Para terem uma ideia da preeminência desta família, vos informo que seu sobrenome, seu apelido, seu nome de família, portanto um nome, um substantivo próprio, transformou-se em adjetivo dicionarizado. E gerou ainda este outro substantivo, marialvismo, com outro significado, que surge quando se forma, e forma-se no sentido de designar os partidários do termo gerador, aqui não, é quase um advérbio de modo, designando uma forma de estar, uma forma de ser.
Esta história começa com o avô do nosso Marquês, D. Pedro José de Alcântara de Menezes Noronha Coutinho (1713 – 1799) o 4º Marquês, que teve uma vida muito longa e, entre outras coisas, era toureiro, consequente com sua função de Estribeiro-Mór do Rei D. José, e que ficou famoso, passando o termo marialva, como adjetivo, a designar às regras de cavalgar que estabelecera, que eram regras de cavalgar à gineta. E uma forma, também de substantivo, denominando o cavaleiro hábil, o bom ginete, um marialva, aquele com boas capacidades na arte de cavalgar. Como toureiro era considerado apenas o melhor toureiro do mundo, posto que era reconhecido em seu tempo como o melhor toureiro da Europa e como naquele tempo toiradas só na Europa se faziam, era, pois, o melhor do mundo. Estas toiradas eram, como se diz hoje, de morte, ou seja à espanhola, matando-se o touro no final, diferentemente das portuguesas nas quais não se abate o touro, o picam, cravam-lhe banderilhas, atormentam bem o pobre animal, mas não o matam. Desta fama de toureiro veio, então, outra forma depreciativa como substantivo de marialva, que significa o que ele era: um indivíduo de família nobre que gosta de touradas e cavalos e que convive com fadistas. Honestamente não sei se fadista aqui são aqueles que tocam e cantam o fado ou os rufiões e desordeiros de seu outro significado, ou se ambos, que é o mais possível. Entretanto Marialva é um tipo que se caracterizou como um boa vida, que vive alegremente a vida, e também como um desordeiro, tendo sido o perfeito marialva, D. Miguel, o irmão do nosso noivo, que tanto trabalho dará a seu irmão e a seu país, e que talvez tenha sido mesmo em todos os sentidos marialva, pois terá sido filho do nosso Marquês, não o único, pois surge, após sua morte uma filha a reclamar sua imensa fortuna, que acabou por ir ter à Casa dos Duques de Lafões, posto que sua irmã, não a única, D. Henriqueta Maria Júlia de Lorena e Menezes (1792 – 1810) que era casada com o segundo Duque de Lafões, esta irmã, que também havia reclamado a fortuna, logo chama a suposta filha, que acaba por ser contemplada no processo judicial que instaurou, contemplada com muito pouco é verdade, mas que lhe fez parar o processo, alguma razão havia de ter, ou terá recebido mais ainda, tendo feito um acordo extra processual, como se suspeita, e por isto não saberemos todos os termos, ou mesmo se houve, mas que algum Direito havia de ter, havia. Toda a verdade, nunca a saberemos.
Voltando à fama do 4º Marquês, que se tornou maior ainda por um episódio muito triste que se passou em 1779 em Salvaterra de Magos, no Palácio Real daquela cidade, onde há um picadeiro, uma praça de touros, e onde o Rei, então, gostava de assistir touradas. Esta história que lhes vou contar tem muitas e variadas versões, todas elas erradas, nas datas, nos fatos, no acontecido, nas personagens presentes, como eu não me posso enganar, muito trabalho tive para encontrar a verdade, e compor os fatos como realmente se passaram, que foi como lhes vou contar. Estando a corte em Salvaterra de Magos organizou-se, como sempre que lá estava o Rei se fazia, uma tourada, pois que este hábito antigo, à portuguesa, havia sido revivido à espanhola em Portugal por Felipe II (terceiro de Espanha) quando este foi Rei em Portugal, e o fez para se tornar popular no
país, promovendo uma corrida de gala em 1619 por três dias, costume que prosseguiu até tornara-se gosto de uma certa elite. Pois neste dia em Salvaterra de Magos, dia que situo entre Fevereiro e Abril do ano, sobre este não há dúvidas, foi o de 1779, portanto o Rei que lá estava usava saias, e era D. Maria I a Rainha avó de nosso D. Pedro, o noivo de nossa história, mas nesta de 1779 decorria a tourada, quando um dos que corriam nesta era o 7º Conde dos Arcos pelo casamento, D. Manoel José de Noronha e Menezes (1740-1779) filho do 4º Marquês de Marialva. Um touro bravo o matou a chifradas na frente de todos, D. Maria I e a Corte que assistiam a tourada ficaram horrorizados. Inabalável, o 4º Marquês levantou-se da platéia onde se encontrava e perante o cadáver do filho, valendo-se de sua espada, que portava regularmente como era a praxe então para pessoas de seu estatuto, desembainhando-a, sem capa, peito aberto, do alto de seus quase 67 anos, mata o assassino de seu filho com uma estocada fatal, deixando o touro estendido ali na arena e retirando-se sem nada dizer. Desde então não realizaram mais toiradas nesta arena Real em Salvaterra, destinando-a a picadeiro. Tudo o mais é fantasia: D. José I que é posto como presente, estava já morto e enterrado, o Marquês de Pombal que, em outra versão também é posto na Praça, se encontrava desterrado, o 4º Marquês que é dito com 80 e muitos e até 90 anos, em diferentes versões, tinha 66 ainda, os anos atribuídos ao ocorrido (1750,1762, e 1792 mais comummente, entre outros, todos falsos.) erros que ajudam a alterar toda a história, como é natural, já que foi, sem margem para dúvidas, 1779, e são estes os fatos que, entre outros, aumentaram a fama do 4º Marquês, que já não era pequena. Não houve nenhuma Lei ou Decreto, como se chamavam, proibindo as touradas, que costumeiramente se faziam em Lisboa tanto no Terreiro do Paço, como no Rossio, não haviam ainda arenas fechadas, e as touradas, que pararam por bom tempo de serem realizadas, o que gerou a lenda de que foram proibidas, não foram. Só na Regência, o Principal Sousa (17?? – 1817) um dos regentes, que determinadamente as proibiu entre 1810 e 1817, mantendo a proibição enquanto vivo foi; só quando morreu este irmão de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, e do Marquês de Funchal é que a prática foi retomada. Lei mesmo as proibindo só em 1836, sob D. Maria II, mas durou apenas cerca de 9 meses, porque não foi aceita pelo povo. E as touradas vão ser moda ao longo de todo o século XIX, só vindo mesmo a serem proibidas efetivamente por Lei em 1928, proibição muitas vezes desrespeitada (Barrancos e Monsaraz são exemplos) até a lei ser abolida em 2002.Tudo o mais que dizem, e dizem muito, é fantasia e ignorância histórica.
Muito conotado com a ideia de conquistador de mulheres, que não é, historicamente, a fama de nenhum dos que portaram o título, talvez, um pouco a fama do nosso 6º Marquês, solteirão inveterado, terá por haver muitas mulheres entrando e saindo de sua vida, inclusive uma Princesa, depois Rainha. Marialva também quer dizer fadista pertencente a família nobre, ideia corroborada por um romance, e depois por uma peça teatral encenada com algum sucesso no Teatro D. Amélia que depois passou a se chamar como é hoje, Teatro São Luís, esta peça de Júlio Dantas (1876/1962) que nesta peça inventa um Conde de Marialva vivendo no século XIX, título que houve mais foi extinto ainda no XVI, para o por como amante da fadista Maria Severa (1826-1846) mulher sensual e encantadora, além de grande cantante de fados, que era amante de um Conde sim, mas este era 13º Conde de Vimioso (1817-1865) (toureiro, fadista, mulherengo. bom cavaleiro e grande ocioso) por quem a Severa era perdidamente apaixonada, e que Júlio Dantas, pressionado pela família Vimioso, fez mudar o nome, atendendo afinal a um pedido do Presidente do Conselho de Ministros, como se chamava, então, o chefe do Governo, Hintze Ribeiro (1849-1907), para poupar Vimioso, surgindo este inesperado Conde de Marialva, que nunca existiu. Aumenta assim a legenda do nobre ocioso e fadista, que vai ser lembrada logo que se filma o primeiro filme sonoro português, A Severa, em 1931, do cineasta Leitão de Barros (1896-1967) avivando assim nesta acepção as memórias do uso do termo marialva.
Temos bem presentes expressões como arte marialva, ou ainda arte de Marialva, para designar a arte de bem montar e cavalgar cavalos, há uma modalidade de fado ligeiro dito fado marialva, que guarda uma íntima relação com os cavalos. Podemos chamar a um certo tipo de noite, ou melhor será dizer noitada, de noite marialva. Assim o termo vai evoluindo, sempre em uso, até que presentemente a melhor acepção dele pode ser a mesma na qual empregamos muito correntemente em nossa língua, como em todos os países onde ela é em uso, uma palavra de origem inglesa, playboy, que é o mesmo que ser marialva.
Tudo isto demonstra a força deste nome, que perdura!
Capítulo 9 do Os Meandros do Casamento: Leopoldina e Pedro.



