Na madrugada do dia de Finados (02 de novembro) de 1975, um crime ainda inexplicado ocorria: o cineasta Pier Paolo Pasolini [1922–1975] era espancado até a morte, e atropelado por seu próprio carro, num bairro periférico de Roma, num local onde costumava efetivar seus encontros sexuais com jovens prostitutos. Um bode expiatório adolescente, Giuseppe Pelosi [1958–2017], foi aprisionado, mas são incontáveis as lacunas em seus depoimentos sobre o crime, de modo que há fortes indícios de que o cineasta foi morto por causa de seus posicionamentos políticos radicais, que desagradavam tanto a direita neofascista quanto a esquerda deslumbrada de seu país. O legado pasoliniano permanece vivo, entretanto…
Tendo realizado praticamente um longa-metragem por ano, entre vários outros trabalhos, nos quatorze anos em que esteve ativo enquanto realizador cinematográfico, Pier Paolo Pasolini chocou o público com sua derradeira obra, “Salò, ou os 120 Dias de Sodoma” (1975), que abjurava a energia sexual “positiva” dos filmes que havia lançado imediatamente antes, comumente divulgados como a “Trilogia da Vida”. Neste último filme, lançado num festival de cinema francês — mas logo censurado —, três semanas após o seu assassinato, um quarteto de autoridades (um membro do poder executivo, um aristocrata, um bispo e um juiz) sequestra dezoito adolescentes e os subjuga a seus jogos de sadismo e perversão sexual, numa casa luxuosa no interior da cidade titular, numa conjuntura associada ao intentado estabelecimento de uma república fascista, no final da Segunda Guerra Mundial. As cenas de extrema violência escandalizam o público até hoje!
Na obra, baseada num romance de Donatien Alphonse François de Sade [1740–1814], conhecido mundialmente pela alcunha Marquês de Sade, os adolescentes são reiteradamente estuprados e maltratados enquanto três prostitutas narram estórias de malevolência, nos círculos da Tara, da Merda e do Sangue, obedecendo à estrutura narrativa original. Era uma maneira de o diretor demonstrar o seu desagrado e pessimismo quanto à adesão consumista do público, numa sujeição ao fascismo contemporâneo, caracterizado por um massacrante poder de sedução, que, sob o consentimento das pessoas alienadas, convertia a tudo em mercadoria, sobretudo o prazer. Era difícil acreditar em emancipação através do sexo, numa conjuntura como esta. Mas ele se insurge, de maneira inesperada e pungente.
Na cinebiografia “Pasolini” (2014), dirigida por Abel Ferrara, acompanhamos o diretor reagindo ao estupor de jornalistas suíços — logo na abertura, enquanto montava o referido filme – que alegavam que os atores da obra em pauta, ainda não lançada, seriam masoquistas. De maneira lacônica, Pier Paolo (interpretado muitíssimo bem por Willem Dafoe), utilizava frases de efeito, contidas em seus famosos “escritos corsários”, em que manifestava o seu profundo descontamento quanto à sociedade atual — sobretudo em relação à juventude. Neste sentido, é interessante acompanhar como o filme retrata os últimos dias do realizador, interagindo com a sua mãe Susanna (interpretada por Adriana Asti), com a atriz e amiga Laura Betti (Maria de Medeiros, extraordinária) e com os rapazes por quem nutria atração sexual.
Combinando reconstituições de época (os ataques que ceifaram a existência do protagonista, numa dolorosa e estendida sequência, enquanto destaque) com emanações de suas publicações literárias (uma delas protagonizada por um envelhecido Ninetto Davoli, parceiro do diretor italiano em diversos filmes, que vivifica o personagem Epifânio), a homenagem prestada a Pier Paolo Pasolini pelo católico Abel Ferrara é sobremaneira emocionada e estilizada. Para quem não conhece a fundo a obra do biografado, é um ótimo incentivo para querer saber mais sobre ele, ainda que evite as especulações políticas, de caráter conspiratório, acerca de seu assassinato. Ao exercer diversas funções artísticas (era, além de cineasta, poeta, ensaísta, jornalista e tantas outras atividades), Pier Paolo Pasolini mantinha-se em constante evidência midiática, de modo que seus escritos costumavam causar muita celeuma, a ponto de publicações sensacionalistas sequer disfarçarem a comemoração de sua morte, visto que ele também incomodava a opinião pública por ser escancaradamente homossexual. Quando perguntado acerca de qual de suas atividades profissionais era preferia ser reconhecido, ele apenas responde: “no meu passaporte, consta ‘escritor’”. Deveras versátil e potente, a filmografia pasoliniana deve ser conhecida pelas novas gerações, como uma das mais inventivas e qualitativas. Eis a nossa exortação acessória, portanto: “Teorema” (1968) é uma obra-prima absoluta do cinema mundial!
Wesley Pereira de Castro.
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