“Que tal apoiarmos os professores da educação básica?” Esta pergunta parece um pouco sem sentido. Mas o que há atualmente no Brasil é um grande movimento contra os professores da educação básica, um movimento organizado para descredibilizar totalmente o trabalho dos professores. A gente precisa tomar cuidado para não alimentar e não endossar este movimento.
A ação de apoiar os professores no Brasil não é algo simples e corriqueiro. Geralmente os professores no Brasil são tomados como um problema e um empecilho que impede a melhora da nossa educação básica. Nós podemos encontrar, nos principais veículos de comunicação do país, diversos artigos de opinião afirmando categoricamente que os professores brasileiros são ruins, são mal-formados, são retrógrados, são doutrinadores, e utilizam métodos de ensino ultrapassados e ineficazes.
É mais fácil simplesmente culpar uma categoria profissional que encontra-se desprestigiada, do que propor um debate sobre a educação básica no Brasil com a devida profundidade. O círculo vicioso vai sendo alimentado também por alguns supostos especialistas em educação que, por sua vez, só estão interessados em vender alguma palestra motivacional, alguma “solução mágica” ou algum “pacote de inovação metodológica”. A sociedade brasileira não vê algum resultado imediato através da educação básica e acaba nutrindo desprezo e aversão pelos professores, e os tais especialistas em educação também alimentam o círculo vicioso quando dizem insistentemente que os professores são mal-formados e utilizam métodos de ensino ultrapassados e ineficazes.
O resultado desse movimento contra os professores da educação básica é que a própria atuação dos professores passou a ser despida de qualquer autoridade, passou a ser amplamente questionada e considerada equivocada. Neste sentido, abre-se um caminho para os professores da educação básica serem desrespeitados pelos estudantes, pelas comunidades escolares, pelos gestores, pelos pais, pelas comunidades religiosas, pelos movimentos conservadores e até mesmo pelas autoridades públicas.
Eu lembro das minhas primeiras experiências em sala de aula. Os estudantes em algum momento reclamavam das aulas de outros professores, e eu adotei a postura neutra de simplesmente não comentar sobre outros professores com os meus estudantes. Normalmente os estudantes reclamam daqueles professores mais exigentes, que propõem diferentes atividades e o desenvolvimento de projetos. Houve uma ocasião em que os estudantes reclamaram de mim para outro professor, e o meu colega me defendeu, disse que aquilo que eu estava pedindo era importante, disse que eu estava pensando no aprendizado e no desenvolvimento dos estudantes. A atitude do meu colega foi muito importante para a minha atuação naquele momento e também para eu refletir sobre a necessidade de apoiar e defender os outros professores.
É desejável que a equipe pedagógica esteja trabalhando de forma conjunta e se apoiando mutuamente. Neste sentido, quando os estudantes reclamam de algum professor, os outros professores podem impedir que as reclamações continuem, podem defender o colega, e falar para os estudantes que aquele professor provavelmente está sendo exigente porque deseja o bem e tem boas expectativas em relação aos estudantes.
Atualmente eu acho que é necessário defender até mesmo os professores que eu considero ruins. Pensando no cenário brasileiro em que os professores da educação básica estão completamente desprestigiados, não convém alimentar nenhum tipo de narrativa que culpabiliza os professores pela falta de qualidade da educação básica.
Não é fácil levar a sério a pergunta inicial: “Que tal apoiarmos os professores da educação básica?” Outras questões também precisam ser colocadas e levadas em consideração. Que tal considerarmos que os professores estão trabalhando sério? Que tal levarmos a sério as razões, as motivações e as queixas dos professores? Que tal lutarmos por melhores condições de trabalho e melhores salários para os professores? Que tal exigir que as autoridades públicas respeitem os professores? Estas questões sempre devem ser colocadas antes de qualquer crítica aos professores.
* Cŕeditos da imagem: imagem de domínio público, “Hong Kong Professional Teachers Union Hunger strikes, Hong Kong protests against Moral and National Education Visitors”.
Referências:
Fiorotti, S. “O grande movimento contra os professores no Brasil.” A Pátria, Funchal, 22 out. 2020.
Fiorotti, S. “Os policiais evangélicos, as crianças e os orixás nas escolas.” A Pátria, Funchal, 23 jan. 2026.