O intelectual italiano Umberto Eco (1932-2016) iniciou, em 1980, sua carreira literária. Ele estreou com o romance histórico O Nome da Rosa que, por sua vez, tornou-se rapidamente um sucesso de público e de crítica. Já em 1986, a obra ficcional ganhou uma boa adaptação para o cinema com a direção de Jean-Jacques Annaud e a atuação primorosa de Sean Connery no papel do frei franciscano Guilherme [ou William] de Baskerville.
A trama ficcional de Umberto Eco nos transporta para o começo do século XIV, sendo que o palco é um mosteiro beneditino no norte da Itália. Trata-se de um suspense a respeito de mortes misteriosas, suspeitas de crimes e de heresias, tentações e desejos pecaminosos, forças malignas, livros perigosos, biblioteca labiríntica, investigação, julgamento inquisitorial, disputas de poder, riso subversivo, etc. Assim a trama de Umberto Eco transcorre com personagens e fatos fictícios juntamente com personagens e fatos reais. O narrador é o noviço beneditino Adso de Melk que acompanhou o frei Guilherme em sua investigação e, somente depois de muitos anos, narrou os fatos dos sete intensos dias no mosteiro.
Não vou entrar nos pormenores da trama. Mas a disputa entre os franciscanos e os dominicanos é algo central. Não tratava-se de uma disputa meramente teológica para definir se Jesus era pobre ou não, ou se a igreja deveria ser pobre ou não. A maneira como as ordens religiosas se relacionavam com o dinheiro e com a propriedade indicava se elas estavam apoiando ou rebelando-se contra algum poder instituído: seja o poder do papa João XXII (1249-1334) a partir de Avignon, do imperador Luís IV ou Ludovico (1282-1347) a partir de Nuremberg, de algum bispo, de algum magistrado, de alguns mercadores e do governo de alguma cidade, etc.
[…] “E mesmo os padres, e os bispos, e até as ordens religiosas, precisam lidar com o dinheiro. É por isso, naturalmente, que a rebelião ao poder manifesta-se como apelo à pobreza, e rebelam-se contra o poder os que são excluídos da relação com o dinheiro, e cada apelo à pobreza suscita muita tensão e muitas controvérsias, e a cidade inteira, do bispo ao magistrado, sente como inimigo próprio quem prega demais a pobreza.” (p. 173)
[…] “Nós [franciscanos] dizemos: não possuímos nada e temos tudo em uso. Ele [Tomás de Aquino, dominicano] dizia: podeis considerar-vos possuidores contanto que, se a alguém faltar o que vós possuís, vós lhe concedais o uso, e por obrigação, não por caridade. Mas a questão não é se Cristo era pobre, é se deve ser pobre a igreja. E pobre não significa tanto possuir ou não um palácio, quanto manter ou abandonar o direito de legislar sobre as coisas terrenas.” (p. 410)
As doutrinas consideradas heréticas e combatidas pela igreja não eram combatidas simplesmente porque estavam teologicamente erradas, mas sim porque ameaçavam o poder do papa, porque tornavam as ordens religiosas mais poderosas, ou porque alimentavam as aspirações de grupos excluídos.
[…] “os doutores da Sorbonne condenaram as proposições daquele abade Joaquim [do século XII], mas parece que o fizeram porque os franciscanos (e os dominicanos) estavam se tornando poderosos demais, e sábios, na universidade de França, e pretendia-se eliminá-los como heréticos.” (p. 93)
[…] “É a história de um homem [frei Dulcino de Novara, 1250-1307] que fez coisas insensatas porque pusera em prática o que muitos santos lhe tinham pregado.” (p. 165)
[…] “Estou dizendo que muitas dessas heresias, independentemente das doutrinas que sustentam, encontram sucesso junto aos simples, porque lhes sugerem a possibilidade de uma vida diferente. […] Frequentemente, para muitos deles, a adesão a um grupo herege é apenas um modo como outro qualquer, de gritar o próprio desespero.” (p. 200)
A grande lição deixada pela obra de Umberto Eco, a meu ver, é mostrar que a ortodoxia não estava muito distante da heresia. Ou simplesmente: “havia pouca diferença entre a sua fé mística (e ortodoxa) e a fé distorcida dos hereges” (p. 169). Por fim, vale a pena lembrarmos das palavras do teólogo Rubem Alves (1933-2014): “Os símbolos vitoriosos, e exatamente por serem vitoriosos, recebem o nome de verdade, enquanto que os símbolos derrotados são ridicularizados como superstições ou perseguidos como heresias.”
* A imagem da capa da edição do livro foi elaborada por Diana Cordeiro e Editora Record.
Referências
Alves, Rubem. O que é religião. São Paulo: Brasiliense, 1981.
Eco, Umberto. O nome da rosa (ficção). Tradução: Aurora F. Bernardini e Homero Freitas de Andrade. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 2011 [1980], 574p.
Lodge, David. “Introdução ao livro ‘O nome da rosa’ [edição de 2006].” Eco, Umberto. O nome da rosa (ficção). 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 2011, pp. 9-26.
O nome da rosa (filme). Direção de Jean-Jacques Annaud. País: Alemanha / Itália / França. Ano: 1986. Duração: 126 minutos.