Quem mora em Portugal, terá a oportunidade de assistir a diversos filmes que aderem ou flertam com a linguagem documental, na programação da vigésima quarta edição do Festival DocLisboa, que vai de 15 a 25 de outubro de 2026; quem vive no Brasil, entretanto, enfrentará um tormento neste mesmo período, pois tratam-se dos dias que antecedem o segundo turno eleitoral do pleito que decidirá o novo presidente do país. Num dos casos, os espectadores poderão conferir produções cinematográficas em que a realidade é ofertada enquanto matéria ativa da História; no outro, os eleitores lidarão com os ônus associados à vivência de um momento histórico assaz decisivo. O que poderá ser dito acerca da democracia, após o fatídico dia 25 de outubro?
O comparativo entre situações dos dois países em questão encontra um elemento discursivo no conteúdo de um dos filmes que será exibido no supracitado festival, a produção hispano-argentina “Às Vezes Sinto Tristeza, Outras Vezes Revolta” (2026, de María Aparício), que traz em seu bojo a pergunta que repetimos no título deste texto. Num mundo em que um político com atitudes neofascistas como Javier Milei é eleito pela decisão da maioria da população, de que adianta ainda pesquisar, ler, estudar, resistir? A resposta surge na prática sobrevivencial dos encontros…
No filme, uma cineasta proveniente da província de Córdoba, na Argentina, viaja à cidade de Madri, a convite de um amigo. Recém-chegada de um festival cinematográfico francês, esta mulher, de nome Eva Carrasco (Eva Bianco), passeia pela cidade, a fim de sentir-se confortável e estabelecida. Ao visitar um museu, ela é perseguida por alguém que alega reconhecê-la: trata-se do historiador Dante (interpretado pelo crítico de cinema Roger Koza), também cordobense, por quem ela sente uma afeição imediata. Ambos conversam sobre o interesse de pesquisa do historiador, que é a passagem do anatomista espanhol Juan Bialet Massé [1846-1907] pelo país sul-americano, onde redigiu, em 1904, o importantíssimo “Informe sobre el estado de las classes obreras en el interior de la República”, no qual denunciava as condições de miserabilidade em que viviam os trabalhadores, no interior de Córdoba. Por conta disso, tornou-se o precursor do direito laboral na Argentina.
Não disfarçando o seu cansaço, Dante – que coloca e tira os óculos o tempo inteiro, além de esfregar os olhos constantemente – dedica-se, de maneira quase inconsciente, a cálculos sobre qual seria o peso ideal da carga de materiais transportados pelos trabalhadores, durante a sua jornada empregatícia, ou o tempo que se perde piscando, enquanto se vê um filme (segundo os seus cálculos, cada piscadela dura cerca de 0,4 segundos, de modo que, numa produção que dura uma hora e meia, cerca de nove minutos são dedicados ao somatório de instantes em que os olhos estiveram brevemente fechados). A sua abnegada dedicação à leitura, porém, é questionada por Eva: “como isso pode auxiliar concretamente os trabalhadores de hoje, já que estamos cercados por genocídio e morte?”. Transferimos a mesma questão para o contexto brasileiro hodierno, em que uma figura tão perniciosa como Flávio Bolsonaro recebeu mais de cinqüenta e seis milhões de votos, em 04 de outubro de 2026. Um dia que segue apavorando metade considerável dos cidadãos brasileiros!
A despeito de sua temática e da exibição no festival lisboeta, “Às Vezes Sinto Tristeza, Outras Vezes Revolta” não é um documentário. Premiado na seção Giornate degli Autore, na Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, este filme chega a emular as convenções de comédias românticas, quando Dante se esforça para passar mais tempo ao lado de Eva, que precisa viajar para Barcelona, em determinado momento. Após um convite frustrado, ele adormece durante uma projeção cinematográfica, e sonha que está conversando com o próprio Juan Bialet Massé (Sérgio Boris), que pede que ele lhe cante algo. Dante balbucia a estrofe final de “Milonga del Péon del Campo”, de Atahualpa Yupanqui, que contém justamente os versos que intitulam o filme, e conclui: “Quisiera hacerme perdiz/ Para ver de ser feliz/ En algún pago lejano/ Pero a la verdad, paisano/ Me gusta el aire de aquí”. Ao despertar, ainda atordoado, ele descobre que a cineasta voltou para o seu país natal, enquanto ele queda perturbado pela provocação que ela lhe fez, relacionada à utilidade de suas pesquisas e atividades. Numa guinada efetivamente documental, o filme insere imagens de uma viagem de Dante a Londres, onde visita o cemitério onde está enterrado Karl Marx [1818-1883] e ele entrevista pessoas que migraram para a Espanha, onde precisam exercer atividades empregatícias que os deixam praticamente sem tempo livre. O que começa como um flerte namoratório desemboca numa inquirição sobre as condições opressivas do “mundo do trabalho”, incluindo a intervenção de uma cantora, previamente mencionada por Eva, que promove um reencontro simbólico entre os dois personagens. O mesmo acontece quanto à identificação emotiva e intelectual dos espectadores, que são convidados a encararem a realidade ao seu redor de maneira potencialmente transformável, após a sessão. Adianta estudar, portanto: sigamos em resistência e pesquisa!
Wesley Pereira de Castro.
Fonte da imagem disponível em: https://ficx.tv/wp-content/uploads/2026/09/A-VECES-ME-ENTRA-TRISTEZA-OTRAS-VECES-REBELION.jpg