“O luxo e a aristocracia caem-me muito bem!”: do elogio à democracia estadunidense enquanto hipocrisia (in)voluntária

Na noite de 16 de março de 1934, quando aconteceu a sexta cerimônia da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (A.M.P.A.S.) – ainda não apelidada oficialmente como Oscar, o diretor de origem italiana Frank Capra [1897-1991] submeteu-se a um ato extremamente vexatório: ao ouvir Will Rogers, o mestre de cerimônias do evento, gritar “Frank, venha buscar o seu prêmio!”, ele saltou da cadeira, ciente de que era o favorito. Ocorre que o prêmio em questão foi para um homônimo, Frank Lloyd, pelo longa-metragem “Cavalgada” (1933), que, na mesma noite, recebeu também os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção de Arte. O filme dirigido por Frank Capra, “Dama por um Dia” (1933), foi indicado em quatro categorias (Melhor Filme, Direção, Atriz e Roteiro), mas não ganhou em nenhuma. Em sua autobiografia, o diretor disse que a caminhada de volta para o assento foi “a mais longa e constrangedora de sua vida”. No ano seguinte, ele receberia o primeiro troféu de direção, por “Aconteceu Naquela Noite” (1934), o que voltaria a acontecer mais duas vezes, em anos próximos [por “O Galante Mr. Deeds” (1936) e “Do Mundo Nada se Leva” (1938)]. Será que ele sentiu-se vingado?

Na supracitada ocasião, Frank Capra ainda estava em início de carreira: já dirigira mais de uma dezena de filmes, alguns deles para a Columbia Pictures, mas não estava consolidado como o grande impulsionador do ‘New Deal’, crente nas instituições eminentemente norte-americanas e nos valores morais dos cidadãos. Em diversas de suas obras, ele apesentaria o acúmulo de dinheiro como prática vilanesca, mas, na prática, fora das telas, ele enriquecia bastante. Não chega a ser um caso de “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” porque o realizador parecia realmente acreditar naquilo que ele expunha em seus filmes, sendo a obra-prima “A Felicidade Não Se Compra” (1946) o mais famoso. Não foi bem-sucedido em sua estréia, mas hoje é um clássico absoluto, comumente reprisado nas sessões televisivas de Natal. Pode-se declarar, sem medo de soarmos exagerados, que Frank Capra é um gênio!

Voltando a “Dama por um Dia”: o diretor gostava tanto deste filme que chegou a regravá-lo – sob o título original ‘Pocketful of Miracles’ – em 1961. Trata-se de uma obra que apresenta um ponto de virada definitivo em sua filmografia, antes de ele aderir às comédias românticas que o consagraram. No ano posterior ao seu lançamento, foi promulgado o famigerado Código Hays, que vigorou até 1968, como um conjunto de proibições de alguns assuntos e abordagens, até então abundantes. Exemplo: o modo desinibido como se falava sobre gravidez, adultério e sexo antes do casamento, conforme o próprio Frank Capra mencionou, de maneira desinibida, em “A Mulher Proibida” (1932), sobre uma mulher solitária que apaixona-se por um homem casado, numa viagem a Cuba, e, ao engravidar dele, doa a sua filha para a adoção, mantendo-se fiel ao seu amante por mais de vinte anos…

Em “Dama por um Dia”, a protagonista é Annie (May Robson), uma alcoólatra septuagenária que vende maçãs nas ruas e é apaixonada por música clássica. Ela é simpática com todas as pessoas com quem encontra no caminho, até com os animais, chegando a oferecer frutas para os cavalos de policiais. Ela comunica-se com uma filha que mora no exterior, Louise (Jean Parker), graças ao auxílio de um porteiro de hotel, que recebe as suas cartas como se ela estivesse hospedada lá. Repentinamente, a moça comunica que casar-se-á com o filho de um aristocrata espanhol, e Annie desespera-se, ao imaginar que terá a sua pobreza descoberta pela filha. O detalhe recorrente: a sua condição de miserabilidade tem a ver, justamente, com o fato de ela enviar todas as quantias que obtém para a criação de sua filha, de quem não se sabe nada acerca do pai. É mais uma trama sobre extremo sacrifício feminino, que ignora os problemas decorrentes do abandono paterno. “A culpa é sempre das mulheres”, diz esse tipo de filme, nas entrelinhas, por mais que elogie os esforços da protagonista.

Como Annie é considerada um amuleto de sorte para o gângster Dude (Warren William), ela o convence a hospedá-la no hotel de luxo e converter bandidos e prostitutas no séquito de amigos da suposta Sra. E. Worthington Manville. Para o papel de marido, Dude convoca um jogador de bilhar, conhecido pelo comportamento pretensamente refinado, a quem todos conhecem como Juiz (Guy Kibbee). O plano parece simples, mas torna-se progressivamente complicado, quando três colunistas sociais são seqüestrados, porque são designados para entrevistar as famílias do jovem casal. É quando a polícia entra na jogada, antes que mais alguns “milagres” aconteçam: os EUA ainda estavam sob o jugo da Grande Depressão, que irrompeu em 1929, mas o diretor convoca as platéias para aceitarem a evasão fílmica de um conto de fadas para adultos. Na diegese, Annie insiste para que as pessoas “confiem no presidente”, e nas medidas políticas anunciadas, no afã para conter os efeitos da miséria: ela acredita no Governo, mas prefere conviver com os cafetões, bandidos, mandriões, pedintes (alguns deles, portadores de deficiências físicas) e apostadores. O desfecho mantém a alegria da protagonista em suspenso, fazendo com que esqueçamos que ela voltará ao estado de quase mendicância, nas ruas, para financiar as mentiras que conta para a sua filha. Temos um problema ideológico, aqui, ou a confirmação da efetividade de um discurso? Os vários prêmios recebidos pelo diretor, ao longo de sua carreira, respondem a esta pergunta?

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQo3vSIFBk4eR76ig9zuqVP7z9Kwe3r9oxi0pOeTNpGtAIalURXXY9BNVSy&s=10

Descarregar artigo em PDF:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

LOGIN

REGISTAR

[wpuf_profile type="registration" id="5754"]