vigo, na Galiza, recebe o Festival Primavera do Cine, que chega este ano à sua VIII edição. O encontro, auto-definido como “evento internacional de cine galego e das áreas lusófonas”, teve início dia 23 de abril com a retrospetiva de cinema cubano. O ciclo continuará até o dia 5 […]

Das possíveis concatenações entre política e religião

Divergências ideológicas à parte, não é um despautério afirmar que o papa atual demonstra-se bem mais progressista que os seus antecessores, conforme percebemos no documentário “Papa Francisco: Um Homem de Palavra” (2018), dirigido pelo consagrado cineasta alemão Wim Wenders.

“Quando estivermos prontos, acontecerá algo; quando acontecer algo, estaremos prontos!”

A fórmula contida no título foi extraída do filme de guerrilha intelectual “Partner” (1968), terceiro longa-metragem do genial cineasta Bernardo Bertolucci (1941-2018). Na cena em pauta, um professor de teatro desafia a sua turma a criar ação a partir de situações banais do cotidiano: “o teatro é uma das vias para se chegar à realidade”, gritava ele. O desafio é para nós, espectadores!

A simplicidade orquestrada da beleza cotidiana: um triunfo do cinema mineiro

Voltando ao discurso emocionado de seu diretor – que é negro – um dos méritos mais altissonantes deste filme tem a ver justamente com o protagonismo racial defendido pelo realizador, naturalizado em sua grandiosidade corriqueira, em suas epifanias triviais. Grace Passô firma-se como uma das atrizes mais valiosas do cinema brasileiro contemporâneo.

Deontologia da crítica anti-recomendativa: a perfídia em forma de mau documentário!

A despeito de quaisquer juízos de valor sobre o delicado tema do abuso sexual de menores – e, infelizmente, tudo leva a crer que o cantor realmente tenha cometido vários dos crimes dos quais foi acusado – este filme opta pelos mais nojosos estratagemas de condução espectatorial. Técnica e eticamente, “Deixando Neverland” soçobra em seu tom revanchista e em sua pusilânime unilateralidade expositiva de fatos anteriormente negados em julgamentos públicos.

Adoecimento físico e psicológico no telemarketing: esgotamento induzido do precariado

Por conta disso, o setor de telemarketing é o grande bode expiatório do precariado, sobretudo em sua vertente toyotista – ou seja, embasada na fragmentação de classe, a partir de uma lógica pretensamente participativa que desespecializa os funcionários, visto que estes realizam funções genéricas, em que o fruto de seu trabalho não engendra produtos, mas o serviço em si, que não pode ser mensurado.

Quando ver um filme torna-se uma necessidade sociológica ou a falibilidade proposital das convenções de gênero como evento (auto)crítico

Ao final da sessão, não faltarão hordas de espectadores e/ou críticos que apressar-se-ão em “explicar” os significados ocultos do versículo bíblico reiteradamente apresentado ao longo da projeção, o décimo primeiro versículo do capítulo 11 do livro de Jeremias, que prediz: “portanto, assim diz o Senhor: eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei”. O que este vitupério acrescenta à nossa leitura alardeada de um dos filmes mais fascinantes deste ano recém-iniciado?