Há um filme Português que começa com uma imagem de uma árvore, um lento e constante movimento em torno de uma grande árvore, que parece pouco distante, talvez apenas alguns metros, e que nisto gasta mais de dois minutos do nosso tempo numa contemplação profunda e inquietante pela paciência necessária: quem tem dois minutos no frenesim da nossa sociedade para parar e apreciar uma simples árvore!? Grande, imponente, mas ainda assim uma árvore…
Nem o filme é do nosso tempo (pois 1990 já nem faz parte do nosso milénio…), nem o realizador é dado às correntes de grande consumo, e como as árvores morreu velho, e morreu de pé, activo até à senescência da qual nem as árvores escapam, árvores essas que provavelmente são os seres vivos de maior longevidade, chegando aos milhares de anos de vida. As árvores têm um tempo diferente do nosso, têm mais história, e também de história trata este filme, História de Portugal, de um país pequeno que chegou longe e se agigantou, e se imortalizou, e que foi um dos grandes responsáveis pela globalização a que hoje assistimos, onde vivemos, e que nos absorve. “Non ou a Vã Glória de Mandar”, Manoel de Oliveira, 1990, cor.
As árvores já estavam cá quando começou a história da humanidade, embora possam acabar imediatamente antes da humanidade – sim, porque quando for cortada a última árvore, nomeadamente se for cortada por nós humanos, será uma machadada genocida suicida, será o nosso fim anunciado para alguns meses depois. Talvez sobrem algumas sementes, e com o adubo dos nossos corpos em decomposição brotarão da terra para reclamar a vida que lhes retirámos. Por mais tétrico e mórbido que pareça este cenário, é um cenário verosímil. Ao ritmo da desflorestação actual, sobram-nos algumas décadas de humanidade se não mudarmos algo a tempo de mudarmos a nossa própria história no sentido da sobrevivência.
Há dias tropecei em mais um artigo lido, re-lido, mastigado, digerido e já vomitado de tantas voltas que deu no processo, desses que pululam nas redes sociais como cogumelos em cascas de árvores mortas, artigo esse sobre a proibição da desflorestação na Noruega. Fantástico! Não será por acaso que os países nórdicos estão bem à frente no índice de desenvolvimento humano, não é verdade? É claro que nem tudo o que parece é, e isto significa que na Noruega não se cortam árvores desde então? Pois, não é bem assim, obviamente que se cortam árvores, pois há várias razões para o fazer, algumas bastante válidas, bastante mais válidas do que as desflorestações em massa com fins puramente económicos (com o fim ecológico de destruição massiva?!). Para quê cortar árvores?
Bem, se me perguntarem se se devia desflorestar as culturas de espécies invasoras, como os eucaliptos e as acácias, por exemplo, digo já que sim (mas mesmo que não se cortem tais árvores, basta esperar mais umas campanhas de incêndios florestais e a coisa resolve-se por si em 2 ou 3 décadas…). Se são assim tão más de um ponto de vista ambiental? São, sim. Se os custos a longo prazo justificam o custo a curto prazo de perder os investimentos já feitos nestas espécies? Na minha opinião sim.
Quando o país tiver um deserto ali para os lados do Alentejo, algo que aposto que infelizmente irei ver em vida, talvez as minhas palavras façam mais sentido. E se tal acontecer, nem espécies nativas, como os carvalhos, nem espécies exóticas, como as referidas, crescerão na areia… Poderemos disseminar figueiras-do-diabo (Opuntia ficus-indica, para os entendidos e os curiosos), e então com o calor dos diabos que fará restar-nos-ão os figos, que são bem doces (mas cuidado com os espinhos!).
Há razões para cortar árvores: árvores mortas e que acabarão por cair devem ser cortadas por precaução, árvores doentes e que vão morrer, árvores infectadas e que vão infectar outras – corta-se o mal pela raíz… – isto é razoável. Razões menos razoáveis incluirão as “porque fazem muito lixo”, “porque estão muito grandes”, “porque fazem muita sombra”, “porque me tiram as vistas”, e a não menos importante “porque sim”. E as podas? Sim, são necessárias, para as árvores crescerem numa direcção mais favorável, para não incomodarem ao ponto de as quererem abater, para não adoecerem, para não vergarem sob o peso dos seus ramos… Uma poda é um corte selectivo, embora já toda a gente tenha assistido a podas quase criminosas, cujo objectivo parece ser destruir (e não estruturar), com árvores consecutivas totalmente depenadas. Triste.
Os países nórdicos, segundo sei, ou segundo vou sabendo, têm uma cultura de maior respeito pela Natureza, naturalmente incluindo as árvores. É claro que não se deixou de cortar árvores na Noruega, mas planta-se uma nova por cada que é cortada. Pode não ser o melhor dos remédios (plantar uma jovem e pequena no lugar da adulta e majestosa não é a substituição ideal) mas é um passo, e acima de tudo é uma atitude. Não menos importante, foram banidos da Noruega os produtos que promovem a desflorestação. E além disto, estes descendentes dos Vikings financiam mesmo a não desflorestação das florestas nas zonas equatoriais e no Hemisfério Sul, notavelmente incluindo o nosso companheiro maior da Lusofonia, o Brasil. Aqui surge um grande desafio: e sucedâneos para as árvores e seus produtos? O mundo continua a precisar de mobiliário, comida e combustível, por exemplo. Mudam-se os tempos, mudam-se os desafios: há ainda muito a fazer.
A desflorestação parece desenfreada em certas parte do planeta que, por coincidência (ou não), são extremamente pobres em termos socioeconómicos mas altamente ricas em biodiversidade. É o capital, é o desenvolvimento, é a evolução… Ainda que uma árvore demore anos a atingir a idade adulta, não deve ser colocada a tónica na reflorestação? A desflorestação é um problema e a reflorestação uma solução: não é importante encontrar soluções para os problemas do Mundo?! E uma vez mais o digo, talvez seja tudo uma questão de educação ambiental.
Posto isto, e dado o exemplo Norueguês, a questão é óbvia: devia haver mais “Noruegas”? Definitivamente, e o planeta agradece. E de seguida, outra questão: haverá mais “Noruegas”? Penso que sim. É expectável um efeito de contágio aos países nórdicos vizinhos, e quiçá se siga o Japão, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, e posteriormente mais alguns países Europeus. E pegando nos dois minutos de árvore iniciais, consigo imaginar um Norueguês a investir dois minutos do seu tempo a observar uma árvore, a contemplar a Natureza, a absorver a vida que nos rodeia e da qual também fazemos parte. Conseguiremos fazer o mesmo? Temos de respeitar as árvores, respeitar o ambiente, e nisto respeitar-nos a nós próprios.
Nota: o autor opta por não seguir o Acordo Ortográfico de 1990.



