“Meu pênis não é diferente do de nenhum touro!”: eleitoralmente e na luta de classes, não é bem assim… [crítica em primeira pessoa]

Quando eu caminhava para o trabalho, numa manhã ensolarada de quarta-feira, deparei-me com um pombo atropelado e esfacelado no meio da pista: não conseguiu voar quando um automóvel passou, e perdeu a sua vida. Era cinzento, quando vivo; converteu-se em amorfo, depois de morto. Fedia. Apodrecerá em breve. Para algumas pessoas, seria um mau augúrio; para outras, uma contingência da concomitância espacial entre natureza (invadida) e progresso capitalista (invasor e destrutivo). O acaso surge, então, como inevitabilidade.

Em outubro do ano passado (2025), tive o extremo privilégio de participar do DocLisboa, festival internacional de cinema documental, em Portugal. Ao voltar para Sergipe, menor Estado do Brasil, solicitei um veículo por aplicativo, assim que saí do aeroporto e, coincidentemente, deparei-me com um motorista lusitano. Na verdade, ele morou em Angola, quando o país ainda era território português, e referiu-se à independência nacional angolana de maneira iracunda. Hoje, está filiado à extrema-direita política: possui ótimo gosto musical (elogiou Teresa Salgueiro, por exemplo), mas abomina o jornalismo: “ao invés de informar-me através das notícias de TV, prefiro os grupos de WhatsApp”, disse-me ele, orgulhoso. Escolhi a dedo as palavras que utilizei durante a conversa – era madrugada, eu estava cansado, precisava voltar para casa –, mas fiz questão de defender o meu diploma. Respeitar o dissenso é diferente de consentir em relação aos discursos de ódio ou imbecilidade induzida: calar, nalguns embates, equivale a concordar – e o silêncio anuente é perigosíssimo!

Estamos em ano eleitoral, no Brasil: em 04 de outubro de 2026, elegeremos deputados, senadores, governadores e o presidente da Nação. Mas ninguém é capaz de exercer as suas funções isoladamente: o carma do maniqueísmo partidário seguirá engendrando a sua quota de sabotagens institucionais. Em Aracaju, capital de Sergipe, um cinema de rua está sob ameaça de fechar as portas, até que seja publicado um edital concernente à gestão do espaço. O secretário de Cultura do município, o radialista Paulo Corrêa, é irmão da atual prefeita, Emília Corrêa, que não esconde a sua predileção pelo bolsonarismo. Em suas redes sociais, esta última já apareceu maquiada como leoa, rugindo, contente por ter sido eleita, em 2024. “Apesar dos castigos/ estamos crescidos/ estamos atentos/ estamos mais vivos/ pra nos socorrer/ pra nos socorrer”, recita Rosângela Rocha, coordenadora artística da AVBR Produções, empresa então responsável pela gestão do Cinema do Centro, mencionando a letra de “Novo Tempo”, canção de Ivan Lins. Se esta sala de cinema de rua fechar, perderemos o acesso a filmes não-hollywoodianos, na tela grande…

Em 15 de agosto de 2026, foi divulgada a premiação da septuagésima nona edição do Festival de Cinema de Locarno, na Suíça. Dedicado sobretudo a filmes autorais, este festival concedeu o prêmio principal da seção ‘Concorso Corti d’Autore’ ao curta-metragem tailandês “The Bovine Comedy”(2026, de Ratchapoom Boonbunchachoke), sobre uma conjuntura distópica, em 2036, na qual os bois foram praticamente extintos e apenas três touros permanecem férteis. Um destes bois vive na Tailândia, e chama-se Gigante. Seu proprietário, o rico cadeirante Phop (Sadanont Durongkavarojana), descobre que um de seus empregados, Jon (Pakapol Srirongmuang), possui uma tática manual infalível, conseguindo extrair uma quantidade considerável de esperma bovino após masturbá-lo. Ocorre que Phop fica sexualmente interessado em Jon, e pede que ele também o masturbe, mas este recusa, não importa quanto dinheiro seja ofertado…

À medida que a trama avança, percebemos que Jon, que possui um filho pequeno, é casado com outro homem, a quem comunica os freqüentes assédios sofridos por seu patrão – que, por sua vez, masturba-se assistindo ao vídeo em que ele extrai o sêmen do boi, de maneira espetaculosa, com música eletrônica e luzes estroboscópicas. Jon não especifica os motivos de sua recusa em aceitar a proposta obscena de seu patrão, mas esta não deriva de uma ojeriza homossexual e sim de um conflito de interesses classistas, no qual Jon opõe-se à arrogância de seu chefe, até que uma chantagem envolvendo a prisão do filho de Jon – que coletava cogumelos numa propriedade que, até então, não era privada – obriga o trabalhador a ceder à exigência masturbatória de Phop. Pois é assim que os poderosos agem: de maneira criminosa, cooptando os seus subordinados através da violência institucional. Mas ou menos como aconteceu em Sergipe, quando dois integrantes do coletivo Os Jovens Persas – cujos textos podem ser lidos aqui – foram perseguidos por guardas municipais enquanto colavam cartazes em defesa do Cinema do Centro, nas paredes do tapume que cerca uma praça em reforma. O mal é seletivo, afinal: Phop, ansioso para ser masturbado por Jon, ignora os anseios afetivos de sua jovem esposa, que age como se fosse uma mera cuidadora. Em dado momento do filme, uma ejaculação – que aparece de forma esperançosa, quando proveniente do touro Gigante – é convertida em ato de agressão, quando expelida no rosto de um ser humano, que a obtém a contragosto. Em política, é o que muitas vezes acontece. Não por acaso, a extrema-direita defende gestações advindas de estupros: é imperativo saber em quem votar, nem que seja sob a lógica compensatória do “mal menor”, escolhendo-se quem fere menos. Sexo é também uma maneira de demonstrar o poder de alguém sobre outrem!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem disponível em: https://www.lightsonfilm.com/thebovinecomedy.html

Descarregar artigo em PDF:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

LOGIN

REGISTAR

[wpuf_profile type="registration" id="5754"]