* Segunda-feira, 20 de julho de 2026: terminou mais um final de semana. O assunto dominante nas redes sociais é a estréia de “A Odisséia” (2026, de Christopher Nolan). Até mesmo quem desgosta do diretor concorda que este é o seu melhor filme. Muitos elogios, algumas críticas, previsões exageradas acerca do sucesso da produção, quando indicada ao Oscar. Quem não pôde conferi-lo, ainda, periga ficar alheio aos debates. Um estratagema válido: conferir versões antigas da fonte literária. Recomendamos “Ulysses” (1954, de Mario Camerini), uma surpreendente adaptação com viés aventureiro, em que, a despeito do baixo orçamento, o tema do retorno ao lar é respeitado de maneira inteligente, especular, com uma mesma atriz – a deslumbrante Silvana Mangano [1930-1989] – interpretando dois papéis, o da esposa fiel e o de uma bruxa sedutora. O autor desta coluna precisa submeter-se a uma consulta oftalmológica. Quatro horas e meia de espera. Por sorte, havia um romance dentro da mochila: “Caderno de Ruminações”, do sergipano Francisco José Costa Dantas, sobre um proctologista, Dr. Rochinha, apaixonado por uma prima rica e desvairada. Diagnóstico do médico: astigmatismo. “Precisarás utilizar óculos, de fato!”…
* Terça-feira, 21 de julho de 2026: uma pane telefônica no setor de trabalho desencadeou uma sobrecarga de atendimentos. Oito horas de expediente, um intervalo para o almoço. Ao chegar em casa, a conferição de um filme adquirido por impulso, numa feira de DVDs usados: “Montado na Bala” (2004, de Mick Garris), baseado numa novela de Stephen King, autor pelo qual o cineasta responsável é obcecado, já tendo adaptado várias de suas obras. Na trama, um rapaz (Jonathan Jackson) fascinado pela morte tenta se suicidar no dia de seu aniversário. É resgatado pela namorada (Erika Christensen), que o flagra sangrando, numa banheira. A mãe (Barbara Hershey) sofre um Acidente Vascular Cerebral (AVC), e pode falecer a qualquer instante, dependendo, aparentemente, de uma decisão do protagonista, após revisitar o parque de diversões que desencadeou um trauma em sua infância. No percurso em direção ao hospital, em 1969, eventos misteriosos acontecem: o espectro da Morte persegue o protagonista, quando ele identifica o nome George Staub (encarnado por David Arquette) num túmulo, e este aparece num carro, oferecendo-lhe carona. Reconhecemos, no enredo, características recorrentes da obra do escritor. Porém, o sono foi mais forte, ou o enfado, bem como o cansaço. O espectador adormeceu… Pesadelos se sucedem. Será que alguém enviou alguma mensagem importante, neste período?
* Quarta-feira, 22 de julho de 2026: em colaboração com amigos, surge uma revista sobre críticas, na UFS. Em breve, mais informações sobre os “Jovens Persas”. Durante o almoço, um debate sobre a falta de interesse dos técnicos de computação nos livros ficcionais. “Para que eu vou ler algo, se pode existir um filme ou série contando a mesma história?”. Apela-se para a defesa da imaginação e para as especificidades de cada veículo tramático. No terceiro episódio da minissérie “Veneno”, idealizada por Javier Calvo e Javier Ambrossi, a transexual Cristina (Isabel Torres), adulta, continua a narrar a desventuras de sua juventude à estudante Valéria (Lola Rodríguez), que se inspira cada vez mais no modo como ela empodera a si mesma, a despeito das adversidades, antes de aderir, ela própria, aos procedimentos de transição de gênero. O sexo é componente recorrente, em seus efeitos de compensação emotiva. Trata-se de um produto audiovisual ‘pop’, com qualidade acima da média. Disponível no catálogo HBO-Max, no Brasil. Já era para estar disponível o rascunho para a coluna desta semana, aguardando aprovação do editor, não era?
* Quinta-feira, 23 de julho de 2026: na ida para o trabalho, quando se consegue um assento no ônibus, surge a oportunidade azada para a leitura de mais alguns capítulos do livro supracitado, cujas seções correspondem a dias da semana, justamente. “Entre uma dose e outra, como se nunca houvesse sentido um momento de angústia, chorou-se despedindo de sua inocência, revogou as suas convicções, viu que estava perdido, de coração triunfante e estraçalhado. Sim, porque ninguém se apaixona impunemente. O pesadelo agora não ia mais ter fim. E os dias que se seguiram viriam a provar” (página 359). Como a programação da edição deste ano do Festival Ecrã está disponível ‘online’ – até o dia 02 de agosto de 2026 – foi cogitada a possibilidade de se assistir, de maneira oportunista, a algum curta ou média-metragem, para improvisar algum texto. Falta apenas um dia para a publicação da coluna, e ainda não surgiu um assunto. Poder-se-ia resenhar “Caderno de Ruminações”, mesmo faltando-se algumas páginas para encerrar a leitura? Jornalismo é algo que depende, também, de inspiração: não basta apenas a identificação de um objeto, mas a percepção de algo que merece ser dito sobre ele… À noite, haverá uma sessão de “Aquele que Viu o Abismo” (2024, de Negro Léo & Gregório Gananian), organizada por um cineclube da UFS, antes da estréia oficial nos cinemas, na semana seguinte. Seria este um tema propício para a coluna desta semana?
* Sexta-feira, 24 de julho de 2026: dia de festa no local de trabalho. “Traga vinte pães!”, determinou a organização do evento. Foi concedido o benefício da escolha, em verdade. Por causa das sacolas com comida, foi difícil ler no ônibus. Falta apenas um capítulo para encerrar o livro. A derradeira seção é batizada justamente como “Sexta-Feira”. Mal amanheceu, ressurgiu a angústia: mais tarde, a coluna será publicada. Qual será o tema desta semana? O filme visto na noite anterior não conseguiu ser validado enquanto assunto, em razão de um dissabor pessoal. Que tal converter este diário em proposta? Será que o editor aprovaria? “Maior do que as antigas regras cristalizadas, que as balizas imemoriais é, sem dúvida alguma, o poder das circunstâncias” (página 392). Ao invés de conferir o arrasa-quarteirão do Christopher Nolan, no final de semana, outro título foi agendado: “Folha Seca” (2025, de Alexandre Koberidze), numa sessão entre amigos. Cada instante vivido importa: “tanto a fazer, tão pouco tempo…”, reclamam por aí. Fiz o que pude; seguirei fazendo, tal qual o doutor Rochinha!
Wesley Pereira de Castro.
Fonte da imagem: lavra própria.