Para encerrar esta breve incursão pelo tema da vacinação (haveria muito a aprofundar…), após uma contextualização histórica e uma tentativa de perceber por que surgiu, e persiste, a opção pela não vacinação, chegou o momento de discutir o “outro lado”: por que não vacinar mais? Focando, de novo, o paradigma de Portugal, em que houve recentemente alterações ao Plano Nacional de Vacinação (com alguma polémica “saudável” à mistura), a inclusão de três novas vacinas poderia parecer, imediatamente, uma excelente notícia, mas a notícia não foi recebida com a expectável (?!) aceitação geral. Deveríamos vacinar-nos (espécie humana, sentido lato, povo de Portugal, sentido restrito) contra todas as doenças para as quais já há uma vacina? Deveríamos investir mais na investigação de vacinas para aquelas doenças em que ainda não há uma, particularmente para doenças actualmente incuráveis? A resposta pode não ser clara…
Quais são, ou foram, as principais críticas às alterações ao Plano Nacional de Vacinação? A “primeira” e mais “badalada” foi a que, quiçá, menos interessa no contexto deste artigo: a introdução das três vacinas foi aprovada sem o parecer da Direcção-Geral da Saúde (DGS). A exclusão da DGS também mereceu a censura do Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães… E discutir o que interessa, que é se esta inclusão de novas vacinas é benéfica para a saúde dos Portugueses?! Esta discussão também surgiu, de facto, e como grandes argumentos para a avaliação da qualidade de decisão surgiram, sempre lestos, os factores económicos. É este o Mundo em que vivemos: quando é para gastar dinheiro no imediato, e os benefícios a médio e longo prazo são de difícil definição, mesmo que sejam benefícios gerais para a saúde da população, há sempre imensas reservas – e de novo estamos a discutir dinheiro, e não saúde…
Ainda que acreditemos que estes custos, de introdução de novas vacinas, sejam incomportáveis para o estado (que somos todos nós e em que todos, estou certo, queremos gozar de uma boa saúde), podemos questionar: então e os custos humanos? Quanto vale uma vida? Quanto custa curar, ou tratar, uma doença? Quanto custa, num país com uma natalidade baixa e com uma população envelhecida, perder uma criança para uma doença evitável com uma simples vacina? Ou perder um jovem no qual já se investiu tanto (saúde, segurança, educação), quanto custa? Ou um adulto em idade activa? Parece claro que, de um modo geral, as vacinas são um investimento bastante rentável e barato dada a protecção que confere. Recordo que a vacinação conseguiu erradicar doenças que, outrora, matavam milhares de pessoas anualmente. As vacinas – também – mudaram o Mundo!
Há, nesta discussão de mais ou menos vacinas, vários actores a entrar em cena, e cada máscara com a sua visão. A maior indústria do Mundo, a indústria farmacêutica, obviamente que tem um grande interesse em que se invista em todas as vacinas existentes, e na investigação de vacinas futuras, pois isso significa lucros. O actor estado tem de racionar os seus recursos, e deve ponderar até que ponto certas vacinas terão um interesse real para os cidadãos. E os actores médicos, não deveriam ser os principais decisores sobre estas matérias? Uma vez que os actores deputados, que levam estas matérias a votação, muitas vezes apenas terão formação em oratória, ou assim parece, o que nem sempre será o ideal no momento de decidir sobre a nossa saúde – e no que concerne o tema da tecnocracia também haveria muito mais a discutir… E o actor contribuinte? Afinal, é o que vai pagar isto tudo! Os cerca de 600 EUR por criança que as três novas vacinas introduzidas custariam aos seus pais são ou não uma boa ajuda ao rendimento familiar? É, somente, um salário mínimo! E talvez toda a sociedade poupe bastante com umas quantas pessoas que já não terão de ir para as urgências, que já não terão de adquirir medicamentos comparticipados, e que já não precisarão de análises clínicas porque nem ficaram doentes!
Como em tudo, é preciso um equilíbrio, e um investimento descuidado em vacinação pode ser contraproducente: comprar vacinas cuja utilidade no nosso país, no nosso clima, é insignificante; a veleidade de erradicar doenças que estão já controladas; adquirir vacinas que chegam demasiado tarde, e cujo interesse ficou assim perdido. Poderão más decisões como estas afectar negativamente a já algo fragilizada imagem da vacinação? Com certeza! E pender o investimento apenas para a prevenção é igualmente perigoso, numa época de consciencialização crescente para a importância dos cuidados paliativos, por exemplo, ou quando se discute mais seriamente, e felizmente, a figura do cuidador informal, temas importantíssimos para a nossa saúde e que requerem também uma fatia “visível” do orçamento disponível.
As vacinas não são gratuitas, obviamente, e alguém terá de as pagar: já sabemos que é o contribuinte. E o contribuinte pode, e deve, perguntar: a vacinação é um luxo ou um direito? É uma ideia bonita mas demasiado cara ou uma medida básica de saúde pública? É um gasto ou um investimento? Sejamos directos: há dinheiro para financiar bancos falidos mas não há dinheiro para vacinar mais e melhor a nossa população?! E uma vez mais: que país queremos?
Levanto aqui várias questões, em mais um convite à reflexão e à discussão. Para encerrar como comecei, faça-se justiça às vacas: ajudaram a desenvolver a vacinação e continuam a ter um papel fundamental na nossa sociedade: quem ainda não bebeu leite de vaca hoje? E aos nossos bebés, quando falha o leite materno (que tem “vacinas naturais”), resta o leite de substituição: qual é o ingrediente base do mesmo? Imaginem. A foto desta semana mostra as icónicas vacas dos Açores. Alimentação, saúde, turismo, …, as vacas andam por aí! Vacinemos as nossas crianças, a nós mesmos, e sejamos felizes como estas vacas! E para a semana, voltaremos aos temas ambientais.
Nota: o autor opta por não seguir o Acordo Ortográfico de 1990.



