“Hoje é a correia; amanhã, pode ser a roda…” – e quem não viu o filme, como faz? “Não me pergunte nada/ Tá tudo boiando no ar”!

Apesar de ter feito parte da seleção competitiva da vigésima oitava edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, na seção Aurora, e de ter recebido críticas elogiosas de alguns críticos, o longa-metragem capixaba “Margeado” (2025, de Diego Zon) foi preterido nas seleções de festivais vindouros e desconsiderado pelas distribuidoras, quiçá pela intimidação decorrente de sua longa duração (duas horas e meia) e do estilo rebuscado da produção, cujo roteiro é considerado assaz hermético por seus espectadores. Graças a um esforço hercúleo dos envolvidos, o filme entrou em cartaz, nas salas de cinema de algumas cidades, no final de julho de 2026, por distribuição própria. Mas, ainda assim, foi pouco visto, obtendo uma recepção mui divisiva por parte do público e da crítica especializada. Trata-se, entretanto, de um filme inaudito em vários aspectos, a ponto de ser considerado “uma ilha no cinema brasileiro”, pelo crítico e pesquisador Marcelo Ikeda. É nossa missão divulgá-lo, portanto!

De forma metafórica, a recepção dificultada é tematizada no enredo de “Margeado”: é um filme sobre perda, sobre exílio, sobre interdição em relação àquilo que se ama. Os personagens são induzidos a afastarem-se dos ambientes em que cresceram, das pessoas com quem são acostumadas a conviver, dos rituais que permitiram a instalação e reconhecimento entre os pares. A trama é dividida em dois segmentos: num deles, antes dos crédito titular, acompanhamos a rotina de Yara (Verônica Gomes), que é obrigada a comprar água potável, mesmo vivendo nas cercanias de um rio outrora farto. Este foi invadido pela lama venenosa do garimpo e ela percebe que seus amigos estão partindo de onde sempre moraram, abandonando as suas residências com rumo incerto. Uma destas vizinhas comenta que um determinado casal, que plantou uma árvore depois de um de seus bebês gêmeos falecera, deixou apenas esta árvore como lembrança. Verônica dispõe-se a regá-la: “enquanto ainda houver sangue em nós, regaremos esta árvore”. Mas nem mesmo ela resiste à angústia do desterro: num enquadramento dolorosamente sublime, em que as águas barrentas do rio contaminado encontra as águas salobras do mar, ela atira-se na correnteza. Não mais a veremos daí por diante…

O outro protagonista do filme é Dingue (Danilo Andrade), cujo pai falecera recentemente e ele deambula carregando uma sacola de pescador, que pertenceu ao progenitor, em sua motocicleta desgastada. Volta e meia, ele é obrigado a parar na estrada, por conta de algum problema no veículo, mas prossegue zanzando, como se desejasse apenas seguir em frente, ainda que descubramos, mais tarde, que ele está em busca da irmã Alana (Eliane Correia), que não pôde comparecer ao velório do pai, e ressente-se um pouco, em razão disso. Ela tem um filho pequeno e fôra abandonada pelo marido. Mesmo vivendo tão distante do irmão, passa também por uma situação de perda, como se este fosse um traço comum a todos os seres humanos. Ela acolhe Dingue por uma noite, mas ele desaparece, misteriosamente. A motocicleta serve como conexão para que conheçamos outro núcleo familiar, formado pelo libanês Naim (Etien Khouri) e sua esposa (Souraia Jurdi), que notam, um tanto entristecidos, a ausência de chuvas e a diferença de clima entre a região em que agora vivem e o seu país natal. Uma bela paisagem descortina-se diante de ambos, com nuvens carregadas anunciando a chuva desejada, como se a esperança não fosse de todo interditada. O filme a restitui para nós!

Chega a ser impressionante constatar que “Margeado”, com todo o seu controle dos espaços e situações, foi dirigido por um estreante em longas-metragens: no interior de um Estado com tradição cinematográfica intermitente, o Espírito Santo, Diego Zon conseguiu demonstrar um domínio cênico que muitos comparam aos grandes realizadores orientais contemporâneos, como Lav Diaz ou Jia Zhang-Ke, não obstante o modo como ele compõe os diálogos ser peculiar até mesmo para os padrões do cinema brasileiro: há uma artificialidade intencional, associada ao hieratismo das aparições dos indivíduos, que conduz os espectadores a uma dupla reflexão sobre os papéis que eles desempenham em comunidade. Num dos instantes mais emocionantes – o clímax emocional da obra, em verdade –, uma mulher inicia o funeral de um trabalhador (interpretado por Antônio Pitanga) exigindo que o caixão seja aberto, dizendo que ela está ali, junto aos seus companheiros, “para lembrar, não para esquecer“. O patrão do falecido surge, de modo francamente inconveniente, para salientar o quão oneroso para ele é aquela cerimônia, e a perda de mais um empregado – no sentido exclusivamente estatístico do termo. Dingue o fulmina com o olhar, enquanto lembra das valiosas lições que o homem morto ensinou-lhe em vida. Algum tempo depois, num ônibus, uma senhora idosa assobia uma cantiga merencória, antes de recitar um poema, gritando sozinha, e é orientada por outro passageiro a “conclamar os seus lamentos noutro lugar”. Dingue observa, e é tocado por aquilo que testemunha; nós, idem.

Infelizmente, poucos espectadores viram este filme: na noite em que ele foi exibido, na supracitada Mostra de Tiradentes, chovia bastante. Na estréia improvisada pelos produtores, as criticas foram desalentadoras e, por causa dos horários não muito convidativos das sessões, as exibições estiveram esvaziadas. Quem pôde imergir nas poderosas imagens obtidas pela fotografia de Renato Ogata, teve o que comentar em seguida. O mesmo sendo aplicado ao excelente desenho de som e às intervenções musicais transformadoras e inusitadas, que ressignificavam por completo os lugares de onde provinham os sons. Vide o instante em que, numa oficina de aparelhos antigos (rádios, videocassetes, TVs analógicas, etc.), começa a tocar “Tudo no Ar”, na voz de Geraldo Azevedo: “Antes do tempo/ As folhas do calendário/ Fizeram dele inimigo/ Quem se pensava que fosse/ De todos o mais/ Rasgou-se o véu do meu rosto/ Quebrou-se o elo havido/ Se a vida, a morte, o minuto/ Sempre estiveram comigo/ Que culpa lá tenho eu/ Quem busca corre perigo”. De nossa parte, consideramos “Margeado” uma obra-prima!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem disponível em: https://meioamargo.com/wp-content/uploads/2025/01/margeado-meio-amargo-capa.jpg

Descarregar artigo em PDF:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

LOGIN

REGISTAR

[wpuf_profile type="registration" id="5754"]