Vencedor — e merecedor — de dois importantes prêmios no Festival Internacional de Cinema de Cannes, “O Agente Secreto” (2025, de Kléber Mendonça Filho) causou bastante rebuliço desde as suas primeiras exibições, tanto que recebeu um terceiro prêmio no supracitado festival, o Prêmio Fipresci, concedido aos favoritos da Crítica. Escolhido pela comissão interna que tenta mais uma indicação do Brasil ao Oscar de Filme Internacional, este filme goza de excelente recepção mundial, justamente por causa dos trabalhos primorosos dos dois premiados: o diretor, que iniciou a sua carreira como crítico, e o ator baiano Wagner Moura, esplêndido numa interpretação dupla (quase tripla), no longa-metragem em pauta. Mas será que este filme justifica todo o auê?
Não se pode reclamar que “O Agente Secreto” seja indigno de toda a publicidade depositada sobre ele: escolhido como filme de abertura em vários festivais brasileiros, antes de sua estréia comercial nos cinemas, este título desencadeou uma busca frenética de ingressos e sessões lotadas por onde passou, o que tem a ver não apenas com o frenesi possivelmente oscarizável, mas com o chamariz já associado ao seu diretor-autor, muito hábil na manipulação de referências cinematográficas e na celebração de seu amor pela cidade-natal, a capital pernambucana, Recife. Porém, ele o faz através de estratégias que, ao mesmo tempo em que estimulam a sensorialidade dos espectadores, subestimam um pouco da capacidade de interpretação política dos mesmos, no sentido de que tudo é excessivamente mastigado, no que tange às reflexões sobre injustiças judiciárias e corrupção policial/militar, que ocorreram no passado ditatorial e que, infelizmente, ainda se manifestam na contemporaneidade…
Sobre o que é este filme: como o diretor é sobremaneira ativo nas redes sociais (principalmente, o Twitter) e manifesta-se de maneira ranzinza quanto a opiniões divergentes acerca de sua opulenta produção, arriscamo-nos a tornamo-nos ‘personae non grata’ por manifestarmos nossas insatisfações quanto a alguns aspectos da obra. Arriscaremos ficar sob este ônus: a despeito da excelência técnica da obra e da magistral seleção de atores e músicas, algo na intenção teleológica – recorrente na ótima filmografia do realizador — não funciona tão bem ao amarrar as inúmeras pontas (intencionalmente) soltas do ambicioso roteiro. Nas bordas, referentes à exposição de dramas pontuais, o filme é genial; na totalidade enredística, problemático em suas simplificações e decepções — inclusive, quanto ao seu desfecho, que reitera a mesma conclusão pessimista (mas crente em alguma transformação mediante apelo à nostalgia) que aparece em “Retratos Fantasmas” (2023): os cinemas de rua converteram-se em farmácias ou igrejas evangélicas, num dos casos; num centro hematológico, no outro. As imagens vistas jamais serão esquecidas?
Na primeira seqüência do filme, Marcelo (Wagner Moura) pára num posto de gasolina, para encher o tanque. Estamos no Carnaval de 1977, “um ano cheio de pirraça” (conforme anuncia um letreiro) e há um corpo morto, estendido no chão, próximo ao estabelecimento. O funcionário do local informa que já ligou para a Polícia mais de uma vez, a fim de recolher o cadáver, mas não lamenta que ele tenha sido assassinado: “era um meliante. Mereceu”, acrescenta. O fedor do indivíduo em decomposição só não é maior que a violência procedimental demonstrada após a aparição de uma dupla de policiais, que intimidam Marcelo de maneira aparentemente gratuita, investigando irregularidades não encontradas em seu Fusca. Sobra tempo até mesmo para um pedido de suborno. Marcelo é firme, entretanto, demonstrando-se acostumado a lidar com pessoas agressivas. E ele segue o seu percurso, em direção a Recife…
Estruturado em três capítulos, como é praxe na obra de Kléber Mendonça Filho, “O Agente Secreto” apresenta-nos aos seus principais personagens em “O Pesadelo do Menino”, estabelece os ambientes onde se desenrolará um clímax persecutório em “Institutos de Identificação” e culmina na reflexão um tanto amargurada do capítulo “Transfusão de Sangue”. Descobrimos que algumas pessoas referem-se a Marcelo como Armando, e isso tem a ver com o seu passado enquanto professor universitário, e com o embate direto com um agressivo industrial (Luciano Chirolli), apadrinhado pelo Ministério de Minas e Energia. A esposa de Marcelo/Armando, Fátima (Alice Carvalho), não está mais viva e, na única cena que ela protagoniza, vemo-la enfrentando de cabeça erguida uma série de preconceitos machistas, de modo que ela é amplamente aplaudida pelo público presente às sessões. Seu pai, Alexandre (Carlos Francisco) é projecionista num cinema local, e acha normal que as pessoas utilizem o espaço para fazer sexo oral, ao contrário da polícia recifense, que converte-se numa entidade lendária (a “perna cabeluda”), inventada pelos jornalistas sensacionalistas, para validar as agressões destinadas aos homossexuais que são freqüentadores noturnos de uma praça da cidade. Num hotel improvisado, gerenciado pela carismática dona Sebastiana (Tânia Maria, fascinante), pessoas perseguidas por ditaduras nacionais encontram-se, interagem e lêem notícias que não correspondem à realidade. Entre eles, uma breve e maravilhosa participação da atriz portuguesa Isabél Zuaa, que emociona-nos ao dizer o porquê de ter escolhido para si um codinome composto. Noutras partes da cidade, matadores de aluguel perseguem o nosso protagonista, sendo um deles Abdias, que prefere ser chamado de Bobbi (Gabriel Leone, magnífico em cena). O ato de contar dinheiro funciona como uma rima visual, que aparece em diversos momentos, mancomunando as pessoas atreladas à potencial desaparição de Marcelo. No desfecho, o lamento de alguém que quase não lembra mais como era seu pai e que não conheceu a avó materna, retomando tropos que já foram apresentados em “O Som ao Redor” (2012), a obra-prima de seu realizador. É um filme para ser ignorado? Nem de longe. Mas ele reconta episódios anedóticos (e até vexatórios) da política brasileira “para estrangeiro ver”, fazendo graça daquilo que nos atormenta, a fim de consolar quem se sente participativo por bater palmas empolgadas no escuro de uma sessão cinematográfica, junto a assovios entusiasmados. Por tudo isso, não é despropositado o epílogo do filme, quiçá surpreendente quando surge na trama, mas não em nossa realidade de extrema assimetria de classes — e que se reflete nos desperdícios intelectuais associados. Resta à estudante periférica de universidade particular Flávia (interpretada por Laura Lufési, enquanto metonímia) uma árdua pesquisa, abortada pela instituição que a requereu. É aqui que nós entramos?
Wesley Pereira de Castro.
Fonte da imagem disponível em: https://assets.brasildefato.com.br/2025/09/bdf-20250906-153829-53e561-scaled.jpg



