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Madeira na Web Summit 2025: Inovação Atlântica num Palco Global

Madeira na Web Summit 2025: Inovação Atlântica num Palco Global

A presença da Região Autónoma da Madeira na Web Summit 2025 transcende o simbolismo institucional e configura-se como um acontecimento estratégico no posicionamento da Madeira como território inovador no contexto europeu. Longe de se limitar a uma representação regional em mais um evento de tecnologia, esta participação representou o amadurecimento de uma visão política, económica e científica que reconhece a importância da digitalização, da internacionalização e da articulação em redes globais como motores fundamentais do desenvolvimento regional.

Historicamente situada na periferia das dinâmicas continentais, a Madeira tem procurado transformar as suas limitações estruturais, como a insularidade, a distância geográfica e a pequena escala, em oportunidades. Esta lógica está alinhada com os princípios defendidos pela Comissão Europeia (2023), que destaca as Regiões Ultraperiféricas (RUP) como espaços laboratoriais para a transição digital e ecológica, desafiando a ideia de que o centro da inovação está restrito às grandes metrópoles.

Neste contexto, a participação da Madeira na Web Summit 2025, com uma comitiva composta por 18 empresas, startups e entidades institucionais como a Invest Madeira, a ARDITI e a Universidade da Madeira, revelou-se um movimento concertado e estrategicamente alinhado com as tendências globais da economia digital. A plataforma Invest Madeira, em particular, desempenhou um papel crucial enquanto entidade facilitadora de networking, contactos com investidores e promoção da marca territorial madeirense junto de um público global altamente qualificado.

A Madeira tem vindo a construir um ecossistema de inovação que, embora emergente, já revela sinais claros de consolidação. A criação de condições fiscais atrativas, através do Centro Internacional de Negócios da Madeira (Zona Franca), associada a investimentos na qualificação do capital humano, na investigação aplicada e no empreendedorismo, tem permitido criar um ambiente propício à incubação de ideias e ao florescimento de startups em áreas como inteligência artificial, marketing digital, turismo inteligente e economia azul. Este processo está em consonância com a teoria da hélice quádrupla (Isenberg, 2011; Stam, 2015), segundo a qual a inovação territorial resulta da interação entre governo, empresas, instituições científicas e sociedade civil.

Durante a Web Summit, a organização do “Dia da Madeira” e da masterclass “Amar a Terra” atraiu mais de 400 participantes, entre empreendedores, investidores e representantes institucionais, criando uma oportunidade única de dar visibilidade às soluções tecnológicas desenvolvidas no arquipélago. Startups como a Áurea Digital, Tracer, KBAI e Datamentors apresentaram propostas inovadoras com potencial de internacionalização, demonstrando a capacidade criativa e técnica das novas gerações de empreendedores madeirenses.

Do ponto de vista económico, o impacto já começa a ser mensurável. O Relatório sobre o Desenvolvimento Digital da Região Autónoma da Madeira (Governo Regional da Madeira, 2024) indica que o setor tecnológico cresceu mais de 10% no último ano e que as exportações digitais representam já mais de 72% da produção tecnológica local. Estes números são reveladores não apenas de um bom desempenho económico, mas também da existência de um plano coerente de transição para uma economia baseada no conhecimento e na inovação.

Paralelamente, a participação no evento reforça a dimensão simbólica do desenvolvimento territorial. De acordo com estudos sobre place branding (Kavaratzis & Hatch, 2021), a construção de uma narrativa territorial inovadora tem efeitos diretos na atração de talento, no reforço da identidade coletiva e na perceção externa do território. Neste sentido, ao apresentar-se na Web Summit como “ilha do futuro”, a Madeira reconfigura a sua imagem tradicional de destino turístico para posicionar-se como uma plataforma atlântica de inovação, sustentabilidade e cooperação internacional.

Além disto, a atuação madeirense na Web Summit 2025 materializa, na prática, os princípios da inovação aberta (Chesbrough, 2020), em que as ideias circulam para além das fronteiras institucionais e geográficas, permitindo a co-criação de soluções com parceiros globais. Esta lógica é particularmente relevante para territórios insulares, que dependem da sua capacidade de inserir-se em redes e ecossistemas externos para superar as limitações de escala e mercado interno. A inovação, nestes casos, não é apenas tecnológica: é social, institucional e, sobretudo, relacional.

Autores como Camagni (2022) e Rodríguez-Pose (2020) reforçam esta visão, argumentando que a competitividade das regiões periféricas depende menos da sua localização geográfica e mais da densidade das suas conexões institucionais, da capacidade de absorção tecnológica e da qualidade das suas estratégias de desenvolvimento. A Madeira, ao apostar na sua presença em eventos internacionais de referência, constrói precisamente esta rede de confiança, cooperação e aprendizagem mútua com outros territórios e atores globais.

Esta transformação em curso está também alinhada com as orientações da Década Digital da União Europeia (Comissão Europeia, 2023), que identifica objetivos claros para 2030 em áreas como competências digitais, infraestruturas de conectividade, digitalização dos serviços públicos e integração de tecnologias emergentes nas economias regionais. A Madeira, com o seu plano regional de transição digital, está a posicionar-se para ser uma região-piloto na concretização destes objetivos, beneficiando de fundos europeus, parcerias estratégicas e talento local.

Do ponto de vista cultural e identitário, a inovação territorial também tem uma dimensão profundamente simbólica. A afirmação da Madeira como território de inovação não implica a negação da sua herança, mas sim a sua reinvenção. Como referem Sanz e García (2024), a inovação nas ilhas deve ser vista como um processo enraizado nos valores locais, nas redes comunitárias e na relação com o território. É neste equilíbrio entre tradição e futuro que a Madeira parece estar a encontrar o seu caminho, ancorando a inovação em valores como a sustentabilidade, a criatividade e a colaboração.

Importa, ainda, destacar que esta estratégia não é isolada nem espontânea. Resulta de uma construção coletiva e intencional, envolvendo múltiplos atores e uma visão clara de longo prazo. A atuação articulada de entidades como a ARDITI, a Universidade da Madeira, a ACIF e o Governo Regional demonstra que é possível alinhar políticas públicas, investigação científica e desenvolvimento económico num esforço partilhado de transformação territorial. A lógica de sistema, neste caso, supera a fragmentação e cria condições para uma atuação coordenada que aumenta o impacto e a sustentabilidade das ações.

O caso da Madeira pode, assim, servir de inspiração para outras regiões ultraperiféricas que enfrentam desafios semelhantes. O sucesso desta estratégia depende da continuidade dos investimentos, da manutenção de uma visão estratégica inclusiva e da capacidade de adaptação a novas tendências tecnológicas e económicas. Como afirma Schwab (2024), “as economias que prosperam são as que transformam a tecnologia em propósito social”, e é precisamente esta a ambição que parece nortear a nova Madeira: uma região que não apenas adota tecnologia, mas a integra na construção de um futuro mais coeso, justo e sustentável.

Ao marcar presença na Web Summit 2025, a Madeira não apenas se promove, projeta. Não apenas participa, lidera. E ao fazê-lo, mostra que o Atlântico pode deixar de ser visto como periferia e passar a ser entendido como centro de inovação e diálogo. Uma região que, aprendendo com o mundo, consegue inovar com raízes, conectando saberes locais com desafios globais. Assim, a Madeira afirma-se como ponte e não margem, como espaço de vanguarda tecnológica e não apenas de contemplação paisagística. Um verdadeiro laboratório atlântico de inovação europeia.

Referências Bibliográficas

Bohr, A., & Kavehm, A. (2023). AI and Regional Innovation Ecosystems. Nature Digital Medicine, 6(4), 311–326.

Camagni, R. (2022). Regional Innovation and Smart Specialisation. Springer Nature.

Chesbrough, H. (2020). Open Innovation Results: Going Beyond the Hype and Getting Down to Business. Oxford University Press.

Comissão Europeia. (2023). Digital Decade Policy Programme 2030. Bruxelas: European Commission.

Diário de Notícias da Madeira. (2025, 9 de novembro). Madeira marca presença na Web Summit com 18 empresas e aposta em networking. https://www.dnoticias.pt/

Governo Regional da Madeira. (2024). Relatório sobre o Desenvolvimento Digital da Região Autónoma da Madeira. Funchal: Direção Regional de Economia e Inovação.

Henriques, F., Costa, P., & Sousa, M. (2024). Islands as Innovation Hubs: Challenges and Opportunities in Peripheral Territories. Sustainability, 16(5), 2307–2320.

Isenberg, D. (2011). The entrepreneurship ecosystem strategy as a new paradigm for economic policy. Babson Entrepreneurship Review, 3(1), 1–13.

JM Madeira. (2025, 9 de novembro). Madeira leva 18 empresas à Web Summit em Lisboa. https://www.jm-madeira.pt/

Kavaratzis, M., & Hatch, M. J. (2021). The dynamics of place brands: An identity-based approach to place branding theory. Journal of Place Management and Development, 14(2), 133–150.

Rodríguez-Pose, A. (2020). Institutions and the fortunes of territories. Regional Science Policy & Practice, 12(3), 371–392.

Sanz, M., & García, L. (2024). Innovation and sustainability in island economies: A European perspective. European Planning Studies, 32(7), 1055–1071.

Schwab, K. (2024). The Great Narrative: For a Better Future. World Economic Forum Press.

Imagem de destaque: https://funchalnoticias.net/2025/11/10/rodrigues-na-web-summit-ram-deve-ser-polo-de-referencia-da-inteligencia-artificial/

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