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Genética do Voo: Quando o Empreendedorismo Nasce e se Faz

Genética do Voo: Quando o Empreendedorismo Nasce e se Faz

O empreendedorismo tem vindo a consolidar-se como uma das forças dinamizadoras das sociedades contemporâneas, sendo associado à inovação, à criação de emprego, ao crescimento económico e à transformação social. No entanto, subsiste um debate fundamental no seio da literatura académica e na retórica pública: até que ponto o comportamento empreendedor resulta de predisposições inatas, inscritas na genética e no perfil psicológico do indivíduo, ou, por outro lado, é determinado por fatores contextuais, formativos e institucionais? Esta dicotomia entre “nascer empreendedor” e “tornar-se empreendedor” tem gerado múltiplas abordagens teóricas e metodológicas, que reconhecem a complexidade inerente a este fenómeno (Shane & Venkataraman, 2000). O presente artigo propõe uma reflexão integrada sobre a relação entre traços individuais (o “ADN” empreendedor) e a ação concreta, situada num ecossistema favorável ou desfavorável ao desenvolvimento da iniciativa empreendedora.

A noção de que determinados indivíduos possuem um “perfil empreendedor” encontra apoio em diversas correntes da psicologia diferencial e da genética comportamental. Estudos conduzidos com gémeos, por exemplo, indicam que há uma componente hereditária moderada em características associadas ao empreendedorismo, como a propensão ao risco, a abertura à experiência, o locus de controlo interno ou a necessidade de realização (Nicolaou et al., 2008). Estas predisposições, ainda que não determinísticas, podem facilitar a emergência de comportamentos orientados para a ação empreendedora. Acresce que o empreendedorismo envolve competências cognitivas e emocionais que se desenvolvem desde a infância, nomeadamente a criatividade, a resiliência e a autonomia, fatores que, em parte, são moldados pela interação entre genética e ambiente familiar.

Contudo, importa sublinhar que a presença de traços favoráveis não se traduz, por si só, em comportamentos empreendedores. A literatura contemporânea tende a rejeitar visões essencialistas, defendendo que o empreendedorismo é um processo dinâmico e contingente, profundamente condicionado pelas experiências de vida, pelo contexto económico e cultural e pelo acesso a recursos materiais e simbólicos (Rae, 2007). Assim, ainda que o “ADN” empreendedor possa influenciar a predisposição para agir, é a combinação entre intenção, contexto e capacidade de execução que determina a trajetória de um empreendedor.

Neste sentido, o empreendedorismo não se limita à geração de ideias, mas concretiza-se na capacidade de implementar projetos em ambientes marcados pela incerteza e pela escassez de recursos. A ação empreendedora exige competências como a tomada de decisão sob ambiguidade, a mobilização de redes sociais, a gestão do fracasso e a aprendizagem contínua. O empreendedor é, por definição, alguém que transforma uma oportunidade latente num projeto real, que acrescenta valor económico, social ou ambiental. A literatura distingue frequentemente entre intenção empreendedora, ou seja, a predisposição para empreender, e comportamento efetivo, o que remete para a importância de fatores acionáveis e de suporte contextual (Lopes & Ferreira, 2025).

A qualidade do ecossistema empreendedor desempenha um papel central na conversão do potencial em ação. Ecossistemas empreendedores robustos caracterizam-se por um conjunto articulado de instituições, recursos, atores e práticas que facilitam a criação e o desenvolvimento de iniciativas empreendedoras. Incluem, por exemplo, acesso a financiamento (capital de risco, business angels, crowdfunding), redes de mentoria, políticas públicas de incentivo, infraestruturas de incubação e aceleração, bem como uma cultura que valoriza a inovação e tolera o fracasso (Costa & Nunes, 2025).

Portugal tem registado avanços significativos na consolidação de ecossistemas empreendedores, com especial destaque para as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, mas também em cidades médias e regiões do interior, através de programas de inovação regional, como o Startup Portugal e os Polos de Inovação Digital. A criação de redes entre universidades, centros de investigação, autarquias e empresas tem contribuído para a emergência de ambientes favoráveis à experimentação e à iniciativa. No entanto, persistem obstáculos, nomeadamente na burocracia, na instabilidade das políticas de apoio e na limitada literacia empreendedora da população em geral (Silva & Matos, 2025).

Paralelamente, a formação em empreendedorismo tem evoluído de abordagens centradas no plano de negócios para metodologias mais práticas e experienciadas, como o design thinking, a prototipagem rápida, a aprendizagem baseada em problemas e a simulação de startups. Estas abordagens procuram desenvolver, nos estudantes e profissionais, não apenas competências técnicas, mas também soft skills essenciais, como a empatia, a criatividade, a comunicação e a capacidade de lidar com o erro como parte do processo de aprendizagem (Pereira & Carvalho, 2025).

Importa também reconhecer que o empreendedorismo não ocorre num vazio social. A classe social, o género, a etnia e o território influenciam de forma significativa o acesso às oportunidades empreendedoras. As mulheres, por exemplo, continuam sub-representadas em sectores tecnológicos e nas lideranças empresariais, apesar de demonstrarem níveis equivalentes, ou superiores, de intenção empreendedora. A superação destes desequilíbrios exige políticas ativas de inclusão, visibilidade e capacitação, bem como a desconstrução de estereótipos associados ao “verdadeiro empreendedor” (Rodrigues et al., 2025).

Do ponto de vista da saúde mental e emocional, o empreendedorismo pode ser simultaneamente fonte de realização e de desgaste. A instabilidade financeira, a pressão social, o medo do fracasso e o isolamento são fatores frequentemente reportados por empreendedores em fases iniciais. Estudos recentes indicam níveis elevados de stress, ansiedade e burnout entre fundadores de startups, sobretudo em ecossistemas altamente competitivos. Estes dados sugerem a necessidade de integrar o bem-estar psicológico na formação e no acompanhamento dos empreendedores, promovendo estratégias de gestão emocional, autocuidado e equilíbrio entre vida pessoal e profissional (Rodrigues et al., 2025).

É também crucial destacar a dimensão ética do empreendedorismo. Numa era de disrupção digital, inteligência artificial e pressão por resultados rápidos, torna-se imperativo formar empreendedores capazes de conjugar inovação com responsabilidade social. A criação de valor não pode ser dissociada do impacto social e ambiental das soluções propostas. O conceito de empreendedorismo responsável ganha, assim, relevância, exigindo uma abordagem reflexiva e crítica das práticas empreendedoras (Costa & Nunes, 2025).

Em suma, o empreendedorismo contemporâneo deve ser compreendido como um fenómeno complexo, que ultrapassa a dicotomia entre natureza e cultura. A “genética do voo” pode oferecer pistas sobre predisposições individuais, mas é a ação situada, apoiada por contextos favoráveis e orientada por valores éticos, que transforma ideias em impacto real. O empreendedor não nasce nem se faz: nasce com potencial e faz-se no encontro entre o impulso e o mundo.

Referências Bibliográficas

Costa, L., & Nunes, R. (2025). Empreendedorismo responsável e transição ecológica: desafios para a próxima geração. Revista Portuguesa de Gestão e Inovação, 14(1), 51–67.

Lopes, M., & Ferreira, T. (2025). O futuro do empreendedorismo em Portugal: políticas, ecossistemas e cultura de inovação. Cadernos de Economia e Sociedade, 11(3), 92–111.

Nicolaou, N., Shane, S., Cherkas, L., Hunkin, J., & Spector, T. (2008). Is the tendency to engage in entrepreneurship genetic? Management Science, 54(1), 167–179.

Pereira, A., & Carvalho, J. (2025). Ensinar a empreender: práticas pedagógicas e desafios metodológicos. Revista de Educação e Empreendedorismo, 9(2), 33–50.

Rae, D. (2007). Connecting enterprise and graduate employability: Challenges to the higher education culture and curriculum? Education + Training, 49(8/9), 605–619.

Rodrigues, S., Almeida, V., & Matias, F. (2025). Saúde mental no empreendedorismo: uma análise integrada dos riscos e estratégias de autocuidado. Saúde e Sociedade, 13(1), 77–95.

Shane, S., & Venkataraman, S. (2000). The promise of entrepreneurship as a field of research. Academy of Management Review, 25(1), 217–226.

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