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Recomendação musical de um aniversariante perpetuamente apaixonado pela violência dos paradoxos da vida: “o telefone nunca mais tocou/ Cadê você?”

Recomendação musical de um aniversariante perpetuamente apaixonado pela violência dos paradoxos da vida: “o telefone nunca mais tocou/ Cadê você?”

O articulista que redige estas linhas acaba de completar mais um ano de vida. Para muitos – e quiçá para ele próprio –, foi um dia como qualquer outro: uma quarta-feira, considerada “dia útil”, em que precisou trabalhar, como faz todos os dias, resolver problemas pessoais e alheios, comer, locomover-se, defecar… Tudo igualzinho. Porém, era o dia conjugado ao seu nascimento, fenômeno único, o que instaura em si uma sensação anímica correspondente a um orgasmo de vinte e quatro horas – com possíveis extensões, a depender de quem fala consigo. Peço desculpas pelo apêndice extra-subjetivo nesta coluna, mas… Desejo parabéns a mim mesmo!

Da mesma maneira que, na noite de réveillon, há quem trace diretrizes para o ano vindouro, este articulista atrela a sua data natalícia ao instante em que, traçando uma retrospectiva de eventos (ganhos e derrotas) do ano anterior, estabelece as metas procedimentais para a nova idade. E, como vem sendo tematizado recorrentemente nesta coluna, sua luta pessoal é contra as imposições do agendamento midiático, que nos deixam em constante ansiedade e expectativa quanto a filmes que estrearão daqui a vários meses, premiações cujos repertórios de indicados são anunciados aos poucos, conseqüências preocupantes das ações equivocadas de governantes, etc. 2026 é um ano eleitoral, no Brasil, inclusive. Mas convém respeitarmos o conselho elementar do “um dia de cada vez”…

Depois de assistir a um clássico hollywoodiano [“A Fonte dos Desejos” (1954, de Jean Negulesco)] que serviu como metonímia para a mudança de ciclo em questão, no que tange à percepção de que dificuldades românticas são enfrentadas com diálogo e apoio mútuo, o articulista refletiu acerca do que escrever em sua coluna semanal. E lembrou de um álbum brasileiro que mexeu bastante com seus sentimentos, de modo que faz questão de recomendá-lo publicamente. Trata-se de “Viver e Morrer de Amor na América Latina”, do pernambucano Johnny Hooker, lançado em 5 de dezembro de 2025.

Ainda que não tenha sido incluído em muitas listas de “Melhores Discos do Ano”, este álbum merecia melhor reconhecimento, no sentido de que dá continuidade ao estilo autoral de enfrentamento, por parte do cantor e compositor, aos paradoxos do “amor marginal” – conforme intitula uma faixa de seu álbum de estréia, o poderoso “Eu Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito!” (2015). Ostensiva e militantemente homossexual, Johnny Hooker evita a sedução confortante da heteronormatividade, expondo brigas, discussões e contradições relacionais, atreladas a condições de classe e desvios morais, que não são julgadas nas letras das canções, exceto pelas feridas que deixam nos corações de quem ama…

Em apenas dez faixas, “Viver e Morrer na América Latina” escancara as marcas registradas do cantor logo na faixa inicial, “Querem me Ver Humilhada” (01), que são: a voz rasgadamente andrógina, o tom de bravata e os motes de resiliência misturados aos relatos de sofrimento afetivo. Diz a letra: “você quer me diminuir, você que quer me massacrar/ Mas eu também mereço amor, também mereço amar/ Na vida o tempo é quem diz, quem vi que vai continuar/ Mas eu também mereço amor, mereço ser feliz”. Para quem já conhece o artista, os flertes carnavalescos ocupam espaço marcante nas letras (conforme se intui nas entrelinhas da segunda faixa, “Nunca vai Passar”), atingindo um ápice na canção “Saudades, Élder” (03), que diz respeito a uma carta de despedida, assinado por alguém que se autointitula “piranha”: “fui mais uma história de amor, já sei por quê/ Vivendo na madrugada uma dose de emoção barata, fugindo da solidão/ Com teu cheiro no pensamento, são mentiras soltas ao vento procurando embarcação”. O recado é transmitido sem rodeios, provocando uma identificação imediata com os arroubos passionais do eu-lírico, ressignificados na faixa titular (06), em colaboração cancional com o intérprete Ney Matogrosso: “a cigana me falou: ‘Cuidado que o amor vai te foder um dia’/ Que vai alimentar vulcões, vai abalar paixões, cobrar sua alforria/ Quando seu rosto revelar, vai nos assombrar, como um Prometeu/ E no teu corpo achar a vida, em morte renascida, assim dizer adeus”. Tudo desemboca na faixa derradeira (10), batizada justamente “A Vida é um Carnaval”. Eis a nossa recomendação de nova idade, portanto: que venham os encontros de 2026!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem disponível em: https://jornalacena.com.br/wp-content/uploads/2025/12/img_0856-1000×600.jpg

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