Conforme alguns esperavam, “Uma Batalha Após a Outra” (2025) consagrou-se como o grande vencedor da nonagésima oitava cerimônia do Oscar, ocorrida em 15 de março de 2026: o filme foi laureado em seis dentre as treze categorias em que esteve indicado. O diretor Paul Thomas Anderson — bastante celebrado pela crítica especializada, desde os lançamentos de “Boogie Night — Prazer Sem Limites” (1997) e “Magnólia” (1999), respectivamente, seus segundo e terceiro longas-metragens — confirmou a sua predileção por personagens socialmente deslocados e carentes de afeto, ainda que tenha efetivado algumas concessões narrativas, a fim demonstrar-se acessível às grandes platéias. Optou pela temática familiar, adaptando de maneira livre o romance “Vineland”, publicado em 1990 pelo escritor iconoclasta Thomas Pynchon, que já teve outra de suas obras convertida em filme pelo diretor, através de “Vício Inerente” (2014).
Creditando o seu roteiro como “inspirado no livro”, e não necessariamente adaptado, Paul Thomas Anderson esforçou-se para linearizar as mesclas de subtramas do romance original, que mistura os pontos de vistas e diálogos de vários personagens, situados em tempos e locais distintos, em longos capítulos, que chegavam a conter aspectos fantásticos, justificados pelo consumo de substâncias alucinógenas, em diversas passagens. As situações foram atualizadas para a época contemporânea, que “não parece ter mudado muita coisa”, conforme é dito na apresentação da personagem Willa Ferguson (Chase Infiniti), dezesseis anos após o seu nascimento. Ela será seqüestrada pelo militar Steve J. Lockjaw (Sean Penn, premiado com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por este papel) e protegida pelo pai Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), enquanto diversas pessoas excêntricas são apresentadas, ao longo das mais de duas horas e meia de duração do filme…
No início, acompanhamos as atividades militantes e anti-imperialistas de Bob, junto à sua esposa Perfídia Beverly Hills (Teyana Taylor) e os demais membros do grupo revolucionário French 75 (no livro, trata-se de um coletivo cinematográfico): salvando imigrantes e refugiados políticos, explodindo bancos ou invadindo instituições capitalistas, Perfídia não esconde que excita-se sexualmente em meio a estas empreitadas. Numa das invasões a sedes militares, ela aprisiona e pede que Lockjaw mantenha o seu pênis ereto, num estranho primeiro encontro que repetir-se-á em mais de uma oportunidade, acrescido de um angustiante complexo de culpa, depois que ela é submetida a um Programa de Proteção a Testemunhas. Quando Lockjaw é interrogado acerca do que aconteceu, entretanto, ele diz que foi “estuprado ao contrário”.
Desde a abertura, o filme expõe as atividades do grupo anticapitalista, e também dos policiais que tentam aprisioná-los, ambas de maneira caricatural — ainda mais que no livro, aliás —, o que alimentou suspeitas, por parte dos detratores do realizador, de que ele estaria afiliado ao pensamento de direita, o que encontra eco quando ele dizia, em entrevistas, que “é um diretor de cinema, não um político”. Porém, por mais que o enredo incomode devido à ambigüidade de sua mensagem geral, é evidente que ele não adere aos discursos de extrema-direita, visto que militares e policiais são mostrados como interesseiros, corruptos e moralmente hipócritas, ainda que seja inusual a insistência do revolucionário envelhecido Bob Ferguson (outrora conhecido como Ghetto Pat) em convencer a sua esposa de que, agora que eles tiveram uma filha, devem se organizar enquanto família. É o que desencadeia uma depressão pós-parto em Perfídia, que é, também, um sintoma de não-conformismo quanto aos valores heterossexuais e matrimoniais estadunidenses. Mas nada disso é mostrado de maneira polarizada, a despeito do maniqueísmo persecutório de Lockjaw em relação aos parentes e companheiros de Perfídia.
Já recebedor do prêmio de Melhor Direção nos festivais de Cannes (em 2002, por “Embriagado de Amor”), Berlim (em 2007, por “Sangue Negro”) e Veneza (em 2012, por “O Mestre”), entre tantos outros prêmios, Paul Thomas Anderson recebeu, em 2026, um prêmio que deixa a impressão de ser muito mais destinado à consolidação autoral de sua carreira, não obstante seus virtuosismos profissionais serem mui destacados, graças inclusive a uma equipe fiel de colaboradores, como o músico Jonny Greenwood, o fotógrafo Michael Bauman e o editor Andy Jurgensen, recorrentes em seus últimos trabalhos. Mencionado quase unanimemente nas listas de Melhores Filmes de 2025 — da revista Cahiers du Cinéma a uma publicação do ex-presidente Barack Obama, passando pela revista Sight and Sound, pela Film Comment e pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) —, “Uma Batalha Após a Outra” foi alvo de diversas opiniões agressivas, desconfiadas quanto às intenções relacionadas à simplificação ideológica de sua trama. Revendo-se o filme, pode-se verificar que ele abarca mais de um ponto de vista, ainda que seja indisfarçado o seu elogio às preocupações paternas quanto ao bem-estar dos filhos e ao elã geracional empoderado, que faz com que Willa saia de cena ao som da canção setentista “American Girl”, de Tom Petty and the Heartbreakers, após ensinar o seu pai a utilizar um telefone celular de última geração, antes de ela participar de uma reivindicação anticapitalista, nos moldes daquelas organizadas por seus pais, na juventude. O tom cômico que atravessa parte da narrativa incomoda por parecer zombar disso, em contraste com a ansiedade trágica com que Lockjaw deseja ser aceito por um grupo fundamentalista, que questiona a sua simpatia (sexual) por pessoas negras. Em mais de um aspecto, o filme serve como um sintoma perturbador dos tempos atuais, tanto quanto o romance original fez isso, em tom de sátira anticonformista, quando foi lançado. Que ele tenha sido tão bem aceito pelos votantes do Oscar, famosos por seu conservadorismo, é algo que aumenta as suspeições em torno da obra. Os julgamentos a que ele será submetido ao longo tempo e/ou a nossa disposição em debatê-lo permitem que aspectos inteligentes e não-entreguistas sejam detectados, como eram explicitamente abundantes nas obras iniciais do realizador. Será que ele tornou-se conformista, depois que envelheceu? Será que ele está nos provocando criticamente? São perguntas que não se excluem, ainda que, em nossa apreciação, este filme em particular talvez não mereça ser considerado como um de seus melhores trabalhos. Mas suas marcas estilísticas saltam aos olhos (e ouvidos) desde o primeiro instante!
Wesley Pereira de Castro.
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2 respostas
Belo texto!
Muitíssimo obrigado!