“O jornalista não sabe de nada. Mas conhece quem sabe” – e o nosso biografado sabia muitíssimo!

Em 22 de setembro de 2026, o jornalista e escritor Zuenir Carlos Ventura [1931-2026] faleceu, em decorrência de uma pneumonia, aos noventa e cinco anos de idade. Dono de um currículo invejável, ele foi justamente o autor de um livro sobre inveja, para a coleção “Plenos Pecados”, da editora Objetiva: em “Mal Secreto”, publicado em 1998, ele concilia o fervor de pesquisador com a habilidade de cronista, a fim de narrar as conseqüências atreladas a falhas de caráter que muitos tacham de circunstanciais. No Rio de Janeiro, entretanto, não é bem assim. E o autor sabia disso muito bem…

Também autor do ‘best seller’ “Cidade Partida”, publicado em 1994, sobre as origens da violência que culminaram na chacina de Vigário Geral, em 29 de agosto de 1993, numa favela do Estado brasileiro que o consagrou profissionalmente, Zuenir Ventura é homenageado por diversos amigos e colegas de profissão no documentário “Mestre Zu” (2026, de Zelito Viana & Luciana Savaget). Nos depoimentos, hesita-se em encontrar algum defeito associado ao jornalista. E os diversos causos que deram origem a seus livros e reportagens mais famosos são compartilhados. Como destaque, três situações-chave do jornalismo, que merecem ser estudadas nas aulas universitárias de Deontologia da Comunicação: uma delas, quando o jornalista evitou publicar o que motivou o suicídio do médico e escritor Pedro Nava [1903-1984], que foi derivado das chantagens efetuadas por um garoto de programa; outra, relacionada à publicização da causa da morte do cineasta Leon Hirszman [1937-1987], que sucumbiu à AIDS, quando isso ainda era um grave tabu, o que causou bastante controvérsia; e a terceira, a célebre divulgação de elogios do realizador Glauber Rocha [1939-1981] a militares brasileiros, na chamada “fase de abertura” da ditadura militar, o que engendrou diversas polêmicas, ainda hoje em curso.

Nascido na cidade de Além Paraíba, em Minas Gerais, Zuenir Ventura quis ser padre, quando criança, mas o recebimento de uma bolsa internacional de estudos fez com que ele repensasse este anseio, erigindo uma das trajetórias mais bem-sucedidas do jornalismo brasileiro, sendo consagrado com o ingresso na Academia Brasileira de Letras, em 2014 . No filme, co-produzido pela emissora telejornalística GloboNews e, portanto, mais vinculado à linguagem televisiva que propriamente cinematográfica, trechos de programas nos quais ele concedeu entrevistas são misturados aos depoimentos sobre ele, incluindo aqueles proferidos por sua irmã Zenir, sua esposa Mary e seus filhos Mauro e Elisa Ventura. Aprendemos muito ao ouvir a naturalidade com que ele relembra o seu percurso através de veículos marcantes do Brasil, como o Jornal do Brasil e a revista Veja, nos quais foi editor e chefe de redação. E, claro, elogia-se o seu excepcional trabalho em “1968 – o Ano que Não Acabou”, publicado originalmente em 1988, sobre um compêndio de relatos da ‘intelligentsia’ brasileira, no ano titular, até que foi promulgado o Ato Institucional Número 5 (AI-5), em 13 de dezembro deste mesmo ano, quando foram extintas as liberdades de imprensa e de produção cultural, a partir da instituição da censura prévia e da cassação de diritos no país, então sob o jugo de uma violentíssima ditadura militar.

Deveras sóbrio e sempre humorado, Zuenir Ventura acumula diversos chavões e feitos, com destaque para a série de reportagens sobre o ativista acreano Chico Mendes [1944-1988], que ele acompanhou antes de seu assassinato, inclusive adotando o garoto que serviu como testemunha para o julgamento de seus algozes. Comenta o jornalista: “passei quarenta anos de minha vida dizendo que não se deve envolver pessoalmente com as notícias e, de repente, eu trago uma notícia para dentro de minha casa”. Não por acaso, ele foi assunto de uma obra literária em formato de diálogo com Luis Fernando Verissimo [1936-2025], outro dos grandes intelectuais brasileiros da era de ouro do jornalismo. O documentário apresenta tudo isso de maneira inteligente e engraçada, inclusive destacando os comportamentos enciumados do cartunista Ziraldo Alves Pinto [1932-2024], em relação ao seu amigo.

Validando o lançamento deste filme no circuito exibidor brasileiro, na segunda metade de outubro de 2026, é oportuno notar que isto antecede a eleição presidencial em que Luiz Inácio Lula da Silva tenta o seu quarto mandato, mas é perseguido e atacado por um oponente que não disfarça os seus flertes com o fascismo nem consegue obnubilar os seus vínculos com as milícias cariocas. Uma das grandes reportagens do jornalista biografado é o acompanhamento da primeira Caravana da Cidadania, efetivada pelo então candidato à presidência pelo Partido dos Trabalhadores, entre 23 de abril e 12 de maio de 1993. Na ocasião em pauta, jornalista e político atravessaram, durante três semanas e mais de quatro mil e quinhentos quilômetros, rincões de extrema pobreza, em que líderes espontâneos surgiram, declarando que “quem tem fome, tem pressa”, conforme foi repetido em campanhas de combate à fome, na mesma década. O jornalista estaria tristíssimo se ainda estivesse vivo nesta fase final da campanha presidencial, em que todo o seu esforço para garantir o acesso à memória histórica do país foi dilacerado pela opção voluntária de quase metade da população brasileira em aderir ao desprezo pelo povo. A realidade está árdua, mas um documentário como este, mesmo que pouco inventivo em formato, nos consola ao expor a crença nos seres humanos e a valorização das amizades. Eis a nossa recomendação da semana. Esta e a urgência em votar 13!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: https://i0.wp.com/carmattos.com/wp-content/uploads/2026/04/Mestre-Zu.jpg?resize=700%2C388&ssl=1

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