Uma viagem entre Bucareste e Tulcea — e o que se aprende quando alguém escolhe não ser compreendido
11 de maio de 2025.
10h00.
Saída do Ibis Styles Bucharest Airport, em Otopeni. Destino: Hotel City, Tulcea. Quase 300 quilómetros. Mais de quatro horas de estrada.
O motorista era um jovem romeno. Recebeu-me com um “bom dia”, um “como está?”, e uma segunda pergunta direta:
— É a primeira vez nesta região?
Respondi que sim.
— Então venha à frente — disse. — A paisagem é muito bonita.
Agradeci, mas expliquei que precisava de trabalhar durante a viagem. Preferia ir atrás, com o computador. Combinei, no entanto, que pararíamos a meio para um café e que, depois disso, iria para o banco da frente.
Ele aceitou sem insistir. Abriu a porta. E conduziu.
Durante as primeiras horas, não falou. Apenas conduzia, com uma discrição que hoje é rara — como se soubesse que o respeito também se mede pelo silêncio.
Parámos a meio, como combinado. Café breve. Um telefonema para casa. Nada mais. Mas cumpri o que tinha dito: quando regressámos ao carro, sentei-me à frente.
Foi aí que começou.
Perguntou o que eu fazia. Respondi: professor universitário. Perguntou o que ensinava. Gestão, estudos organizacionais e empreendedorismo.
Houve um pequeno silêncio. E depois disse:
— As pessoas acreditam que vão ter sucesso. Mas já está tudo preparado para falharem. E depois culpam-se.
Disse-o sem dramatizar.
— Porque acha isso? — perguntei.
Falou de empresas que começam bem e desaparecem pouco depois. Tudo parece crescer — até deixar de crescer. E, quando falha, falha de vez.
Respondi-lhe que muitas vezes também não gosto da forma como o empreendedorismo é ensinado. Ensina-se alguém a fazer um pitch num semestre — mas isso é como ensinar um papagaio a falar. Repete. Não sabe o que está a dizer.
Empreender não é só técnica. É experiência, contexto, leitura do que não está escrito.
E isso não se ensina depressa.
Ele olhou para mim. E concordou de imediato.
— Sim — disse. — Porque as conversas não são essas. E porque está tudo feito para as pessoas fracassarem.
A partir daí, falou mais.
Contou-me que, quando estava com a namorada e com outros casais amigos, evitava mostrar o que realmente pensava. Já tinha aprendido que não valia a pena.
— Ninguém compreende. E depois começam a gozar-me. Acham que sou adepto de teorias da conspiração.
Fez uma pausa breve.
— É melhor falar de coisas simples. Do tempo, do futebol.
Preferia isso.
Preferia ser legível.
Preferia ser apenas o motorista.
O driver.
Não como limitação. Como escolha.
Depois disso, voltou o silêncio. Um silêncio diferente — não o inicial, mas o de quem já disse o essencial.
Chegámos a Tulcea. Agradeci. Ele acenou, sem prolongar o momento.
Nunca mais o vi. Não sei o seu nome.
Mas a paisagem que ele me ofereceu não foi a da estrada.
Foi outra — e não se vê pela janela.
Há encontros que não explicam nada. Mas reorganizam tudo.


Tulcea. Fim da viagem.



