“PM com metralhadora entra em escola infantil em SP após pai reclamar de desenhos de matriz africana, afirma funcionária”. “Pai que acionou PMs armados por desenhos de matriz africana feitos pela filha em escola [de educação infantil] também é policial em SP”.
Em novembro do ano passado, um policial evangélico acionou seus colegas policiais armados para entrar em uma escola de educação infantil, a EMEI Antônio Bento, na cidade de São Paulo. Este policial ficou totalmente fora de si porque sua filha participou de uma atividade que propunha que as crianças desenhassem os orixás, as divindades das religiões afro-brasileiras (ou religiões brasileiras de matrizes africanas). Nesta atividade foi utilizado o livro Ciranda em Aruanda (Olivina 2021). A escola trabalha com o currículo de educação antirracista que é um documento da rede pública da cidade de São Paulo e que, por sua vez, propõe apresentar às crianças elementos da cultura afro-brasileira.
O policial, pai da estudante, alegou que a atividade era inadequada e intolerante às crianças e às famílias cristãs, alegou que a escola estaria obrigando a criança a ter “aula de religião africana”, e danificou os desenhos dos orixás que estavam fixados em um painel dentro da escola. Outros policiais entraram armados na escola e constrangeram os funcionários, aproximadamente durante uma hora, diante dos estudantes. Tudo foi registrado pelas câmeras da escola.
Uma funcionária da escola registrou o boletim de ocorrência denunciando a ação do pai da estudante e dos outros policiais. A Secretaria de Segurança Pública, por sua vez, seguirá com as investigações:
“A Corregedoria da PM permanece à disposição para receber denúncias ou informações que possam contribuir com as investigações internas. No âmbito da Polícia Civil, a servidora da unidade de ensino registrou boletim de ocorrência por ameaça envolvendo o pai da estudante, policial militar da ativa, que por sua vez também registrou ocorrência, negando a acusação de ter danificado um painel da escola ao retirar um desenho feito por sua filha. Diante dos registros, o 34º Distrito Policial (Vila Sônia) convidará a servidora para verificar seu interesse em formalizar representação criminal e colher seu depoimento sobre os fatos. Caso haja representação, será instaurado inquérito policial, e todos os envolvidos e testemunhas serão ouvidos para completo esclarecimento e eventual responsabilização no âmbito criminal.”
A comunidade escolar também se mobilizou e protestou contra a ação do pai da estudante e dos outros policiais. O abaixo-assinado da comunidade escolar diz: “Repudiamos veementemente qualquer forma de intolerância religiosa, racismo ou discriminação, e defendemos o direito de todas as crianças a uma educação plural, inclusiva e livre de preconceitos”.
O que este episódio pode nos ensinar? Eu pensei em pelo menos cinco aprendizados: (1) É fundamental abordar e valorizar as religiões afro-brasileiras na escola; (2) Não podemos tolerar os desrespeitos aos educadores brasileiros, incluindo os desrespeitos advindos das autoridades públicas; (3) A participação da comunidade escolar é muito importante para a efetivação de uma gestão escolar democrática; (4) A escola não é lugar de policiais ou de educação militarizada; e (5) Os policiais brasileiros devem efetivamente respeitar os direitos humanos e abolir qualquer tipo de abuso ou ação truculenta.
Voltando especificamente para a importância de abordar e valorizar as religiões afro-brasileiras na escola, isto é ainda mais urgente por conta do crescimento dos grupos neoconservadores entre os católicos e os evangélicos brasileiros. Ou seja, diversos grupos católicos e evangélicos brasileiros não querem que suas crianças aprendam a valorizar as religiões afro-brasileiras. Provavelmente não é algo que será ensinado no âmbito do ensino religioso confessional, no âmbito da catequese ou escola bíblica, ou no âmbito familiar. Por isso, eu acredito que é fundamental a valorização das religiões afro-brasileiras nas escolas.
* Crédito da imagem: imagem de domínio público de indumentárias de orixás expostas em Salvador, Bahia (Brasil).
Referências
Fiorotti, S. “Qual deve ser o lugar da religião na educação básica?” Observatório da Imprensa, São Paulo, 16 out. 2017.
Fiorotti, S. “Pastores precisam combater a intolerância religiosa cometida por evangélicos.” A Pátria, Funchal, 24 jan. 2022.
Honório, G. “PM com metralhadora entra em escola infantil em SP após pai reclamar de desenhos de matriz africana, afirma funcionária.” G1 São Paulo, São Paulo, 18 nov. 2025.
Honório, G. & Leite, I. “Pai que acionou PMs armados por desenhos de matriz africana feitos pela filha em escola [de educação infantil] também é policial em SP.” G1 São Paulo, São Paulo, 19 nov. 2025.
Olivina, L. Ciranda em Aruanda. São Paulo: Quatro Cantos, 2021.
Stefenoni, C. “Pai evangélico aciona polícia por causa de livro de orixás em escola.” Comunhão, Vitória, 19 nov. 2025.



