“Eu tive uma vida maravilhosa, não foi?” E de que adiantou?

A segunda pergunta é retórica: toda e qualquer vida é importantíssima, e transforma as existências de quem está ao redor, direta ou indiretamente. E esta é a prerrogativa da série “Veneno”, concebida pelos espanhóis Javier Ambrossi e Javier Calvo, em 2020. Os diretores – conhecidos em comunhão como ‘Los Javis’, pois costumam trabalhar juntos e tiveram um relacionamento amoroso por mais de uma década – foram premiados na septuagésima nona edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes, onde receberam o troféu de Melhor Direção – compartilhado com o polonês Pawel Pawlikoswi, por “A Terra de Meu Pai” – pelo aplaudidíssimo longa-metragem “La Bola Negra” (2026), desde já um dos títulos mencionados como certamente indicados à vindoura cerimônia do Oscar, em 14 de março de 2027…

A série supramencionada possui oito capítulos e conta a história da transexual espanhola Cristina Ortiz [1964-2016], famosa através da alcunha “La Veneno”, que, mesmo trabalhando como prostituta, tornou-se uma personalidade mui conhecida, após aparecer num programa televisivo, em 1996. Praticamente analfabeta, esta transexual foi vítima da ganância de vários aproveitadores e aprisionada por três anos, numa penitenciária masculina, entre 2003 e 2006, depois que um namorado a convenceu a aplicar um golpe numa empresa de seguro residencial, incendiando o local onde ela morava. Porém, como é repetido diversas vezes, ao longo da série, o maior inimigo de Cristina era ela própria!

Nascida como José Antonio Ortiz Rodriguez e conhecida entre vizinhos e familiares como Joselito, Cristina tem o seu “nome morto” revelado porque, na época em que ela viveu, o tratamento concedido às pessoas transexuais era bastante agressivo, sendo as mesmas tratadas genericamente como travestis e não tendo o direito de utilizarem o nome social na assinatura de documentos ou situações públicas, de caráter institucional. No derradeiro episódio da série, as personagens assistem a um documentário pioneiro, chamado “Vestida de Azul” (1983, de Antonio Giménez Rico), que deu origem a uma espécie de segunda temporada, em 2023, focada em outras personagens.

O elo entre estes enredos é a jornalista Valéria Vegas, autora da biografia “¡Digo! Ni Puta, Ni Santa. Las Memorias de La Veneno”, publicado em 2016, no qual a série é baseada e que, segundo especulações, engendrou ameaças que estão por detrás da morte ainda inexplicada da transexual, no mesmo ano em que o livro foi lançado. Na série, Valéria (interpretada por Lola Rodríguez) é a verdadeira protagonista, demonstrando-se apaixonada por Cristina desde a sua infância, e inspirando-se nela para iniciar, definitivamente, a sua transição de gênero. Para tanto, é crucial o papel desempenhado por Paca la Piraña, melhor amiga de Cristina, que interpreta a si mesma na fase madura, o que adiciona um extremo elemento melancólico à narrativa, visto que ambas brigaram de maneira irreconciliável, em determinado momento, de modo que Cristina solicitou à autora que a (ex)amiga fosse excluída de seus relatos. Como o roteiro dos episódios evita sacralizar a personagem, tanto quanto sugerido pelo título da biografia, alguns de seus atos são sobremaneira questionáveis, sendo mui doloroso acompanhar a reconstituição de algumas situações, o que valida o discurso de acolhimento da série, que insiste que as decisões equivocadas da personagem real têm a ver com a sua necessidade desesperada de ser amada, visto que foi maltratada desde a infância pela mãe (interpretada por Mercedes León). Esta enxergava em Cristina/Joselito a continuidade de uma tendência que surgiu num irmão que ela rejeitava, e que prosseguiu – para ela, enquanto “maldição genética” – através de um sobrinho de Cristina, vivificado pelo mesmo ator que encarnou Joselito na adolescência, Marcos Sotkovski.

Na juventude, Cristina é interpretada por Jedet Sánchez e Daniela Santiago e, na idade madura, por Isabel Torres – que, curiosamente, faleceu com a mesma idade da personagem (cinqüenta e dois anos), em 2002, devido a complicações relacionadas a um câncer de pulmão. Apesar de bastante irreverente, a série é marcada por uma tristeza progressiva, associada às injustiças sofridas pelas personagens biografadas e também pelas que elas próprias cometiam, por extensão. Javier Ambrossi e Javier Calvo dirigem cinco dos oito episódios e escrevem a maioria deles, tendo a verdadeira Valéria Vegas como co-roteirista. No episódio inicial (“La Noche que Cruzamos el Missisipi”), a personagem principal é descoberta enquanto se prostituía, graças a uma reportagem sobre travestis, empreendida por uma jornalista (Lola Dueñas) que organizava as temáticas sensacionalistas de um programa televisivo de variedades. Cristina passa a ser uma convidada habitual deste programa e chama bastante atenção da audiência, mas isto desencadeia reações complicadas para quem não estava acostumado a ver uma personalidade ostensivamente transexual fazer tanto sucesso. Trata-se de uma série mui divertida e com momentos intensamente dramáticos, que chega ao seu píncaro nos episódios 5 (“Cristina A Través del Espejo”) e 6 (“Una de las Nuestras”), quando os aspectos mais controversos do cotidiano da biografada vêm à tona e ela reencontra pessoas que foram importantes para si no passado – vide o instante desalentador em que ela consegue um autógrafo da atriz e cantora Sarita Montiel [1928-2013] para a sua mãe, que idolatrava a artista, mas esta recusa o presente, redirecionado para um amigo de infância de Cristina, Manolito (Jorge Usón), cuja face está prejudicada por procedimentos estéticos mal-sucedidos. É uma série que faz uso de variegados recursos de manipulação emocional, mas de maneira certeira, porque direcionada às intenções militantes e de acolhimento a quem não se sente pertencente ao ambiente em que cresceu, pelos mais diversos motivos. É difícil não chorar – e/ou sentir raiva – durante o transcorrer dos episódios. A série faz jus a todo auê que recebeu, é recomendadíssima!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem disponível em: https://arteaberta.com/wp-content/uploads/2022/06/Paca-la-Pirana-1024×576.jpg

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