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Perder-nos-emos nesse tempo? (ou daquilo que um filme nos faz sentir e pensar…)

Perder-nos-emos nesse tempo? (ou daquilo que um filme nos faz sentir e pensar…)

No capítulo inicial do livro “Onde Estão as Flores?”, o escritor búlgaro Ilko Minev, radicado no Brasil, escreve “não raro, fico frustrado pelos jovens saberem tão pouco do passado. Parece que não lembram dos fatos históricos de apenas alguns anos atrás”. Publicado em 2021, este livro traz à tona um tipo de resistência à indução ao esquecimento que financia parte considerável das produções audiovisuais contemporâneas, que reciclam eventos, motes e fórmulas narrativas de épocas anteriores, a partir de uma deglutição imitativa que, nalguns casos, esforça-se para anular a referência, que se imiscui enquanto ‘déjà vu’, no subconsciente dos espectadores. Vide a obsessão hodierna pela “crítica de ‘trailers’”, por exemplo. Basta o anúncio de lançamento de mais alguma franquia televisiva, cinematográfica ou literária para os consumidores entrarem em polvorosa. Quando, lá atrás, ainda há tanto por conhecer…

Em muitos casos, obras lançadas há pouquíssimo tempo têm desempenhos exíguos, aquém do merecimento, por estarem sub-disponibilizadas. O ótimo filme “A Noite Amarela” (2019, de Ramon Porto Mota) é um destes casos: produzido antes da pandemia de COVID-19, que dividiu o primeiro quartel do Século XXI em períodos radicalmente distintos, este filme exibe de maneira involuntariamente nostálgica como os jovens se divertiam em Campina Grande, cidade paraibana. A fim de celebrarem o fim do Ensino Médio, um grupo de sete adolescentes, com sexualidades múltiplas, resolve passar alguns dias na casa do avô de uma delas, Mônica (Ana Rita Gurgel), quando coisas estranhas começam a acontecer…

Assim que desembarca no cais da região insular onde mora o seu avô, Mônica constata que ninguém veio receber a ela e aos seus amigos. Graças ao auxílio de um misterioso vendedor (interpretado pelo encorajador terrífico Cristian Verardi), o hepteto de amigos consegue chegar à residência que eles desejavam, num carro de bois. “E se o nosso destino for igual ao destes animais?”, questiona um dos rapazes. Não é justamente isso que o Capitalismo aplica em nossas vidas, diariamente?

Dentre os amigos, uma jovem belíssima logo assume a função de protagonista, Karina (Rana Sui), que é a primeira a desaparecer. Antes, é rememorada uma situação marcante, na qual ela e suas amigas brigam num posto de gasolina, onde ousam executar canções da banda ‘punk’ feminista Mercenárias e do grupo Júpiter Maçã em volume altíssimo e, assim, obliteram aquilo que era ouvido, em algaravia, pelas pessoas do local. Na trama, passado e presente misturam-se a delírios, a exortações oníricas que homenageiam, de forma explícita, clássicos do cinema de terror italiano, além de deixar evidente o quanto o diretor, que é graduado em História é fascinado pelo cineasta Brian De Palma. O horror instala-se, no filme, a partir da ameaça perene de desaparição: “para onde vamos depois que isso acabar?”. O que acontece às amizades quando as estórias deixam de ser compartilhadas? Mais um ‘déjà vu’!

Fascina, no filme, o modo como as personalidades dos jovens, muito bem interpretados e fazendo uso de seus caracteres regionais e sotaques, ressignificam as convenções do subgênero ‘slasher’, ao qual a trama parece filiar-se, no início. Ao invés disso, testemunhamos um terror existencial, que, em suas nuanças ficcionais, obriga-nos a confrontar um dilema quase documental: o que experimentamos ao testemunhar fatos históricos, que, às vezes, assumem a forma de uma conversa corriqueira, enquanto se espera o retorno de alguém que amamos? Numa seqüência inspiradíssima, o diálogo de rapazes que notam que o ambiente esvaziado em que estão parece um deserto de desenho animado repete-se de maneira circular. No desfecho, o que era ‘flashback’ revela-se como ‘flashforward’. Ou vice-versa. E a canção insiste: “às vezes sinto, tenho que mudar/ Sinto que o tempo sempre quis me devorar”. Ilko Minev, ainda no capítulo exordial de seu livro, prossegue: “já é tempo de aprendermos com as lições do passado e impedirmos que a ideologia, a economia, questões raciais, étnicas, religiosas ou de qualquer outa espécie justifiquem ditaduras, campos de concentração, holocaustos, torturas e outros crimes contra a humanidade”. Na semana passada, não houve texto publicado nesta coluna. Os motivos foram variegados, mas estes podem ser sintetizados num clamor: é importante teimar expressivamente, mesmo perante o receio de que, numa impressão imediata, não se tenha muito a contribuir com o avançar da História. Cada respiro sobrevivencial importa. Mais (ou menos) que um pedido de desculpas pelo sumiço não desejado, este artigo é um novo pedido de socorro, enquanto requisição dialogística, com vistas à comunhão, à troca de experiências, abundantes tanto no filme quanto no livro ora recomendado. Sigamos convertendo tentativas cotidianas de reação orgânica em demonstrações identitárias e demarcadores epocais, antes que tudo desapareça sob a égide do fascismo contemporâneo. Estamos em ano eleitoral. Moralismo conservador é um perigo. Disseminar o erotismo circunstancial é uma estratégia benfazeja: “é como se a lua estivesse parada, não saísse do lugar”. Tu sabes o que é um pau babão?

Wesley Pereira de Castro.

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Fonte da imagem disponível em: https://www.planocritico.com/wp-content/uploads/2020/10/1227-A-Noite-Amarela.jpg

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