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Em termos audiovisuais, 2026 começou muito bem: surgiram os primeiros filmes brasileiros do ano!

Em termos audiovisuais, 2026 começou muito bem: surgiram os primeiros filmes brasileiros do ano!

Entre os dias 23 e 31 de janeiro de 2026, aconteceu a vigésima nona edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais. Trata-se do evento que inaugura as premiações cinematográficas no Brasil e é quando somos apresentados a títulos que, mesmo que não consigam ser distribuídos comercialmente, tendem a ser mencionados nas listas de melhores do ano dos mais renomados críticos do país, por conta da vinculação/requisição persistente à autoralidade. Numa entrevista concedida por ocasião do lançamento, em exibição não competitiva, de seu novo filme, o curta-metragem “O Fantasma da Ópera” (2026, co-dirigido por Rodrigo Lima), o cineasta Júlio Bressane elogiou a curadoria desta mostra por aceitar todos os tipos de metragem. Assim, as descobertas das qualidades fílmicas das obras não são limitadas por suas durações, existindo sessões que privilegiam tanto curtas quanto longas-metragens…

Na seção competitiva Aurora, o filme escolhido como vencedor pelo Júri Jovem foi inusitadamente um média-metragem: com duração de cinqüenta e oito minutos, “Para os Guardados” (2026, de Desali & Rafael Rocha) é um filme que “constrói um retrato íntimo e coletivo das marcas do cárcere e das redes de cuidado que resistem ao abandono. Gerações da quebrada se encontram pra refletir”, conforme diz a sua sinopse. Por enquanto, não o conseguimos ver, tanto quanto o elogiadíssimo vencedor da seção Olhos Livres e também escolhido como Melhor Filme, de acordo com o Júri Popular, o documentário “Anistia 79” (2026, de Anita Leandro). Ansiamos pela oportunidade em que ambas as obras estarão disponíveis.

Dentre os curtas-metragens laureados na principal seção competitiva, que foi a Mostra Foco, os destaques foram “Entrevista com Fantasmas” [2026, de Lincoln Péricles (LK)], que recebeu o prêmio de Melhor Curta Metragem segundo o Júri Oficial, e “Grão” (2026, de Gianluca Cozza & Leonardo da Rosa), que recebeu o prêmio de aquisição do Canal Brasil. O primeiro descreve, de maneira lúdica (quase rohmeriana), o encontro entre o diretor e a atriz Lorena Zanetti, na cidade gaúcha de Rio Grande, no extremo Sul do Brasil. Ela apresenta-se como uma atriz com mais de cem anos de carreira, mas que precisa trabalhar como divulgadora de uma loja de eletrodomésticos, para sobreviver. É a deixa para que o realizador, que provém de um ambiente proletário paulistano, teça uma reflexão paralela sobre o descrédito longevo direcionado ao cinema brasileiro, perante os lançamentos estrangeiros, causa principal da chaga subdesenvolvimentista desta arte (em sentido comercial) no país; o segundo filme, por sua vez, expõe o cotidiano solitário de um rapaz que revende grãos de soja que escorreram do transporte marítimo ou ferroviário de mercadorias.

Em razão de possuir aspectos críticos que ultrapassam o seu desenvolvimento narrativo, dedicamos algumas linhas adicionais a este filme emocionalmente complexo que é “Grão”, na maneira como ele radiografa um tipo específico de masculinidade, que adere a elementos chavonados de ostentação (tatuagens abundantes, automóvel luxuoso com sistema de som externo), mas que torna-se refém da falta de recursos aquisitivos para suprir as necessidades básicas, além de inassumir uma terrível solidão. Tanto que, em determinada seqüência, restará ao protagonista — magistralmente vivificado por Leandro Gomes — uma masturbação quase automática na boate onde ele esperava encontrar alguma parceira sexual, enquanto ouvia canções que hipertrofiavam o desempenho erótico dos envolvidos. Trata-se de um petardo sociológico e psicológico mui aplaudível!

Ainda que não tenha sido laureado – e esta não deveria ser a intenção principal de uma mostra cinematográfica, “fazer com que os filmes estejam competindo entre si”, conforme enfatizou Lincoln Péricles (LK) em seu contundente discurso de agradecimento —, aproveitamos esta deixa textual para elogiarmos o longa-metragem amazonense “Obeso Mórbido” (2026, de Diego Bauer), que corresponde à expansão de um projeto que o realizador executara em curta-metragem, em 2018, junto ao co-roteirista Ricardo Manjaro. Neste novo filme, Diego Bauer presta-se a uma auto-ficção, servindo-se de traumas pessoais como ponto de partida para um exercício desconfortável de empatia em relação a um personagem que, tal como ele, é ator e mudou drasticamente de peso. No filme, Diego é mostrado numa obsessiva rotina aeróbica, a fim de manter a forma atual, mas uma série de frustrações íntimas e profissionais fará com que ele engorde novamente e volte a morar com os seus pais. Agindo de maneira egocêntrica e/ou explosiva, Diego envolve-se em diversas brigas ao longo dos noventa e três minutos de projeção, revelando falhas de caráter advindas dos maus tratos reiterados de familiares ou contratadores. Trata-se de um ato assaz corajoso de exposição pessoal, que obedece a algumas convenções dramáticas de gênero, mas sem rejeitar o radicalismo de uma proposta que, entre outras características, torna imprescindível o recurso à nudez freqüente e uma cena explícita de masturbação. De nossa parte, torcemos para que esta obra, tanto quanto os demais filmes citados, encontrem os seus respectivos públicos, neste ano de 2026, que avança de maneira periclitante, tamanha a quantidade de conflitos políticos esboçados internacionalmente. No Brasil, reiteramos a necessidade de uma observação particular: é ano eleitoral, estejamos atentos àquilo que os filmes nos advertem!

Wesley Pereira de Castro.


Fonte da imagem: https://cinepop.com.br/wp-content/uploads/2026/02/5507181811568502c6269k.jpg

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