A política internacional contemporânea atravessa um período singular da história estratégica: múltiplos conflitos emergem simultaneamente em geografias distintas, mas revelam padrões estruturais semelhantes. As tensões envolvendo os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, o Israel, o Irão, o Paquistão e o Afeganistão não devem ser analisadas como crises isoladas. Pelo contrário, representam manifestações interligadas de uma transformação mais profunda da ordem global, marcada pela erosão da previsibilidade estratégica e pela emergência de um sistema internacional multipolar. O mundo não se encontra ainda em guerra declarada, mas aproxima-se perigosamente de um estado que a literatura científica descreve como escalada pré-declaratória, um limiar onde a guerra torna-se possível sem ser formalmente assumida.
Kenneth Waltz (2025) explica que, em sistemas internacionais anárquicos, os Estados procuram constantemente aumentar a sua segurança, mas este esforço gera insegurança nos outros atores. Este dilema de segurança ajuda a compreender o atual confronto entre os Estados Unidos e o Irão. Para Washington e para Israel, o avanço do programa nuclear iraniano constitui ameaça estratégica potencial; para Teerão, contudo, esta mesma capacidade representa garantia de sobrevivência num ambiente regional percecionado como hostil. Assim, ações consideradas defensivas por um lado são interpretadas como ofensivas pelo outro, criando ciclos sucessivos de desconfiança.
Mearsheimer, J. (2026) argumenta que Estados inseridos em regiões instáveis tendem inevitavelmente a maximizar poder relativo, não por ambição ideológica, mas por necessidade de sobrevivência. Esta lógica explica simultaneamente o comportamento iraniano e a postura israelita. Israel, cuja doutrina de segurança assenta na prevenção antecipada de ameaças existenciais, procura manter superioridade dissuasora permanente. Inbar (2025) demonstra que a estratégia israelita privilegia a neutralização precoce de riscos estratégicos, especialmente quando estes envolvem potenciais capacidades nucleares adversárias.
A atuação dos Estados Unidos insere-se, por sua vez, numa transformação da política externa contemporânea. Nye, J. (2025) sustenta que o poder no século XXI deixou de depender exclusivamente da presença militar direta, evoluindo para formas híbridas de influência baseadas em tecnologia, inteligência e alianças flexíveis. A perceção pública de que Washington poderá reduzir o envolvimento direto no Médio Oriente não traduz abandono de aliados, mas uma recalibração estratégica destinada a evitar guerras prolongadas semelhantes às experiências do Iraque e do Afeganistão. Contudo, como sublinha Allison (2025), em política internacional as perceções têm impacto equivalente aos factos: qualquer ambiguidade pode incentivar adversários a testar limites estratégicos.
Enquanto o foco mediático permanece no Médio Oriente, outro teatro de tensão cresce silenciosamente na fronteira entre Paquistão e Afeganistão. À primeira vista, trata-se de um conflito distinto, centrado em ataques transfronteiriços e segurança territorial. No entanto, Buzan e Wæver (2025) demonstram que regiões geograficamente próximas tendem a formar complexos de segurança interdependentes. A instabilidade num ponto altera cálculos estratégicos noutro. Assim, a escalada entre Paquistão e Afeganistão não ocorre isoladamente, mas num ambiente global onde a credibilidade militar e a demonstração de força tornaram-se linguagem dominante.
Rubin (2025) caracteriza o Afeganistão contemporâneo como um Estado de soberania limitada, incapaz de exercer controlo completo sobre o território. Esta fragilidade institucional cria zonas cinzentas onde grupos armados operam entre fronteiras, levando o Paquistão a responder militarmente para preservar a estabilidade interna. O elemento crítico reside no facto do Paquistão ser potência nuclear, o que eleva significativamente o risco estratégico mesmo em confrontos convencionais localizados.
Apesar das diferenças culturais e históricas entre o Médio Oriente e a Ásia Central, os conflitos partilham fundamentos comuns. Mary Kaldor (2026) descreve as guerras contemporâneas como “novas guerras”, caracterizadas por fronteiras difusas entre guerra formal e conflito híbrido. Em vez de declarações oficiais, predominam pressões económicas, ataques indiretos, operações limitadas e demonstrações militares calculadas. O cenário atual encaixa plenamente nesta definição: há mobilização, ameaça e confronto indireto, mas ausência de guerra formal.
O que une estas crises é também a transformação estrutural da ordem internacional. Ikenberry (2026) argumenta que o sistema liberal internacional construído após a Segunda Guerra Mundial enfrenta um processo gradual de erosão, sendo substituído por uma ordem competitiva onde múltiplos polos de poder coexistem sem regras totalmente estabilizadas. Em períodos de transição sistémica, a incerteza aumenta e conflitos regionais tornam-se mais frequentes, não necessariamente porque os Estados desejam guerra, mas porque as regras implícitas deixam de ser claras.
Outro fator comum reside nos interesses estratégicos subjacentes. Em primeiro lugar, existe o interesse de segurança: todos os atores envolvidos percecionam ameaças existenciais ou riscos de perda de influência. Em segundo lugar, surge o interesse económico, particularmente ligado à energia e às rotas comerciais globais. A Agência Internacional de Energia (IEA, 2026) alerta que qualquer instabilidade prolongada no Golfo Pérsico teria impacto direto na economia mundial, elevando preços energéticos e pressionando sistemas financeiros. Em terceiro lugar, encontram-se interesses políticos internos. Weeks (2025) demonstra que líderes políticos sob pressão doméstica tendem a adotar posturas externas mais assertivas, utilizando crises internacionais como instrumento de legitimação interna.
Importa, contudo, reconhecer o que diferencia estes conflitos. O confronto EUA–Irão possui natureza geopolítica global; a relação Israel–Irão é estratégica e existencial; já o conflito Paquistão–Afeganistão emerge sobretudo de dinâmicas fronteiriças e insurgentes. As causas imediatas divergem, mas todas operam dentro da mesma transformação sistémica: a adaptação a um mundo onde nenhuma potência consegue garantir estabilidade isoladamente.
A questão central torna-se então inevitável: estamos perante uma guerra quase declarada? Do ponto de vista científico, o momento atual corresponde a um estado intermédio entre paz e guerra. Existem forças mobilizadas, ameaças explícitas e alianças ativadas, mas permanece espaço diplomático ativo. A história demonstra que muitos conflitos permanecem por longos períodos neste limiar, onde a guerra é possível, mas continuamente adiada pela consciência dos custos globais.
O verdadeiro fenómeno subjacente não é religioso nem meramente territorial. Trata-se da redefinição da hierarquia internacional. À medida que o sistema torna-se multipolar, aumenta a competição por influência regional e diminui a capacidade de coordenação global. Cada ator procura segurança individual, mas o resultado coletivo aproxima o sistema da instabilidade.
Assim, cruzando os Estados Unidos, Israel, o Irão, o Paquistão e o Afeganistão, emerge uma conclusão central: o mundo não vive uma única guerra, mas uma convergência de tensões estruturais que refletem a transição histórica para uma nova ordem internacional. A quase-guerra atual não resulta de decisão isolada de um líder ou de um evento específico; nasce da interação entre medo estratégico, competição de poder e incerteza sistémica.
A história ensina que os períodos mais perigosos não são aqueles em que a guerra já começou, mas aqueles em que todos acreditam ainda ser possível evitá-la enquanto continuam a preparar-se para ela. É precisamente neste espaço, entre contenção e escalada, que o sistema internacional encontra-se hoje.
Referências Bibliográficas
Allison, G. (2025). Destined for war revisited: Power transitions and global instability. Harvard University Press.
Buzan, B., & Wæver, O. (2025). Regions and powers: The structure of international security (2nd ed.). Cambridge University Press.
International Energy Agency. (2026). World energy outlook 2026. IEA Publications. https://www.iea.org
Ikenberry, G. J. (2026). After liberal order: Power, norms and global transition. Princeton University Press.
Inbar, E. (2025). Israel’s national security doctrine in changing regional dynamics. Middle East Strategic Studies, 14(2), 55–72.
Kaldor, M. (2026). New wars and global disorder in the digital age. Polity Press.
Mearsheimer, J. J. (2026). Great power politics in the twenty-first century (Updated ed.). W. W. Norton & Company.
Nye, J. S. (2025). Soft power and alliance transformation in global politics. Oxford University Press.
Rubin, B. R. (2025). Afghanistan and regional instability after international withdrawal. Journal of Strategic Studies, 48(2), 155–173.
Stockholm International Peace Research Institute. (2026). SIPRI yearbook 2026: Armaments, disarmament and international security. SIPRI. https://www.sipri.org
Waltz, K. N. (2025). Theory of international politics revisited. Columbia University Press.
Weeks, J. L. (2025). Domestic politics and international conflict escalation. International Organization Review, 79(1), 101–124.



