As situações controversas envolvendo as tentativas de lidar com a generalização do racismo e da homofobia no futebol desencadearam alguns debates políticos mui necessários ao longo da edição 2021 da Eurocopa. As ações mui reprováveis da chamada “Brigada dos Cárpatos”, na Hungria, trouxe à tona evocações preconceituosas que seguem reproduzindo-se geográfica e temporalmente. As vitórias eleitorais da extrema-direita, em diversos países, demonstra o quão difundido ainda é o ódio pelas diferenças. Na (falta de) lógica absurda do Poder, pessoas que têm muito em comum em seus traços humanos mais elementares são reduzidas à categoria de “minorias” a serem expurgadas. Para além de um ou outro triunfo do diálogo, é como se pouca coisa mudasse: o Mal continua sendo amplamente noticiado!
Sob essa perspectiva, é urgente compreender a validade da data comemorativa que ocorre internacionalmente em 28 de junho: nesse dia, no ano de 1969, clientes homossexuais reagiram às prisões recorrentes que ocorriam no bar Stonewall. Independente dos delitos cometidos, tais prisões eram motivadas pela orientação sexual dos detidos. Como se assumir-se homossexual fosse um crime em si…
Não obstante a sua relevância celebratória, muitas vezes as efetivações das paradas LGBTQIA+ desembocam na comemoração epidérmica, como se, ali, sob a proteção de uma data específica no calendário, fosse autorizado e estimulado ser ‘gay’ (palavra que, etimologicamente, tem a ver com felicidade). Na prática, nem mesmo o mais histriônico dos comportamentos é desprovido de sentido: o preconceito mata diuturnamente!
Refletindo acerca dessas questões, chega a ser escandalosa a existência de um filme tão complexo quanto “Parada” (2011, de Srdjan Dragojevic). Seu discurso é direto, porém atravessado por convenções tragicômicas tipicamente iugoslavas, quando este adjetivo pátrio ainda existia. O mote sinóptico diz respeito ao sonho de um organizador de casamentos, que luta para organizar a primeira parada homossexual na Sérvia. Lidará, entretanto, com um cadinho mui concentrado de violências, que ultrapassa qualquer lógica de reconhecimento nacional…
Na abertura do filme, deparamo-nos com uma espécie de glossário eslavo, que apresenta diversos termos chulos, usados para referir-se aos sérvios, aos croatas, aos bósnios e aos albaneses de Kosovo. Cada um deles é utilizado demeritoriamente pelos outros três grupos, enquanto ofensa. Ao final, aparece um termo [‘peder’] designado para humilhar os homossexuais. Todas as etnias são unânimes em sua utilização!
Mal recuperamo-nos desta introdução dicionarística bombástica, conhecemos o protagonista Limun (Nikola Kojo), que cantarola antigas músicas comunistas enquanto banha-se. A espuma do sabonete escorre por suas tatuagens e cicatrizes. Símbolos militares são abundantes, o que denota que ele teve participação ativa nos conflitos que culminaram na desintegração da Iugoslávia, durante a década de 1990. É um personagem assustador, o que se confirma prontamente: quando ouve a campainha de sua residência tocar, Limun percebe que seu cachorro fôra baleado e apressa-se em conduzi-lo até um veterinário, Radmilo (Milos Samolov), que é ameaçado com uma arma: “se o cachorro morrer, tu também morres!”. O cachorro sobrevive, felizmente.
Noutra parte da cidade, a noiva de Limun, Biserka (Hristina Popovic), está escolhendo os itens luxuosos que deseja para a sua cerimônia matrimonial. O organizador do evento é justamente o marido de Radmilo, Mirko (Goran Jevtic), que teve o rosto cuspido por um jovem ‘skinhead’, quando tentava convencer seus amigos a participarem da parada do título. Pouco a pouco, todos estes personagens estarão dedicados à consecução da mesma, ainda que isto implique em lidar com violências oriundas de todas as regiões circunvizinhas. Exemplo de opinião corriqueira proferida por alguém, no filme: “se lutarmos para que viados e sapatões tenham direitos, logo os ciganos e albaneses também acharão que merecem…”. Glupt!
Servindo-se do mesmo tipo de humor corrosivo que adotara numa obra-prima anterior [“Bela Aldeia, Bela Chama” (1996)], o diretor e roteirista Srdjan Dragojevic expõe as dolorosas contradições bélicas do que outrora foi um país. A fim de obter um determinado resultado, Limun não hesita em colaborar com “inimigos nacionais”, de modo que consegue fazer com que o croata Roko (Goran Navojek) realize algo que não pensou que seria possível: “espancar vários sérvios em pleno centro de Belgrado”. Juntam-se a eles o bósnio Halil (Dejan Acimovic) e o kosovense Azem (Toni Mihajlovski), sendo que este último é apresentado de maneira mui sardônica: cuidando de aves que o auxiliam no contrabando de heroína, cocaína e outras substâncias, ele explica que as mesmas sofrem de fobia de tanques. E complementa: o lugar em que ele habita é continuamente invadido por tanques de guerra norte-americanos, não por acaso seus maiores clientes. Quando recebe o pagamento pelo que vende dos soldados inicialmente destinados à resolução de conflitos, ele distribui as cédulas com as crianças do vilarejo, numa situação de amoralidade que atravessa todo o filme. Como afirma Radmilo: “quando estão resolvendo seus problemas, criminosos e amantes são iguais”!
Revelar mais detalhes sobre o filme talvez seja não recomendado: grande parte de seu impacto emocional advém do modo como este turbilhão de preconceitos explode em situações de extrema violência, como nos encontros de Limun com seu filho neonazista e com um ex-cúmplice policial (obviamente corrupto). Malgrado a aviltante exposição das torpezas nacionais, o filme é incrivelmente bem-humorado e defende a necessidade de orgulho homossexual pela mais inaudita das vias. Um filme obrigatório, sobretudo no modo como encara a militância política como algo eminentemente orgânico: afinal, ninguém é apenas homossexual ou heterossexual. Pertence-se também a um gênero, a uma classe social, a uma etnia, entre inúmeros condicionantes enxergados como “diferenças”.
A utilização oportuna de estereótipos pelo filme faz com que reflitamos acerca das metáforas da murta e do mármore, conforme exemplo que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro retirou de uma pregação célebre do catequista português Antônio Vieira [1608-1697]: a murta diz respeito a “algo que é fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve”, ao passo que o mármore demora bastante para ser moldado, mas “sempre conserva e sustenta a mesma figura”. Como estas metáforas aparecem no filme e/ou no dia a dia de enfrentamento contra o(s) preconceito(s)? A resposta está em nossa práxis!
Wesley Pereira de Castro.



