Nas exibições televisivas das décadas de 1980 e 1990, os filmes de Steven Spielberg acostumaram os espectadores a um padrão de qualidade autoral, associado à narrativa enquanto espetáculo. A menção ao nome deste realizador, nos anúncios de sessões, desencadeava expectativas, geralmente recompensadas: Steven Spielberg tornou-se “o cineasta da família”, por tematizar recorrentemente tal instituição, em seu âmago afetivo. Até mesmo os filmes que não eram dirigidos por ele, mas apenas produzidos, traziam algumas de suas marcas recorrentes, como: o medo de palhaços de brinquedo, em “Poltergeist — O Fenômeno” (1982, de Tobe Hooper); o enfrentamento dos traumas infantis, em “Gremlins” (1984, de Joe Dante); e o apelo ao companheirismo juvenil, em “Os Goonies” (1985, de Richard Donner), para ficar em alguns exemplos imediatos. Nos últimos anos, porém, a filmografia spielberguiana passou a lidar com temas mais complexos: a partir de “A Lista de Schindler” (1993), a noção de família foi expandida para a relação com a comunidade, em que o clamor à sobrevivência exige atitudes que não são individuais, mas coletivas.
“Guerra dos Mundos” (2005) e “Munique” (2005) trouxeram novas questões: lançados no mesmo ano, estes filmes adicionaram conflitos que envolvem a necessidade de manutenção familiar versus a intervenção do Estado. Por mais que os críticos reclamassem que Steven Spielberg permanecesse refém da infância em seus anseios enredísticos, ele também lidava com dramas adultos, que desembocaram na autobiografia romanceada “Os Fabelmans” (2022). E, mesmo que o cineasta experimentasse incursões em diversos gêneros, ele permanecia fortemente associado à ficção científica, com pendor indisfarçado para a aliança desejada entre seres humanos e alienígenas: foi assim em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977) e em “E.T. — O Extraterrestre” (1982), e volta a ser em “Dia D” (2026), que, segundo o diretor, finaliza uma trilogia indireta.
Nesta sua nova incursão pela ficção científica, em parceria com o roteirista David Koepp — com quem já trabalhara em “Jurassic Park — Parque dos Dinossauros” (1993), o supracitado “Guerra dos Mundos” e “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (2008) —, Steven Spielberg opta por um olhar quase ingênuo acerca da possibilidade de assunção, por parte do governo estadunidense, acerca da existência de provas de interações (e até torturas) envolvendo criaturas extraterrestres. O “dia da revelação” apregoado no título original é antecipado por uma trama de ação incessante, que adota clichês elementares do cinema hollywoodiano, geralmente relacionados a algo definitivo que acontece no último instante: um trem está prestes a atingir o automóvel onde estão os protagonistas? Um segundo antes do impacto, eles conseguem saltar do veículo! Uma jornalista está prestes a divulgar uma notícia importantíssima? Um grupo de paramilitares interrompe o fornecimento de energia elétrica da emissora, no derradeiro segundo da contagem, antes de a transmissão iniciar. Como se resolve isso? Simples: alguém consegue adentrar o estúdio, trazendo consigo um artefato alienígena que possibilita a restauração da eletricidade. Noutros contextos directivos, seria difícil suportar tamanha inverossimilhança!
Entretanto, o que é relevante para o realizador, neste trabalho em particular, é o seu indisfarçado discurso messiânico, que, na diegese, faz com que praticamente todos os indivíduos do planeta fiquem estáticos diante de uma transmissão televisiva, assistindo ao que estava sendo anunciado naquele telejornal, antes do verbo-chave, que fica suspenso, sonoramente, na tela, ao final da sessão: “escutem!”. As personagens femininas do filme declaram que não estão dispostas a iniciar “uma nova religião”, o que supostamente ocorreria, inevitavelmente, após a divulgação de segredos militares norte-americanos. De um lado da equação, membros de uma organização secreta, que se esforçam para manter em segredo as gravações acumuladas desde o “caso Roswell”, em julho de 1947; do outro, a confiança irrestrita de Steven Spielberg na imprensa — já explicitada em “The Post — A Guerra Secreta” (2017). No centro, pessoas que foram abduzidas por extraterrestres na infância e uma ex-noviça, Jane (interpretada por Eve Hewson), que precisa da confirmação de sua superiora monasterial de que há evidências sobre a vida fora da Terra na Bíblia Sagrada…
Cerca do filme em si: na seqüência de abertura, numa competição de luta livre, somos apresentados ao personagem de Josh O’Connor, Daniel Kellner, que está negociando o resgate de sua namorada Jane, aprisionada pelo malévolo Noah Scanlon (Colin Firth). Tudo é mostrado de maneira célere, e não compreendemos adequadamente o que está acontecendo, mas sabemos que Daniel está em posse de um estranho dispositivo, que, se acionado, pode causar algo drástico. Enquanto isso, na cidade de Kansas, a repórter meteorológica Margaret Fairchild (Emily Blunt) aguarda pela oportunidade de ser promovida a âncora telejornalística, quando algo estranho acontece: um pássaro cardeal invade a sua cozinha e, deste momento em diante, ela começa a compreender vários idiomas e a ler os pensamentos das pessoas com quem conversa. As intricadas situações que se seguem, mediadas pelas intervenções do agente Hugo Wakefield (Colman Domingo), parecem meros pretextos para que Steven Spielberg demonstre que, aos setenta e nove anos de idade, ainda é um hábil condutor de cenas de ação, não obstante pretender algo existencial nesta obra. Ela cerca-se de seus colaboradores habituais (o fotógrafo Janusz Kaminski, o músico John Williams, a montadora Sarah Broshar — que substituiu o veterano Michael Kahn) e insiste em enquadramentos especulares (por detrás de vidros, em espelhos retrovisores, na lâmina de uma faca) pra transmitir a sua mensagem de colaboracionismo interespecista, ainda que isto implique negligenciar o desenvolvimento dos personagens e diálogos, estereotipar a situação geopolítica contemporânea, à beira de uma “Terceira Guerra Mundial” (com a Coréia do Norte como desencadeadora, no entrecho), e adotar estratagemas de condução narrativa que soam anacrônicos. Ele permanece um realizador autoral, também associado à idealização de arrasa-quarteirões cinematográficos, mas a conjuntura espectatorial é bastante dispersa, hoje em dia. O que Steven Spielberg deseja, enquanto matéria-prima humanista de seus filmes, é que as pessoas voltem a prestar atenção a quem está ao lado delas — inclusive, quando provêm de outros planetas. Será que ainda há brechas para isso, em meio à retroalimentada crise da narrativa hollywoodiana? Fica a tentativa, aqui, um tanto automática!
Wesley Pereira de Castro.
Fonte da imagem disponível em: https://bluntmag.com.au/video/steven-spielbergs-disclosure-day-gets-another-enigmatic-teaser/