Antes de começar a picar no centralismo com a mesma fúria que o mesmo nos pica diariamente (“nos” – a nós, os “provincianos”), ouvi as “Águas de Março”, um dos hinos da bossa nova, de onde me ocorreu retirar o título para este artigo, desta vez a versão de João Gilberto, presente no seu álbum homónimo de 1973; assim, aqui e agora, deixo a minha simples homenagem ao grande artista que nos deixou este ano – outro embaixador desta lusofonia que nos une aqui n’”A Pátria”…
Centralismo, esse grande caso de estudo… Numa deambulação aleatória por uma rede social (aquela do senhor com apelido judeu), vi a partilha de uma notícia com o título “Praga da vespa asiática “é problema nacional porque chegou a Lisboa”” (1), título este que só poderá deixar indiferente quem for pelo menos um pouco distraído, um pouco parvo, um pouco niilista, ou, pior ainda, quem for de Lisboa e quiser associar-se aos seus conterrâneos que gostam de assobiar para o lado quando o outro país, aquele resto que é paisagem, cria algo, precisa de algo, faz algo sobre algo, seja lá o que for… Ainda que me apetecesse discorrer sobre outras implicações sócio-económicas do centralismo, vou focar-me nos problemas que o centralismo produz na luta ambiental (assumo já que a mesma existe, e opino que é necessária), tomando esta notícia, e a problemática associada, como exemplo. Acrescente-se que Portugal é um dos países mais centralizados da OCDE (2). A regionalização poderia ser crucial aqui: prevista na Constituição de 1976, e objecto de referendo há já mais de 20 anos (no ano de 1998, outro século, outro milénio, os mesmos problemas…) (3), esta reforma administrativa foi sempre adiada, o que adensa o problema. Isto é um problema, ou não?! Vejamos…
Onde está o Ministério do Ambiente, que agora é da Transição Energética, e já foi do Ordenamento do Território? Está em Lisboa (4), é claro, como tudo o resto: parlamento, serviços, centros de decisão, os grandes eventos, o jet set, as sedes das grandes empresas, …; por que não também o ambiente!? Bem, se não for por mais, porque Lisboa talvez não seja muito interessante em termos ambientais: muita gente, muito trânsito, muita poluição… Talvez não estejam em Lisboa as zonas de maior biodiversidade do país, ou as zonas de maior interesse paisagístico, mas dali sairão as decisões – eventualmente decisões tomadas sem se conhecer o terreno, o ar livre, o conjunto dos intervenientes, e aquilo que cativa a paixão pelo ambiente: as cores, os cheiros, o toque, a erva que se cola ao corpo que passa, a sonora água que corre nos rios, os pássaros que chilreiam, …; não é romantismo, é uma parte importante do nosso país que, por exemplo, se vende constantemente ao turista, e à qual não se tem acesso dentro dos gabinetes. Se o Ministério estivesse fora de Lisboa as coisas poderiam ser diferentes? Penso que, pelo menos, valeria a pena tentar.
O problema ambiental de que estamos a falar – a praga da vespa-asiática – não é novo, muito pelo contrário, está quase a atingir uma década no nosso país, e tem sido alvo de grandes combates ambientais, nomeadamente aqueles dinamizados por particulares e por associações (ambientais e não só), enfim, pessoas que sentem de modo particular as grandes alterações que vivemos, e que dão o seu pequeno contributo para a manutenção da casa de todos, o ambiente. Refira-se também a acção dos Bombeiros, já que o método mais comum e eficaz de combate à vespa-asiática passa pela incineração dos ninhos, processo que decorre in loco, naturalmente (1). Outros métodos incluem a utilização de armadilhas, geralmente caseiras (1). O problema, concretamente, é que a vespa-asiática (com o nome científico Vespa velutina), artificialmente introduzia no nosso meio, é predadora das comuns abelhas (Apis mellifera), com prejuízos claros tanto a nível económico, nomeadamente na produção de mel, como a nível ambiental, dado o papel decisivo das abelhas na polinização. É atribuída ao célebre físico Albert Einstein a famosa frase “Quando as abelhas desaparecerem da Terra a humanidade só sobreviverá durante quatro anos.”, que me parece realista, e por conseguinte assustadora.
O protesto do presidente da APIMIL (Associação Apícola de Entre Minho e Lima) – veja-se a referida notícia (1) – é totalmente justificado. A soberba e a leviandade com que as questões ambientais são tratadas pelos poderes centralistas poderão ser altamente perniciosas: as acções isoladas, de voluntários, de populares, e de diferentes associações, são menosprezadas – é essa a mensagem que estão a passar! – quando, e é preciso que se diga isto, muitas das vezes são as únicas acções de carácter ambiental com alguma relevância que se fazem no nosso país, dadas as inércia e inépcia demonstradas pela nossa classe política, que teima em falhar na apresentação e execução de uma verdadeira estratégia para o ambiente. Neste sentido, tanto em Portugal como no resto do Mundo, estamos cerca de 50 anos atrasados pois a libertação ideológica que constituiu os anos 60 do século passado, e à qual o ambiente não foi alheio, não teve no caso ambiental o devido seguimento. É verdade que a causa ambiental está na moda – e pergunto: esta moda é para durar?! O problema da vespa-asiática era conhecido do Ministério do Ambiente? Se não, o que está a fazer este Ministério? Se sim, por que não actuou mais cedo? Se o problema fosse combatido de raiz, de modo integrado, no seu começo poderia já nem ser um problema… Felizmente há um sítio dedicado à comunicação da presença da referida vespa (www.sosvespa.pt/web); infelizmente está em manutenção… Uma vez mais, passa a ideia de que o Ambiente é um parente pobre do nosso país, que, reforço, é lesto a vender a sua Natureza para o turismo, mas displicente a conservá-la.
Para acabar, deixo-vos com mais uma foto da minha autoria, daquele que será dos espaços com maior biodiversidade na capital: o Oceanário. É um biodiversity hotspot (um ponto de elevada biodiversidade) agradável mas artificial. Em destaque está um ratão, uma espécie do grupo das raias, com uma característica cauda com um esporão. É normal haver picadas quando os indivíduos se sentem ameaçados…
Referências:
- www.jn.pt/nacional/interior/praga-da-vespa-asiatica-e-problema-nacional-porque-chegou-a-lisboa-11321353.html
- www.expresso.pt/economia/2018-11-10-Lisboa-e-a-capital-e-o-resto-continua-a-serpaisagem.-Este-estudo-apresentaprovas
- www.jn.pt/nacional/interior/regionalizacao-o-projeto-adiado-da-constituicao-de-1976-10587589.html
- www.portugal.gov.pt/pt/gc21/area-de-governo/ambiente/acerca
Nota: o autor opta por não seguir o Acordo Ortográfico de 1990.



