“Eu tive mais [votos] do que eu merecia, e menos do que eu precisava…”: quem aniversaria em 6 de outubro?

Antes de ser disponibilizada a gratuidade do direito às certidões de nascimento, era custoso para que alguns brasileiros pudessem registrar os seus filhos. Por isso – sobretudo em regiões ermas, como o interior de cidades nordestinas –, os erros nas datas natalícias eram comuns, conforme aconteceu com o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Em seus documentos, a data indicada como correspondente ao seu nascimento é 6 de outubro de 1945, mas, em verdade, ele nasceu vinte e um dias depois. Comemora o seu aniversário duas vezes ao ano, portanto.

Concorrente, mais uma vez, à reeleição em seu país, Lula é exitoso na maneira como acrescenta anedotas pessoais aos apanágios de sua campanha eleitoral: além de uma lista considerável de feitos promulgados durante os seus mandatos presidenciais, um chamariz destacado na publicidade lulista é a de ele é “um homem do povo”, por já ter passado fome, trabalhado em condições mui dificultosas (como a maioria da população brasileira) e ser nordestino. De maneira singular, ele consegue conciliar as diretrizes de seu partido (PT – Partido dos Trabalhadores) com anseios individuais que, obviamente, incomodaram as elites dominantes. Um conluio oportunista entre os professadores do agendamento midiático fez com que a sua reputação fosse maculada por acusações de corrupção que não foram comprovadas. Quando uma pecha jornalística é imputada sobre alguém, é difícil livrar-se dela!

Antes que pareça que, neste texto, estamos contribuindo para a beatificação eleitoral desta pessoa pública, assumimos, de fato, mais que uma intenção eleitoral declarada: estamos diante, no Brasil, de uma ameaça gritante à democracia, de modo que, não obstante existirem treze candidatos à disputa presidencial, o favoritismo ficou polarizado entre dois deles, um de centro-esquerda e outro de extrema-direita. E, tal qual uma tirinha humorística assaz difundida nas redes sociais, é como se estivéssemos numa conjuntura desértica, em que nos deparamos, após uma longa caminhada, com uma barraca de sorvetes em que são comercializados apenas dois sabores: morango e merda. Se tu não gostas tanto de morango, optarás automaticamente pelo outro sabor?

Enquanto esforço local para que o “picolé de merda” não se converta num sabor eleitoral assaz difundido, alguns cinéfilos sergipanos propuseram a audiência, com debate, ao longa-metragem documental “Entreatos” (2004, de João Moreira Salles). Neste filme, o realizador e sua equipe acompanham o então candidato petista nos derradeiros dias antes da confirmação de sua vitória das urnas, em 2002: inicia-se o período de cobertura em 25 de setembro e termina-se em 27 de outubro do mesmo ano, quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente do Brasil pela primeira vez, após ter concorrido em três eleições anteriores por este cargo…

No início do filme, o próprio diretor explica, em narração ‘off’, a sua redefinição de projeto, demonstrando ter se interessado, na montagem, por aquilo que acontece na intimidade, nos intervalos e/ou trajetos entre as aparições públicas do então candidato à presidência. Além de ser muito divertido – graças ao carisma incontestável de seu protagonista real –, o filme possui um ritmo dinâmico, ao longo de seus cento e dezessete minutos de duração: acompanhamos Lula interagindo com sua equipe; sendo treinado por seu marqueteiro Duda Mendonça a parecer “menos sindicalista”; direcionando amor à sua esposa Marisa Letícia [1950-2017]; reclamando da comida servida nos vôos; escolhendo gravatas; e, claro, percebendo que as suas chances eleitorais eram garantidas pelo ótimo desempenho nas pesquisas e pelo resultado vantajoso no primeiro turno do pleito em questão, quando obteve 46,44% dos votos válidos. A recomendação era para que o candidato se sentisse seguro, mas não que já se sentisse ou demonstrasse vencedor. Nos debates televisivos, equipes analisavam as reações imediatas de espectadores selecionados. Quando ocorre a esperada vitória, José Serra, o candidato derrotado pelo PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira), liga para o presidente eleito, congratulando-o por seu desempenho exitoso. Lula responde que ele “foi um adversário leal” e combinam um encontro vindouro, para decidirem uma possível aliança funcional. Algo parecido, infelizmente, é impensável na conjuntura atual, polarizada entre o PT e o PL (Partido Liberal), em que não há respeito no tratamento entre os concorrentes: os bolsonaristas são treinados para odiarem, e xingam e agridem as pessoas de quem discordam em qualquer oportunidade. Ao passo em que recomendamos “Entreatos” como um exemplar notável de documentário reflexivo, que adiciona uma quota intensificada de nostalgia pelo tipo de democracia existente no início do Século XXI, no Brasil, reiteramos que, na eleição prestes a acontecer, eventuais insatisfações quanto a acordos efetuados pelo presidente Lula, em relação à elite bancária e aos agentes do neoliberalismo, são menos urgentes que a necessidade de garantir que a democracia sobreviva. Sem medo de incorrer num populismo votante, defendemos, assim, a urgência de nossa adesão a um dos lados desta polarização. Lularizaremos, mais uma vez: eis a esperança!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem disponível em: https://www.play-doc.com/wp-content/uploads/2026/04/entreatos-750×434.jpg

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